A comunidade de Paraisópolis, bairro de 150 mil habitantes que contrasta com o luxo dos imóveis no bairro do Morumbi, em São Paulo, receberá pela primeira vez uma corrida de rua que, embora não atraia os grandes nomes do atletismo nacional, pode ser a chance ideal para que novos talentos descubram o esporte. Cerca de 500 pessoas vão largar para um percurso de 4 quilômetros dentro da própria favela, no próximo domingo, a partir das 9 horas.
| PEDREIRO-ATLETA TREINA JOVENS |
|---|
 |
Juracy Almeida, de 30 anos, se machucou durante uma obra e não vai poder participar da corrida. Mas ele estará representado pelos seus pupilos, que aproveitaram a oportunidade da prova para começar a treinar com ele.
"Montei essa equipe exclusiva para a prova, não pra ganhar, mas pra participar mesmo, prestigiar a comunidade nesse momento histórico", comenta.
"Para mim, voltar a correr, vai ser mais difícil. Então, vou voltar ajudando. O meu maior objetivo agora e identificar novos atletas. Por exemplo: O Vanderlei [Cordeiro de Lima] agora está saindo. A gente vai perder grandes atletas, e precisamos criar novos para substituí-los", explica Juracy. |
|---|
|
LEIA MAIS |
Será a abertura do Circuito Popular de Corridas, que ainda vai passar pelas comunidades de Heliópolis, também em São Paulo, e Recanto das Emas, em Brasília. Uma das diferenças para as provas tradicionais está na taxa de inscrição. Um quilo de alimento não perecível dá direito à mesma estrutura de provas como a São Silvestre, que cobra um investimento inicial de R$ 65.
"O maior objetivo é levar a qualidade de vida usando o atletismo como ferramenta. E isso não se faz só invadindo o bairro e levando o evento de fora para dentro. Todos os profissionais que vão trabalhar na prova são de dentro da comunidade", explica Hélio Takai, coordenador da organização.
Já a coordenadora da União de Moradores de Paraisópolis acredita que um evento como esse transcende os aspectos sociais. "Vai ser muito importante porque vai revelar alguns talentos que estão escondidos e a gente não conhece. Nós também vamos sentir o que a associação vai poder fazer para incentivar mais, correr atrás de patrocínio e incentivar essas pessoas", afirma Juliana Rodrigues.
Opinião parecida é a de Adauto Domingues, treinador de Marílson Gomes dos Santos, vencedor da Maratona de Nova York: "É assim que a gente descobre gente talentosa, porque é muito mais fácil para os moradores dessas comunidades terem acesso a uma corrida de rua do que a uma pista de atletismo", avalia o técnico. "Assim, eles podem correr em qualquer lugar, na rua, na praça, sem precisar sair do bairro", comentou.
| CORRER, SÓ FORA DO BAIRRO |
|---|
 |
Única área de lazer da comunidade, o Campo do Palmeirinha (foto) é o local da largada da primeira corrida de rua de Paraisópolis. Lá, vários grupos de jovens dividem as traves para bater uma bola.
Correr, no entanto, só fora da comunidade. O trânsito nas ruas estreitas de Paraisópolis é intenso, com pessoas e carros passando a toda hora, o que acaba quebrando o ritmo. O Parque Burle Marx é a opção mais próxima para os corredores do bairro. |
|---|
|
A EXPECTATIVA DA COMUNIDADE |
Mais precisamente, será no Campo do Palmeirinha, único espaço de lazer da comunidade, que a largada vai ser realizada. Depois, os corredores vão perceber que os 4 quilômetros anunciados são falsos. As subidas e descidas do trajeto, que passa por 10 ruas de Paraisópolis, tornam o caminho mais cansativo do que parece no mapa.
Foi o que verificou o vigilante Josivaldo José da Silva, de 40 anos, que mora em Paraisópolis e vai usar a corrida como preparação para a sua quarta São Silvestre. Deixando de lado o costumeiro treino no Parque Burle Marx, que fica nas proximidades, ele resolveu conferir o que o espera na prova de domingo.
"Um evento como esse é muito bom para conhecer outras pessoas que praticam esporte", disse Josivaldo, enquanto trocava figurinhas com o novo amigo Juracy Almeida, de 30 anos, que pratica corrida há 10, mas não vai participar da prova porque está machucado. Os dois se encontraram durante um treino e acabaram trocando contatos.
Mas não são apenas os mais experientes que se empolgaram com a possibilidade de correr no quintal de casa. Jesaías Carvalho, de 15 anos, gostou da iniciativa, mas ficou decepcionado com a idade limite de 16 anos para os participantes.
"Corro 4 quilômetros tranqüilamente. Idade não tem nada a ver com isso. O que importa é a disposição. Se a pessoa quer, ela consegue", protesta o garoto, que começou a praticar incentivado pelos primos e começou a treinar todas as manhãs, rotina que foi interrompida pela matrícula em um curso profissionalizante de Administração de Empresas.
| INSCRIÇÕES NAS ESCOLAS |
|---|
 |
Juliana Rodrigues (foto), coordenadora da União de Moradores, conta que percorreu as quatro escolas de Paraisópolis para colher inscrições. De cada sala de 30 alunos, em média cinco aceitavam participar.
A arrecadação das inscrições, que custam um quilo de alimento não perecível, será convertida para a própria comunidade.
Mesmo com o preço simbólico, a corrida terá toda a estrutura de uma corrida de alto nível, inclusive com chips eletrônicos de identificação e UTI móvel, além de banheiros químicos, distribuição de isotônicos. |
|---|
|
LEIA MAIS SOBRE ATLETISMO |
Os amigos de Jesaías também foram até a União de Moradores de Paraisópolis para fazer a inscrição. Mas o objetivo deles era diferente. Raimundo Eduardo Frazão, marceneiro de 24 anos, está de olho é no prêmio. O vencedor vai ganhar R$ 750, o segundo colocado R$ 500, e o terceiro R$ 350. "Não costumo treinar, mas fiquei sabendo agora da corrida e decidi fazer um teste para ver até onde vai a minha resistência", comentou.
Hélio Takai explica que o objetivo é justamente atrair pessoas como Raimundo, que vêem na corrida uma oportunidade para ingressar no esporte. Para ele, este é um dos motivos da divulgação ter se concentrado apenas dentro da comunidade. "É para um público muito pontual. A gente pensa em levar a modalidade para pessoas que nunca ouviram falar", completa.
Mas nem isso impediu que moradores de outras localidades se inscrevessem para a prova. "Tem muitos atletas vindos de fora, que ficaram sabendo pelo site. Teve gente que ligou da zona norte, que veio de outros bairros para fazer a inscrição. Nós nem sabíamos que tinha essa repercussão toda fora de Paraisópolis", revela Juliana Rodrigues.
Mas, para o técnico de Marílson, a participação de atletas profissionais não chega a ser totalmente benéfica para uma prova como essa. "Se o objetivo da organização é ver aparecer gente nova, a presença de atletas de ponta pode ser bom porque motiva os outros participantes. Mas, por outro lado, a diferença do nível vai ser muito grande e pode desestimular o restante dos corredores", analisa Adauto Domingues.