UOL Esporte Atletismo
 
27/11/2008 - 08h20

Circuito de corridas empolga favela paulistana e incentiva talentos

Rafael Krieger
Em São Paulo
A comunidade de Paraisópolis, bairro de 150 mil habitantes que contrasta com o luxo dos imóveis no bairro do Morumbi, em São Paulo, receberá pela primeira vez uma corrida de rua que, embora não atraia os grandes nomes do atletismo nacional, pode ser a chance ideal para que novos talentos descubram o esporte. Cerca de 500 pessoas vão largar para um percurso de 4 quilômetros dentro da própria favela, no próximo domingo, a partir das 9 horas.

PEDREIRO-ATLETA TREINA JOVENS
Rafael Krieger/UOL
 
Juracy Almeida, de 30 anos, se machucou durante uma obra e não vai poder participar da corrida. Mas ele estará representado pelos seus pupilos, que aproveitaram a oportunidade da prova para começar a treinar com ele.

"Montei essa equipe exclusiva para a prova, não pra ganhar, mas pra participar mesmo, prestigiar a comunidade nesse momento histórico", comenta.

"Para mim, voltar a correr, vai ser mais difícil. Então, vou voltar ajudando. O meu maior objetivo agora e identificar novos atletas. Por exemplo: O Vanderlei [Cordeiro de Lima] agora está saindo. A gente vai perder grandes atletas, e precisamos criar novos para substituí-los", explica Juracy.
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Será a abertura do Circuito Popular de Corridas, que ainda vai passar pelas comunidades de Heliópolis, também em São Paulo, e Recanto das Emas, em Brasília. Uma das diferenças para as provas tradicionais está na taxa de inscrição. Um quilo de alimento não perecível dá direito à mesma estrutura de provas como a São Silvestre, que cobra um investimento inicial de R$ 65.

"O maior objetivo é levar a qualidade de vida usando o atletismo como ferramenta. E isso não se faz só invadindo o bairro e levando o evento de fora para dentro. Todos os profissionais que vão trabalhar na prova são de dentro da comunidade", explica Hélio Takai, coordenador da organização.

Já a coordenadora da União de Moradores de Paraisópolis acredita que um evento como esse transcende os aspectos sociais. "Vai ser muito importante porque vai revelar alguns talentos que estão escondidos e a gente não conhece. Nós também vamos sentir o que a associação vai poder fazer para incentivar mais, correr atrás de patrocínio e incentivar essas pessoas", afirma Juliana Rodrigues.

Opinião parecida é a de Adauto Domingues, treinador de Marílson Gomes dos Santos, vencedor da Maratona de Nova York: "É assim que a gente descobre gente talentosa, porque é muito mais fácil para os moradores dessas comunidades terem acesso a uma corrida de rua do que a uma pista de atletismo", avalia o técnico. "Assim, eles podem correr em qualquer lugar, na rua, na praça, sem precisar sair do bairro", comentou.

CORRER, SÓ FORA DO BAIRRO
Rafael Krieger/UOL
 
Única área de lazer da comunidade, o Campo do Palmeirinha (foto) é o local da largada da primeira corrida de rua de Paraisópolis. Lá, vários grupos de jovens dividem as traves para bater uma bola.

Correr, no entanto, só fora da comunidade. O trânsito nas ruas estreitas de Paraisópolis é intenso, com pessoas e carros passando a toda hora, o que acaba quebrando o ritmo. O Parque Burle Marx é a opção mais próxima para os corredores do bairro.
A EXPECTATIVA DA COMUNIDADE
Mais precisamente, será no Campo do Palmeirinha, único espaço de lazer da comunidade, que a largada vai ser realizada. Depois, os corredores vão perceber que os 4 quilômetros anunciados são falsos. As subidas e descidas do trajeto, que passa por 10 ruas de Paraisópolis, tornam o caminho mais cansativo do que parece no mapa.

Foi o que verificou o vigilante Josivaldo José da Silva, de 40 anos, que mora em Paraisópolis e vai usar a corrida como preparação para a sua quarta São Silvestre. Deixando de lado o costumeiro treino no Parque Burle Marx, que fica nas proximidades, ele resolveu conferir o que o espera na prova de domingo.

"Um evento como esse é muito bom para conhecer outras pessoas que praticam esporte", disse Josivaldo, enquanto trocava figurinhas com o novo amigo Juracy Almeida, de 30 anos, que pratica corrida há 10, mas não vai participar da prova porque está machucado. Os dois se encontraram durante um treino e acabaram trocando contatos.

Mas não são apenas os mais experientes que se empolgaram com a possibilidade de correr no quintal de casa. Jesaías Carvalho, de 15 anos, gostou da iniciativa, mas ficou decepcionado com a idade limite de 16 anos para os participantes.

"Corro 4 quilômetros tranqüilamente. Idade não tem nada a ver com isso. O que importa é a disposição. Se a pessoa quer, ela consegue", protesta o garoto, que começou a praticar incentivado pelos primos e começou a treinar todas as manhãs, rotina que foi interrompida pela matrícula em um curso profissionalizante de Administração de Empresas.

INSCRIÇÕES NAS ESCOLAS
Rafael Krieger/UOL
 
Juliana Rodrigues (foto), coordenadora da União de Moradores, conta que percorreu as quatro escolas de Paraisópolis para colher inscrições. De cada sala de 30 alunos, em média cinco aceitavam participar.

A arrecadação das inscrições, que custam um quilo de alimento não perecível, será convertida para a própria comunidade.

Mesmo com o preço simbólico, a corrida terá toda a estrutura de uma corrida de alto nível, inclusive com chips eletrônicos de identificação e UTI móvel, além de banheiros químicos, distribuição de isotônicos.
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Os amigos de Jesaías também foram até a União de Moradores de Paraisópolis para fazer a inscrição. Mas o objetivo deles era diferente. Raimundo Eduardo Frazão, marceneiro de 24 anos, está de olho é no prêmio. O vencedor vai ganhar R$ 750, o segundo colocado R$ 500, e o terceiro R$ 350. "Não costumo treinar, mas fiquei sabendo agora da corrida e decidi fazer um teste para ver até onde vai a minha resistência", comentou.

Hélio Takai explica que o objetivo é justamente atrair pessoas como Raimundo, que vêem na corrida uma oportunidade para ingressar no esporte. Para ele, este é um dos motivos da divulgação ter se concentrado apenas dentro da comunidade. "É para um público muito pontual. A gente pensa em levar a modalidade para pessoas que nunca ouviram falar", completa.

Mas nem isso impediu que moradores de outras localidades se inscrevessem para a prova. "Tem muitos atletas vindos de fora, que ficaram sabendo pelo site. Teve gente que ligou da zona norte, que veio de outros bairros para fazer a inscrição. Nós nem sabíamos que tinha essa repercussão toda fora de Paraisópolis", revela Juliana Rodrigues.

Mas, para o técnico de Marílson, a participação de atletas profissionais não chega a ser totalmente benéfica para uma prova como essa. "Se o objetivo da organização é ver aparecer gente nova, a presença de atletas de ponta pode ser bom porque motiva os outros participantes. Mas, por outro lado, a diferença do nível vai ser muito grande e pode desestimular o restante dos corredores", analisa Adauto Domingues.

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