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28/08/2006 - 08h12
EUA impressionam, recuperam status e controlam arrogância
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Saitama (Japão)
Pela primeira vez na fase final do Mundial, a Super Arena de Saitama recebeu mais de 20 mil pessoas. Não fora visto, ainda, tal número de jogadas plásticas. Nem um público tão atônito, tantos "oh"s de encantamento. As bancadas para jornalistas, mais de 300, pela primeira vez, estavam todas tomadas. Nenhum time foi tão superior ao outro nestas oitavas-de-final: vitória sobre a Austrália por margem de 40 pontos. Técnicos e jogadores rivais já não pestanejam em apontá-los como favoritos ao título.
| NOVA ESTRATÉGIA |
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Reuters  O ala LeBron James eo técnico Krzyzewski | Para recuperar a hegemonia mundial, a USA Basketball estabeleceu um projeto Pequim-2008. Elaborou uma relação de 23 jogadores, em que constam estrelas consagradas (como LeBron James e Dwyane Wade), jovens promissores (como Chris Paul e Chris Bosh) e, novidade, coadjuvantes especialistas em defesa (Shane Battier) ou rebotes (Dwight Howard), que se alternarão na seleção nos próximos três anos, sob a mesma comissão técnica montada para o Mundial-2006.
Outro problema atacado pela USA Basketball foi o tempo de preparação. Para Atenas-2004, a seleção treinou por apenas cinco dias. Desta vez, os jogadores estão juntos há um mês: grosso modo, foram duas semanas de treinos e outras duas dedicadas à realização de amistosos.
As mudanças atingiram também o comando do time. Em vez de nomear um técnico de prestígio na NBA, a federação aposta agora em um técnico universitário, Mike Krzyzewski, auxiliado por experientes e vitoriosos treinadores da NBA. |
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| EUA DÃO SHOW NO MUNDIAL | Se o nome "Dream Team" (Time dos Sonhos) virou passado após três derrotas no Mundial-2002, outras três na Olimpíada-2004 e a seleção dos EUA ainda está nas quartas-de-final da competição, a aura de melhor time do mundo já está de volta. E, desta vez, a velha arrogância dos jogadores está contida. Estudadas ou não, as declarações buscam transmitir humildade.
Para o técnico da Austrália, o americano Brian Goorjian, que vive na Oceania há mais de 30 anos, a principal mudança em relação ao time de 2004 é a defesa e o espírito de grupo. E o fato de que os EUA possuem 12 jogadores jovens, atléticos, de alto nível e que se complementam.
"Enfrentei este time e o de 2004. A grande diferença é a postura defensiva. Vêm atrás de você com todo vigor por 40 minutos. Se continuarem assim, não sei se alguém conseguirá enfrentá-los, fisicamente, durante todo o jogo. Alguns times são capazes de manter a intensidade por 30 minutos. Alguns, por 35. Nós, hoje, agüentamos por oito ou dez minutos", disse Goorjian.
O americano, que se diz "um australiano de coração", vê ainda a boa performance das três maiores estrelas do time, Dwyane Wade, LeBron James e Carmelo Anthony, como ponto favorável. "Os três jogadores que todos sabemos quem são estão se esforçando na defesa, estão passando a bola, jogando para o time. Acho que as chances de medalha de ouro são muito grandes".
O australiano Andrew Bogut, pivô do Milwaukee Bucks, concorda com seu ténico. "Este time é muito melhor do que o de Atenas e é, de longe, o de maior talento deste torneio", define o pivô australiano Andrew Bogut, que joga no Milwaukee Bucks, da NBA. "Fizeram muito bem de colocar jogadores com papel específico (no inglês, role players) junto às estrelas".
Para ilustrar o favoritismo dos americanos, o técnico sérvio Dragan Sakota chega a ressuscitar o apelido desgastado ao longo dos anos. "A Espanha é, para mim, a única que pode derrotar o Dream Team. Porque os americanos estão muito, muito bem".
Nas 11 vitórias dos EUA nesta temporada (cinco em amistosos, seis no Mundial), quem ficou mais perto da vitória foi o Brasil, que perdeu por apenas quatro pontos. Mesmo assim, após as primeiras derrotas brasileiras na fase de classificação, o auxiliar-técnico Guerrinha fazia suas contas sempre colocando o quarto lugar no grupo como resultado a ser evitado. "Ficar em quarto é quase igual a não classificar. Pegar esse time americano logo de cara será ruim. Eles estão muito fortes".
Humildade? Contra a Austrália, após abrirem uma vantagem de 39 pontos ao fim do terceiro quarto, no último período os americanos abusaram das tentativas de jogadas mirabolantes. Pontes aéreas, passes por debaixo da perna e outras "firulas" se sucederam.
| SURPRESAS AFRICANAS |
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AFP  Nigéria de Chamberlain Oguchi (f) foi uma das surpresas do Mundial do Japão | | Duas seleções africanas que caíram nas oitavas-de-final do Mundial, mas ganharam jogos, deram trabalho para os algozes e deixam o Japão sob elogios do mundo do basquete, com boas perspectivas para os próximos torneios. As semelhanças entre Angola e Nigéria param por aí. |
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| LEIA MAIS | Ao saírem da quadra, os jogadores americanos não atenderam aos pedidos das centenas de repórteres que se acotovelavam na área de entrevistas e se dirigiram ao vestiário. Uma produtora de uma emissora de TV japonesa atreveu-se a tocar em LeBron James, pedindo duas perguntas. Surpreso, o ala que joga com Anderson Varejão no Cleveland Cavaliers lançou um olhar irônico para a jornalista e, levando o dedo indicador próximo à orelha, fez o sinal característico: "está louca?".
Após o banho, entretanto, todos retornaram para conversar com os jornalistas, como manda o profissionalismo cultivado pela NBA. E a imagem de arrogância perde um pouco da força, também pelo teor das declarações. O armador Chris Paul, do New Orleans Hornets, mostra que, ao menos parte da equipe, não está autocentrada.
"Há muitos talentos neste torneio. Muitos destes caras você não vê muito em quadra na NBA e alguns dos melhores jogadores do mundo não estão na NBA. É uma grande oportunidade de enfrentá-los", diz. "Ainda há muitos times bons pela frente, mas já sabemos sobre todos eles. Vimos muitas fitas e veremos mais um monte. Todos no nosso grupo vêm os jogos pela TV no hotel. Somos viciados em basquete".
A Carmelo Anthony, que joga com Nenê no Denver Nuggets, a pergunta é sobre preferência de rivais: Espanha ou Argentina? "Não prefiro ninguém, nosso próximo jogo é contra a Alemanha. Se ganharmos, haverá tempo para falarmos dos próximos. Um jogo de cada vez".
"Vocês já foram desafiados?", indaga um japonês. "Fomos desafiados, sim. Foi muito difícil o jogo contra o Brasil, na China, eles foram duros. A Itália também não foi fácil, não. E a Alemanha será um grande desafio. Temos de fazer nossa pesquisa, ver o relatório dos olheiros e definir um plano de jogo", diz Anthony.
O técnico Mike Krzyzewski confirma as palavras do ala do Denver e diz que estudará a fundo a Alemanha. "Verei os teipes de todos os seus jogos", afirma. "Nas últimas seis semanas, temos estudado muito as outras equipes e estou impressionado com a qualidade do jogo deles, dos técnicos e a força com que atuam. Por isso, temos de estudar muito cada adversário e nos preparar adequadamente, fazendo ajustes ao nosso jogo de acordo com cada rival".
Um repórter francês pergunta a LeBron James: "as firulas no fim do jogo não soam como desrespeito?". "Tentamos nos divertir em quadra", responde. "Mas nos divertimos também jogando duro, dando conta do recado. Sabemos o momento de descontrair um pouco".
O astro do Cleveland também faz um comentário sobre a Alemanha, de Dirk Nowitzki, rival da equipe na quarta-feira por uma vaga na semifinal. "Dirk é um dos melhores jogadores da nossa liga, mas a Alemanha é um time, não é só ele. Teremos de ter cuidado. Vamos ver o que nosso técnico nos pede".
A atitude solícita com os jornalistas não é infinita. À aparição do membro da delegação americana encarregado de chamá-los para que ingressem no ônibus com destino ao hotel em que estão hospedados, segue-se um ato tão sincronizado que parece ensaiado. LeBron James mal termina a frase: coloca o fone de ouvido, vira as costas sem se despedir e deixa no ar uma série de perguntas. Carmelo Anthony também aciona seu iPod. Em dez segundos, os sete jogadores do time já se retiraram.
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