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  11/09/2006 - 22h44
Mulheres encaram missão de salvar o basquete nacional no Mundial

Giancarlo Giampietro e Vicente Toledo Jr.
Em São Paulo

Campeonatos esvaziados, clubes deficitários, jogadoras desempregadas e em debandada para o exterior. É esse o cenário atual do basquete feminino do Brasil, que disputa como anfitrião o Mundial da modalidade a partir desta terça-feira, em São Paulo. Mais do que lutar pelo bicampeonato - venceu o torneio em 1994 -, a seleção brasileira encara a missão de "salvar" o esporte de uma crise sem fim.

FORÇA DO ELENCO É APOSTA
Divulgação/CBB
A seleção brasileira feminina de basquete começa a disputa do Mundial armada para mostrar que já não depende mais de uma ou duas atletas em quadra.

A aposta do técnico Antônio Carlos Barbosa para levar o Brasil ao bicampeonato é na força de um elenco que oferece mais variáveis.

"A Janeth é uma jogadora que foi extremamente sacrificada nas últimas competições porque não tinha troca para ela", comentou Barbosa, que aponta Iziane e Micaela como as responsáveis por aliviar o "peso" sobre Janeth.
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Uma vitória no torneio mais importante do planeta ao lado das Olimpíadas poderia trazer um novo impulso à modalidade no país, apagando a má impressão deixada pelos seguidos fiascos colecionados pela seleção masculina - o último deles o 19º lugar obtido no Mundial do Japão, há duas semanas. Curiosamente, a salvação está nas mãos de jogadoras muito menos badaladas do que os "astros" de NBA, Euroliga e outros.

"Desde 1994, quando fomos campeões mundiais na Austrália, o basquete feminino tem estado no pódio de todas as competições internacionais, e não será diferente aqui em São Paulo. Elas sabem da importância de uma vitória em casa para o basquete brasileiro", disse Gerasime Bozikis, o Grego, presidente da CBB (Confederação Brasileira de Basquete), esquecendo-se de citar o sétimo lugar do Mundial em 2002.

"Não é justo jogar tudo em cima delas, todas elas querem uma coisa. Não vamos podemos sobrecarregá-las, não pode ser por aí. Tenho certeza de que elas vão bem", ponderou Heleninha, ex-jogadora da equipe ganhou medalha de bronze no Mundial de 1971, também realizado em São Paulo, a primeira grande conquista internacional do basquete feminino brasileiro.

Mas as mulheres têm mesmo obtido resultados muito superiores aos homens nos últimos anos. Além do título mundial de 12 anos atrás, quando ainda contava com Paula e Hortência, a seleção feminina faturou uma prata (Atlanta-1996) e um bronze (Sydney-2000) olímpicos, chegando também muito perto do pódio em Atenas-2004 (4º lugar). Em 2003, foi vice-campeã mundial sub-21 na Croácia.

As conquistas, no entanto, não trouxeram prosperidade ao basquete feminino no Brasil. Sem torneios rentáveis e exposição na mídia, os clubes sobrevivem com recursos mínimos, quando conseguem algum. Com isso, as principais jogadoras precisam sair do país para continuarem sendo profissionais e jogando em alto nível, esvaziando ainda mais o interesse pelo esporte nacional.

A situação está lamentável. Nossas jogadoras têm de procurar emprego lá fora. O trabalho de base ficou com poucas pessoas para suprir. O nível caiu muito com pouca produção de jogadoras nacionalmente, em termos de qualidade e quantidade
Maria Helena Cardoso

"A situação está lamentável. A coisa deu uma caída, principalmente depois que grandes patrocinadores saíram. Nossas jogadoras têm de procurar emprego lá fora. O trabalho de base ficou com poucas pessoas para suprir. O nível caiu muito com pouca produção de jogadoras nacionalmente, em termos de qualidade e quantidade", comentou Maria Helena Cardoso, bronze no Mundial de 1971, também realizado em São Paulo, e ex-técnica da seleção brasileira.

A situação é semelhante no basquete masculino, que apesar de não conseguir nenhum resultado internacional expressivo, ainda oferece mais espaço e oportunidade para os atletas que o feminino. Tanto que a seleção que foi ao Mundial do Japão tinha cinco jogadores que atuavam dentro do país (Nezinho, Murilo, Estevam, Alex e André Bambu), contra apenas quatro que jogarão em São Paulo (Karen, Sílvia, Êga e Kelly).

"Nossos dirigentes atuais foram ex-jogadores de basquete masculino, como o próprio Grego. Eles têm ligações com isso. Naturalmente caíram mais pro masculino. Na nossa geração, havia dirigentes mais interessados (no feminino)", explicou Heleninha.

"O time masculino é visto como o carro-chefe, mas nós damos mais resultados. Isso é normal no país. Incomoda principalmente por eles não estarem com resultados bons como os nossos", reclamou a ala Iziane. Aos 24 anos de idade, ela é uma das últimas boas revelações brasileiras e um retrato da falta de estrutura do esporte no país.

Revelada no Maranhão, Iziane passou pelo Osasco antes de embarcar em uma verdadeira volta ao mundo. Já defendeu três times da WNBA (Miami Sol, Phoenix Mercury e, na última temporada, o Seattle Storm), passou por Espanha (Yaya Maria Breogán e Perfumerias Avenidas), França (Aix Basket) e Rússia (Euras Ekaterinburg).

A SELEÇÂO BRASILEIRA
ARMADORAS
Helen Luz (Rivas Futura-ESP)
Adrianinha (Faenza-ITA)
ALAS
Sílvia Gustavo (Ponte Preta)
Janeth Arcain (sem clube)
Iziane Marques
(Seattle Storm-EUA)
Micaela Jacintho (Polfa-POL)
Karen Gustavo (Ourinhos)
PIVÔS
Alessandra Olivira
(Woori Bank Hansae-CDS)
Érika Cristina (Valencia-ESP)
Cíntia Santos (Schio Club-ITA)
Kelly Santos (Santo André)
Êga (São Caetano)
Para ela, jogar no Brasil é praticamente uma novidade. Mesmo assim, encara com naturalidade a responsabilidade depositada sobre ela e suas companheiras. "A gente não considera nossa equipe pressionada, isso não nos afeta", comentou Iziane, que foi a última a se juntar ao grupo justamente por estar disputando os playoffs da WNBA.

"(Chegar em cima da hora) Atrapalha um pouco taticamente, pois ainda não sei bem o que fazer. Acabo indo mais por instinto, tentando achar os espaços e as oportunidades criadas. Não me lembrava de nada das jogadas", contou a jogadora. Se isso serve como consolo, várias boas equipes desse Mundial também não puderam contar com todas as suas jogadoras na fase de treinamento, como a Austrália (Lauren Jackson, também do Seattle Storm) e os próprios Estados Unidos.

Por isso, a esperança brasileira está na experiência de jogadoras como Janeth, Alessandra, Cíntia e Helen - remanescentes do primeiro título mundial - e no entrosamento de um grupo que já se conhece há bastante tempo. "Elas têm condições perfeitas de ir ao pódio. Têm tarimba e formam um grupo muito confiante", afirmou Maria Helena.

O Brasil está no grupo A do Mundial, ao lado de Argentina, Coréia do Sul e Espanha. Nesta terça, o time brasileiro estréia diante das argentinas, às 15h15, no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Os três primeiros de cada grupo avançam para a segunda fase.

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