Piculín Ortiz, 43, se aposentou das quadras no ano passado. Mas isso não impede que sua mera presença em Las Vegas influencie no desempenho de Porto Rico no Pré-Olímpico.
A legendária figura do basquete americano assistiu às primeiras partidas do torneio da arquibancada. Com o cabelo engomado e traje social, o hoje candidato a senador parecia uma figura bem distinta à da que amedrontou gerações de pivôs brasileiros durante seus 23 anos de carreira pela seleção de seu país.
Quando a equipe caribenha passou por momentos delicados na primeira fase, ficando próxima da eliminação, a comissão técnica não teve dúvida. Pediu auxílio ao ídolo e seu apoio no banco de reservas a cada partida. Deu certo. A começar pela grande vitória em cima do Brasil, o time conseguiu uma arrancada na segunda fase que lhe mandou à semifinal.
Por falar em seleção brasileira, Ortiz se disse decepcionado com o rendimento do time e do ala-armador Marcelinho Machado, embora constate desenvolvimento de alguns atletas e na defesa da equipe. Veja na entrevista com o porto-riquenho, que disputou três Olimpíadas, jogou dois anos no Utah Jazz e brilhou em clubes como Real Madrid e Barcelona:
UOL Esporte: Concluída a fase de classificação, qual a sua avaliação sobre o Pré-Olímpico até agora?
Piculín Ortiz: Muitos times mudaram suas seleções, estão mais jovens. E até que não se saíram muito mal. Mas é obvio que os Estados Unidos formaram uma grande equipe.
UOL Esporte: E quais são suas impressões sobre a seleção brasileira?
Ortiz: Pensei que o Brasil fosse jogar muito melhor. Como chama o ala-armador? Marcelinho parece cansado neste torneio. Ele não está arremessando bem quanto está acostumado. Mas há jogadores novos como (JP) Batista que estão fazendo um bom trabalho.
UOL Esporte: Mais especificamente sobre os pivôs da equipe - você já os enfrentou no final de sua carreira e agora os observa de fora...
Ortiz: Splitter desenvolveu muito seu jogo. Ele está indo para a NBA e vai ter uma ótima chance para se tornar um grande atleta em um time fantástico
[o pivô catarinense foi selecionado pelo San Antonio Spurs no "draft" deste ano, mas deve se integrar ao time na temporada 2008-2009]]. Nenê está bem no rebote, fazendo seu trabalho.
UOL Esporte: Qual a diferença que você estabeleceria entre essa formação e a equipe brasileira dos anos 80?
Ortiz: A equipe que vocês tinham na época de Oscar era muito ofensiva. Agora vocês têm bons jogadores defensivos. À medida que o tempo passou, o Brasil se tornou uma equipe melhor na defesa. Antes eram basicamente apenas arremessadores.
UOL Esporte: Imagino que você tenha muitas lembranças sobre jogos contra o Brasil? Tem algum em especial?
Ortiz: Ah, eu me lembro de muitas partidas. São ótima memórias. Sempre nos divertimos muito em quadra contra o Brasil, ganhando ou perdendo. Em 2003, [na última edição do Pré-Olímpico, quando a seleção nacional foi eliminada, derrotada inclusive pelos porto-riquenhos], foi duro para todos, por ser em San Juan. Sei que foi duro para a seleção brasileira perder aquela partida, mas para nós deu tudo certo.
UOL Esporte: Porto Rico também apresenta uma equipe de certa forma renovada, principalmente no garrafão....
Ortiz:: Demorou muito tempo para isso acontecer em Porto Rico, precisávamos ter feito isso. Joguei por 23 anos pelo país. Fomos muito devagar no desenvolvimento de outros jogadores. Temos de colocá-los antes na seleção, para ganhar experiência internacional mais cedo.
UOL Esporte: Você já não está mais no garrafão, Daniel Santiago também. Agora a responsabilidade ficou para o Peter John Ramos [pivô de 2,22 m de altura, com passagem atribulada fora da quadra pela NBA], que ainda é um pouco contestado. Acha que ele dará conta do recado?
Ortiz: Ramos está evoluindo muito devagar e, não, como eu poderia fazer ou qualquer outro. Mas ele está chegando lá, ainda que precise de ajuda.
UOL Esporte: No início do torneio, você estava como convidado da Fiba e espectador. De repente, virou figura constante no banco de Porto Rico. Por quê?
Ortiz: Vim como um amigo. Mas os técnicos me pediram para sentar atrás do banco, para tentar ajudá-los um pouco. É o que me disseram. Com minha experiência, eles sempre querem saber o que sinto ou o que penso sobre os jogos. Parece que deu certo.