Tudo mudou no mundo do boxe feminino. Modalidade que passou a ser praticada por poucas reais fãs do esporte e um bom número de seguidoras da moda que invadiu as academias de fitness, o pugilismo para mulheres agora tem outro status. Passou a ser oficialmente um esporte olímpico e estará - de forma reduzida - no programa dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. É neste novo cenário que a seleção brasileira feminina parte para o Pan-Americano do Equador, em Guayaquil, com início nesta segunda-feira.
BRASILEIRAS SE BANCAM COM R$ 750
O Pan de boxe representa a última competição com a realidade antiga, em que as próprias pugilistas e os dirigentes admitiam que a modalidade era marginal em relação ao masculino, que possui seleção permanente e maiores investimentos. A Confederação Brasileira de Boxe recebe R$ 1,4 milhão, em repasses provenientes da Lei Piva, e as mulheres só passarão a receber benefícios em 2010.
Nesta edição da competição - que originalmente aconteceria nos Estados Unidos -, o desafio brasileiro é manter a evolução do último campeonato, quando o país teve duas medalhas de ouro, duas de prata e quatro bronzes.
"Ano passado estávamos com algumas meninas que nunca tinham ido para fora do país. Hoje temos melhores expectativas e queremos ficar entre os três primeiros", analisou o técnico Ari Colletti, ao
UOL Esporte.
Para ele, os maiores rivais serão os Estados Unidos e o Canadá, países que já tem uma estrutura montada para o pugilismo feminino. "Além disso, a Argentina não esteve no Pan passado, então serão muitas equipes com tradição", completou ele.
Mais importante do que os resultados em Guayaquil, as pugilistas brasileiras já estão na expectativa para o próximo ano. Será apenas em 2010 que o boxe feminino será levado em conta quando se fala em recursos provenientes de fontes como a Lei Piva. Uma mudança foi justamente para o Pan, com a CBBoxe pagando a viagem. Em 2008, por exemplo, as atletas pagaram do próprio bolso para competir, recorrendo a empréstimos e "vaquinhas".
COM TIME "ESPALHADO", TREINADOR NÃO TRABALHA COM ATLETAS DA SELEÇÃO
-
Roseli e Taynna treinam juntas em São Paulo
Uma das dificuldades enfrentadas pela seleção brasileira, pela falta de recursos, é a falta de um time permanente de boxe feminino. Tanto que o técnico que acompanhará as atletas no Equador não trabalha com nenhuma delas. Ari Colleti, que dá aulas em uma academia de Marília, foi o técnico do Pan de 2008. Desta vez, a única pupila não está na seleção. Ele não mostra preocupação, porém.
"Hoje todas as meninas lutam de acordo com uma mesma escola de boxe, então não há problemas. E eu as conheço do último Pan. A dificuldade é que não trabalhamos juntos no dia a dia", explica ele.
Para a campeã em 2008, Taynna, isso pode ser sim um obstáculo. "O técnico ser diferente não é o problema, mas sim a distância, já que ele não nos conhece bem", disse ela, que lutará pelo bi.
Ainda não se sabe o formato da ajuda e o que poderá melhorar nas condições das lutadoras, que atualmente recebem no máximo R$ 750 reais do Bolsa Atleta. Mas a confederação promete dar condições a elas que o masculino já tem.
"A CBBoxe não tem até o momento uma seleção locada, com espaço e equipe multidisciplinar como há para os meninos. Mas isso é uma coisa que desejamos estender para as meninas e vamos lutar por isso", disse Mauro Silva, presidente da CBBoxe.
Poucas vagasUm problema para as garotas é que o boxe feminino terá poucas vagas para as Olimpíadas de Londres, pois serão apenas três categorias em disputa: -51 kg, -60 kg e -75 kg.
O medo das integrantes da seleção é de que só haja ajuda por parte da confederação para as três atletas que possam ir aos Jogos - em outras competições, as categorias habituais devem continuar sendo disputadas.
Por outro lado, isso pode gerar um aumento na qualidade do boxe brasileiro. "A competição vai aumentar muito, porque teremos de enfrentar umas às outras", explicou Taynna Cardoso, ouro no Pan de 2008, que terá de entrar no ringue contra algumas de suas amigas. "Além disso, agora teremos mais competições, já que nosso calendário se resumia a cerca de três campeonatos por ano". Para 2010, a organização do Sul-Americano já anunciou a disputa do boxe feminino.
Mesmo com um cenário desconhecido pela frente, a batalha mais importante o boxe feminino já venceu. "Entrar nas Olimpíadas foi melhor do que ganhar uma Copa do Mundo para nós. Agora temos um objetivo, algo a se espelhar. Basta ver o que o Servílio (de Oliveira) conquistou", disse Roseli Amaral, que vai ao seu segundo Pan, relembrando a única medalha olímpica do boxe brasileiro, conquistada em 1968, na Cidade do México.
*Colaborou Bruno Império