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04/11/2009 - 15h00

Entidade de boxe quer proibir parceria "pai e filho", como a que deu título a Jofre

Maurício Dehò
Em São Paulo*
O Conselho Mundial de Boxe (CMB) abordou nesta quarta-feira um projeto que gera polêmica. Durante a convenção anual da tradicional entidade, uma das medidas que se estudou foi colocar em prática a proibição de que pais de lutadores estejam nos corners de seus filhos durante combates. O objetivo seria evitar tragédias no ringue, mas não agrada a todos. Éder Jofre, por exemplo, foi campeão do mundo tendo como treinador o pai, Kid Jofre, e é contra.

Segundo o CMB, a regra já existe e apenas seria reforçada, numa medida para aumentar a segurança. A intenção é prevenir os erros de julgamento durante um combate, que possam terminar em tragédias no ringue.

Paul Wallace, chefe do comitê médico do Conselho, apresentou um estudo feito na Califórnia que comprovaria isso. "O fator mais comum em todas as fatalidades ocorridas era ter um pai no corner", alegou ele, na reunião realizada na Coreia do Sul. "Isso não é algo que se prove do ponto de vista médico, mas claramente há uma associação."

Uma opinião a favor da proibição foi de Arthur Pellullo, ex-empresário do tetracampeão mundial Acelino Freitas, o Popó. Para ele, a ligação emocional entre pai e filho pode ser prejudicial. "Um pai não tem o distanciamento suficiente para tomar uma decisão correta, por estar observando alguém que ama e nem sempre o que está realmente acontecendo", disse ele.

Para o bicampeão mundial Éder Jofre, no entanto, sua carreira mostrou o exato contrário. "Eles estão brincando", riu o ex-pugilista, hoje aos 73 anos. "Que é isso? Se o pai não vê direito a situação de um filho, seu desempenho, sua técnica, quem vai ter o mesmo carinho?".

Éder começou a lutar em uma família já famosa pela participação no ringue. Seu pai, Aristides Pratt Jofre, o Kid Jofre, veio da Argentina e seguiu carreira como técnico. Foi sob a batuta dele que Éder conquistou o primeiro cinturão mundial do Brasil na história, pelos galos, em 1960, e dos superpenas, em 1973 - Kid morreu em 1974, de câncer no pulmão.

"Sempre fui treinado pelo meu pai e ele sempre subiu no meu canto. Nossa relação era ótima. Eu treinava na academia com ele, que era quem sabia meus defeitos e minhas virtudes. Então, por que teria outro?", questionou Éder. "Um pai sabe como o filho age e tem a liberdade para corrigir. A menos que o pai oriente mal, aí sim é preciso mudar."

  • Arquivo/FI

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Um caso curioso é o de Andre Berto, norte-americano que tem o pai como técnico, mas que não o coloca em seu corner para os combates. "Muitos rompimentos entre pai e filho ocorrem por haver um lado muito sentimental na hora da luta", explicou o campeão mundial dos meio-médios do CMB.

No Brasil, outro caso famoso foi o de Nilson e Fábio Garrido. O primeiro, pai e mentor de um projeto social que ensina boxe sob viadutos, foi técnico do filho durante toda a carreira. No entanto, foi acusado de não ter encerrado no momento correto a luta em que o pupilo acabou em coma. Fábio foi derrotado por Mário Soares, o Marinho, em 2004, e apesar do problema, não teve sequelas.

Já Newton Campos, presidente da Federação Paulista de Boxe, apoia Jofre e não vê problemas quando a relação é sadia entre as partes. "Tenho impressão de que com o pai, um eterno preparador, o lutador se sente mais seguro", analisou ele, que também é comentarista.

"O pai tem interesse de que o filho não receba golpes. Temos vários casos desses aqui no boxe amador de São Paulo e não há nada que deponha contra. Éder é o maior exemplo disso, foi o maior campeão do Brasil e sempre com o pai ao lado", concluiu. Resta saber se o Conselho Mundial realmente colocará em exercício a regra em seus combates.

*Com agências internacionais

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