Três jovens brasileiros passaram a se aventurar no ciclismo europeu, após o convite de Luciano Pagliarini, medalhista pan-americano pelo Brasil, em seu projeto Revelando Talentos. Apesar de integrarem equipes que lhes dão moradia, salário e todas as condições apenas para pedalarem, nem tudo é tão simples para o trio Rafael Andriato, Carlos Manarelli e Gideoni Monteiro.
Os obstáculos, dentro e fora das estradas, vão desde as saudades da família até os problemas de língua, cultura e o frio. Mas nada incomoda mais os brasileiros do que a desconfiança dos europeus, que ainda não acreditam totalmente no talento dos estrangeiros, mais conhecidos pela habilidade com os pés de um outro modo.
"Eu já ouvi de tudo aqui", disse Pagliarini, há 11 anos na Itália, e hoje "comandante" da colônia brasileira na cidade italiana de Treviso. "Tinha muita gente que me mandava jogar bola, perguntava o que um brasileiro fazia em cima de um bicicleta. Isso gerou preconceito, mas também pessoas surpresas e curiosas. Hoje estamos conseguindo mudar isso."
Pagliarini conseguiu, com o tempo, amansar as críticas e, ao lado de nomes fortes como Murilo Fischer e o hoje técnico Mauro Ribeiro, único ciclista do país a vencer uma etapa da Volta da França (1991), tenta provar que o Brasil também tem talento pedalando.
Além de inserir os novatos no ciclismo, tem outro papel fundamental: "sou como um psicólogo, tentando planar a estrada para eles. Eles chegam falando 'o cara falou assim para mim' e eu tento mostrar como eles têm de encarar os problemas". Além disso, ele junta os brasileiros para treinarem três vezes na semana, em média.
O primeiro a seguir o rumo ao Velho Continente foi Rafael Andriato, fã confesso do mentor do projeto. Já aos 19 anos, ele teve sua primeira grande chance no Pan-Americano do Rio de Janeiro. "Lá foi o embrião para a minha vinda para a Itália. Conversei com o Pagliarini, que me explicou sobre o projeto. Depois, ele fez o contato com a equipe e, no começo de 2008, viajei para a Europa", contou o ciclista nascido em São Paulo, mas criado em Maringá (PR).
Em janeiro de 2008, Andriato foi encarar seu maior desafio. Os adversários na estrada? Não, o frio. "Eu cheguei no meio do inverno e pedalava com 0º, 2º... Sem sol, na neblina. Não gosto nem de lembrar", brinca o ciclista, que já diz estar melhor adaptado e inclusive ganhou a prova Memorial F. Lli Gandolfi há cerca de dez dias, na Itália, com a equipe UC Trevigiani.
Outra complicação foi em entender o italiano. Sem ter feito cursos, Andriato teve de aprender no convívio diário como se comunicar com os companheiros. Ele, assim como os companheiros, mora em alojamento do time, local que também serve como base, pelo fato de outros integrantes se juntarem apenas para o período de treinos.
Já Manarelli sofreu com as saudades. "Para mim foi uma experiência bem dolorosa no começo. Desde os 11 anos eu faço competições, mas nunca ficava longe da família. Saí um pouco verde de casa, com 19 anos e, no começo era tudo legal: bicicleta nova, roupa, capacete. Mas bateu saudade das coisas do Brasil", contou ele, que ainda teve dificuldades com as distâncias das provas, chegando a 180 km.
Caçula em novo desafioGideoni Monteiro tem apenas 19 anos, mas já é encarado como uma aposta por Pagliarini. Mesmo jovem, o ciclista já está acostumado às mudanças para buscar o sonho no esporte. Nascido no Ceará, começou a pedalar por influências de seu tio, dono de uma loja de bicicletas, quando já morava em Aracaju, Sergipe.
Sua primeira mudança foi já aos 16 anos, quando passou a pedalar em São Paulo, conciliando as competições e os estudos. Na capital paulista, aprendeu a viver em um novo ambiente, o que encara de novo na Itália. "O Luciano dá muito apoio e sempre estamos treinando juntos, então vivemos como se fosse uma família", disse ele.
Depois da desconfiança que Pagliarini viveu na sua chegada à Itália, Gideoni já é um exemplo da mudança a respeito do ciclismo brasileiro. "Eles gostam dos brasileiros, porque somos tranqüilos, sempre alegres, fazemos tudo direitinho e com dedicação", disse Gideoni, que dá a receita para os novos ciclistas. "Esse tipo de chance é única, então tem de ser agarrada com unhas e dentes. O primeiro de tudo é a dedicação."