UOL Esporte Ciclismo
 
24/03/2009 - 07h00

Pagliarini é padrinho de "colônia brasileira" na Itália, mas sofre com a falta de time

Maurício Dehò
Em São Paulo
Um dos primeiros brasileiros a se estabelecer na elite do ciclismo mundial, Luciano Pagliarini vem se especializando, nos últimos anos, em encontrar equipes para seus compatriotas pedalarem na Europa. Uma parceria informal com a Confederação Brasileira de Ciclismo fez com que Pagliarini, entre 2008 e 2009, encaixasse três jovens brasileiros em times italianos. Agora, em 2009, é o "padrinho" da "colônia" brasileira no país quem está sem equipe e enfrenta dificuldades.

NOVOS BRASILEIROS NA ITÁLIA
Divulgação
Rafael Andriato
21 anos

Primeiro a ir para a Itália pelo projeto, já coleciona vitórias em provas, competindo na equipe Trevigiani
Divulgação
Carlos A. Manarelli
20 anos

Chegou depois de Andriato à 'colônia'. Está na equipe de base da Liquigas, mesma de Fischer
Divulgação
Gideoni Monteiro
19 anos

Caçula do grupo, ele foi radicado no Sergipe antes de conquistar o Pan sub-23 e ir para a Itália
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Há 11 anos no ciclismo europeu, tendo participado de equipes como Liquigas-Bianchi, Sauniere Duval e IMA, ele venceu cinco provas apenas na sua temporada de estreia e conseguiu destaque com novos triunfos em 2003, provando sua qualidade e se garantindo entre os melhores ciclistas do mundo.

Por suas conquistas e com o nome que criou entre os estrangeiros, surgiu a possibilidade de começar um trabalho próprio em prol do ciclismo nacional. O Projeto Revelando Talentos teve seu início oficial no começo de 2008, com Rafael Andriato sendo o primeiro a trocar as pedaladas nas estradas brasileiras pelas estrangeiras.

"Eu sempre tive essa vontade de abrir a porta para os outros, pois vi que tinha muitas condições de ajudar com o nome que tenho no ciclismo daqui e nas relações que criei. A oportunidade acaba sendo para eles e para o Brasil crescer", conta o veterano de 30 anos, representante do Brasil em Pequim-2008 e bronze no Pan do Rio.

Depois de montar um projeto e apresentá-lo à Confederação Brasileira de Ciclismo, Pagliarini conseguiu por em prática seu plano. Com os recursos da entidade para as viagens dos ciclistas - oriundos da Lei Piva, segundo a direção da Confederação Brasileira de Ciclismo -, seu papel ficou em fazer o contato direto com as equipes. "Eles dão as passagens e eu entro em acordo com as equipes, o que é muito difícil conseguir, já que elas só podem ter um estrangeiro por temporada", explica ele.

O mais complicado acaba sendo achar as condições ideais para os jovens brasileiros, para que não tenham problemas para se sustentarem na Europa. Assim, Pagliarini vai à caça de times que proporcionem uma infraestrutura básica: moradia, salário e demais garantias para que os brasileiros possam se dedicar apenas a pedalar nos treinos e competições.

"Sabemos que o menino precisa ser inserido numa equipe com uma casa, que tenha seus gastos incluídos no orçamento do time. Não dá para vir competir e ainda se bancar, então a ideia é colocar o ciclista em um lugar em que possa correr com segurança, contratado e com todas as garantias", explicou Pagliarini, que reúne todos para treinos conjuntos três vezes por semana, em média.

Depois de Andriato, mais dois ciclistas se mudaram para a Itália como parte do projeto, que escolhe atletas obrigatoriamente menores de 23 anos. O segundo a tomar o rumo foi Carlos Alexandre Manarelli. Campeão de brasileiro de estrada e contra-relógio em 2007, na categoria junior, recebeu o convite do paranaense. Já em 2009, o jovem Gideoni Monteiro, de apenas 19 anos, também se juntou ao time, depois de ser campeão pan-americano sub-23.

Arquivo Pessoal
Ciclistas brasileiros vivem como 'côlonia' na Itália, sob comando de Luciano Pagliarini
Arquivo/FI
Pagliarini chegou há 11 anos e agora tenta ajudar no desenvolvimento da nova geração
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CONFIRA FOTOS DE ARMSTRONG
ATÉ CABELO DE LANCE É TESTADO
Para conquistarem a chance de dar este salto na carreira, todos têm de passar pelo crivo do "detetive" Pagliarini. Ele observa à distância os brasileiros, acompanhando principalmente pela internet os resultados. "Tem muita moçada que eu vigio daqui e eles nem sabem, como aconteceu com o Gideoni. Outros mandam currículo", conta o ciclista, que não deixa escapar os detalhes. A CBC relata a ele o histórico dos candidatos, incluindo eventuais casos de doping.

Apesar de ter dado os primeiros passos com sucesso quanto ao Projeto Revelando Talentos, quem está sem uma definição para a temporada 2009 é o próprio mentor do trabalho. Ex-ciclista da Saunier Duval, que teve integrantes envolvidos em caso de doping, ele tentou integrar a H20, com base na França, mas a nova equipe ainda não teve liberação da União Ciclística Internacional (UCI) para correr o circuito profissional em 2009.

Assim, seu ano está sob risco. O time tenta a liberação, mas também trabalha para conseguir uma parceria com outras equipes que já estejam liberadas para correr. Em último caso, Pagliarini terá de trocar de uniforme, buscando outro local para correr. "Eu precisava de um Pagliarini para me ajudar", brinca ele, mantendo o bom humor.

Sobre os seus próximos passos, a dúvida ainda impera, mas o paranaense mostra tranquilidade para tentar alcançar seus objetivos. "Hoje, se fosse para ser encaixado em outra equipe, teria de aceitar outras circunstâncias. Então tenho de analisar bem o meu futuro. Estou lutando com minha experiência para resolver este caso, que é bem diferente dos outros brasileiros, que ainda estão dando um primeiro passo."

Amigos e rivais
Com a tentativa de criar novos talentos, Pagliarini sabe que terá competição no futuro, quando tiver de garantir sua vaga nos Jogos Olímpicos ou Pan-Americanos. Mas o paranaense descarta a competição. "Ser responsável por eles é um orgulho muito grande, ainda quero fazer mais. Não terá tanto problema, por que eu já estou até chegando na hora de me aposentar e eles chegam como a nova geração do ciclismo nacional", afirmou ele, ainda sem data para deixar de pedalar.

Para o futuro, Pagliarini projeta que o Brasil tenha cerca de quinze ciclistas correndo na Europa num prazo de dez anos. Ele descarta ter uma função política na aposentadoria. "Eu gosto de criar coisas, de repente posso encarar a chance de fazer uma equipe nacional de alto nível, o que ainda não temos, já que todas ainda são cheias de falhas. Tenho observado a estrutura dos times daqui e sonho em fundar um e vir correr aqui", diz.

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