por Daniel Tozzi

Para ser penta, o Brasil terá de encarar a seleção que pregou as maiores peças da história

"Eles jogam algo parecido com futebol, mas que, definitivamente, não é futebol". A tese, exposta no livro "A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar", pertence ao apresentador Jô Soares, co-autor da obra, sobre o irritante estilo alemão de vencer.

 
Fritz Walter, capitão
da Alemanha em 1954
Com ações calculadas, na qual se destaca a concentração tática do time, a Alemanha ganhou três títulos mundiais. E, em 2002, tem a chance de, num confronto direto, igualar-se ao tetracampeão Brasil.

E essa mesma escola "chata", quando ainda contava com talento em abundância, pregou as maiores peças da história do futebol. E contra adversários que, na ocasião, faziam os "românticos" viverem um sonho eterno.

A primeira aconteceu em 1954, na Copa da Suíça. A Hungria chegava à final como grande favorita. Ao inovarem na preparação física, era comum aos húngaros construírem a vitória nos 10 primeiros minutos. O rival da final seria a Alemanha, então Ocidental.

A certeza do título era tamanha que o grande astro do time, Ferenc Puskas, mesmo machucado, insistiu para jogar. Foi ele, inclusive, quem abriu o placar, aos quatro minutos. Ao oito, Czibor fez 2 a 0.

Uma campanha germânica
Cinco vitórias, um empate. Uma boa campanha, mas não por isso menos sofrida.

Após vencer o Arábia por 8 a 0 na estréia, a Alemanha jogava a classificação às oitavas contra a Irlanda. Vencia até o último minuto, quando os Robbie Keane empatou. A vaga e a liderança do grupo E vieram com uma vitória por 2 a 0 sobre Camarões.

A partir das oitavas, no entanto, o nível do time caiu. Oliver Kahn precisou honrar sua condição de melhor goleiro do mundo nas difíceis vitórias sobre Paraguai, Estados Unidos e Coréia do Sul – seleções limitadíssimas. O placar? 1 a 0, em todos os jogos.
Mas gols de Morlock, aos 10, e Rahn, aos 17 minutos, ainda no primeiro tempo, colocaram os alemães, então "convidados", de volta à briga. Faltando seis minutos para o fim, Rahn marcou novamente, dando à Alemanha seu primeiro título.

O mais incrível é que a Hungria, então campeã olímpica e invicta havia 52 jogos, chegara a vencer a Alemanha na primeira fase por 8 a 3.

Mas valem duas lembranças: ciente de que dificilmente perderiam a vaga nas quartas, o técnico alemão Sepp Herberger escalou na ocasião um time cheio de reservas. E foi neste jogo que Puskas se machucou.


Vinte anos depois, a Copa do Mundo abria portas a outra revolução. Não física como a dos húngaros, mas tática. A Holanda, país até então inexpressivo no esporte, contava com craques que, sob o comando de Rinuls Michels, chegara sem dificuldades à final.

Contra a "Laranja Mecânica", como ficou conhecido o time holandês, entrava em campo a Alemanha, anfitriã do Mundial.

Em 1974, inclusive, os alemães mostraram do que são capazes na busca do triunfo: "facilitaram" as coisas para os irmãos da Alemanha Oriental – perderam por 1 a 0 -, para escapar do grupo que continha Brasil, Holanda e Argentina na segunda fase.


Franz Beckenbauer
ergue a taça em 1974
 
Assim como em 1954, os favoritos saíram na frente. Neeskens abriu o placar logo no primeiro minuto, ao converter pênalti sofrido por Cruyff. Comandados pelo "kaiser" Franz Beckenbauer, os alemães viraram ainda no primeiro tempo.

Breitner, aos 26, empatou, também de pênalti. Coube a Gerd Müller, o maior artilheiro da história das Copas, marcar o gol da vitória, aos 44 minutos. Maier, treinador de Oliver Kahn, atual goleiro alemão, garantiu o placar.

Em 2002, eles "cortaram o barato" não de um grande favorito, mas toda uma nação. O gol de Ballack, herdeiro solitário da fase áurea do futebol germânico, pôs fim à surpreendente e contestada caminhada sul-coreana.

 
Alemães comemoram diante
de sul-coreano desolado
Sem Fritz Walter, Beckenbauer ou Müller, mas com a mesma determinação e concentração, os alemães estão na sua sétima final em Copas. Assim como o Brasil.

Após estragar a festa coreana, serão eles capazes de adiar o penta brasileiro? Segundo a história do futebol, se existe alguma seleção capaz disso, é a Alemanha, uma autêntica estraga-prazer.