"Nunca foi tão fácil ganhar
uma Copa", afirma Parreira

Por Vicente Toledo Jr.

Comandante da seleção brasileira na conquista do seu quarto título mundial, Carlos Alberto Parreira não está brincando quando diz que nunca foi tão fácil ganhar uma Copa. Para o treinador, o Brasil já tinha pinta de campeão no final das eliminatórias e não chegou a ser ameaçado durante o Mundial. Leia abaixo a entrevista concedida com exclusividade ao UOL Esporte.

A seleção começou mal nas eliminatórias, mas depois se recuperou e acabou conquistando o tetracampeonato. Quando foi que começou a virada do Brasil?
O início do trabalho foi difícil porque nós tivemos só uma semana para treinar a equipe. Íamos jogar no Equador e na Bolívia, na altitude, e para enfrentar essas equipes lá é preciso estar muito bem fisicamente. Com 15 dias de trabalho e um jogo amistoso só, era impossível. Nós sabíamos que esses dois primeiros jogos iam ser difíceis e anunciamos isso. Como se esperava, o time não foi bem. A altitude foi um elemento que ajudou as equipes adversárias e nos prejudicou muito. No jogo contra a Bolívia aqui no Brasil, que vencemos por 6 a 0, foi que o time começou a encorpar fisicamente, tecnicamente e moralmente. Essa vitória foi a base para a arrancada. Dali para frente, foi outra equipe.

Antes da Copa, você foi muito criticado, seu esquema de jogo foi muito contestado pela imprensa e pela torcida. Como foi lidar com tudo isso e superar a situação?
Com trabalho e seriedade. Tínhamos propósitos bem definidos, um plano de trabalho, sabíamos que o time teria dificuldades nos primeiros jogos e não mudamos nada. As pressões eram grandes, mas tínhamos confiança que o trabalho estava sendo bem executado e os resultados iriam aparecer, pelo valor da equipe e pela experiência dos jogadores. O grande segredo foi que não nos deixamos intimidar pelas pressões e continuamos dentro daquilo que estava previsto. E o trabalho acabou prevalecendo.

Você acha que esse tipo de pressão e cobrança atrapalha o rendimento da seleção brasileira?
Atrapalha, a cobrança é exagerada. Aconteceu agora com o Vanderlei (Luxemburgo), com o Leão e com o Luiz Felipe. As eliminatórias sempre foram e serão motivo de desgaste para o treinador. Querem um rendimento ideal quando as dificuldades são muito grandes. Quando você tem um grupo experiente, ele absorve até com uma certa facilidade e reage bem. Quando você tem um grupo em formação, com menos experiência, ele é mais atingido, como aconteceu nessas últimas eliminatórias.

Durante a Copa, alguns membros da delegação brasileira, como Zagallo e Romário, mostravam muita confiança na conquista do título. Você compartilhava desse sentimento?
Eu falei logo depois do jogo contra o Uruguai, no Maracanã. Foi uma das grandes atuações da seleção brasileira nos últimos 20 ou 30 anos. Eu nunca vi um massacre igual àquele. Um time como o Uruguai, que tinha bons jogadores, um bom goleiro, Ruben Sosa, Fonseca, Francescoli, jogadores que atuavam em equipes de ponta do futebol italiano. Eles não deram um chute a gol, não passaram do meio do campo. Depois do jogo eu disse: 2 a 0 foi muito pouco para o que aconteceu aqui em campo e, se o Brasil jogar o que jogou hoje, dificilmente perderá a Copa. Pode pegar as gravações da época. Eu tinha essa confiança também. O time acabou rendendo bem e, por isso, foi merecidamente campeão.

Muita gente diz que o Romário foi o grande responsável por essa conquista. Você concorda com isso ou se sente magoado? O Brasil seria campeão sem o Romário?
Não, não...como o Garrincha foi em 62, como Pelé foi em 58, como o Maradona foi em 86. Já foi diferente na história do futebol? Não. Se tivéssemos perdido, quem teria perdido? O técnico. Você nunca viu alguém dizer que o técnico ganhou a Copa. O Feola perdeu, o Lazaroni perdeu. O Zagallo perdeu em 74, mas ninguém fala que ele ganhou em 70, porque foram Pelé, Jairzinho, Gérson, Tostão... quando perde, é o treinador. Quando ganha, são os jogadores. Eu acho perfeito, não tem nada de mágoa. O Romário foi um dos grandes trunfos da seleção brasileira em 94. Foi importantíssimo, mas dentro de um conjunto, dentro de uma equipe que estava formada. Aí o jogador tem condições de aparecer. É difícil falar o que aconteceria sem o Romário mas, com certeza, mesmo sem ele o Brasil teria condições de conquistar o título.

Em algum momento, durante a Copa do Mundo, você achou que o Brasil seria eliminado?
Não. O mais difícil para nós foram as eliminatórias. A Copa foi de uma tranqüilidade total. O Brasil se impôs desde o primeiro jogo, nunca foi ameaçado. Quando eu falo isso, as pessoas pensam que estou ironizando, mas nunca foi tão fácil ganhar uma Copa. Estou sendo sincero, nunca foi tão fácil. Só contra a Holanda, quando estava 2 a 0, demos uma cochilada e eles empataram. Mas depois fizemos o 3 a 2. O Brasil não foi ameaçado nem na final.

Depois do jogo contra os EUA aconteceu aquela discussão entre você e o Muller, que acabou virando polêmica em todo o Brasil. Você enfrentou algum problema de relacionamento com os jogadores? Alguém contestou o trabalho da comissão técnica ou cobrou lugar no time?
Não teve discussão nenhuma, foi a imprensa que inventou isso. Contrataram até um fonoaudiólogo para interpretar o que estávamos dizendo. Foi uma situação em que o Muller chegou perto de mim para elogiar, disse coisas do tipo "é isso mesmo", "você está certo", "tem que ser assim". Foi um elogio, um desabafo dele, favorável a mim. Só que estávamos na seleção brasileira, e aí ficam inventando coisas que não existem. Não houve problemas de relacionamento com os jogadores porque uma das grandes vantagens daquele grupo era a solidariedade, a humildade. Todo mundo estava ali para lutar por um objetivo, que era ser campeão do mundo, jogando ou não jogando. A grande força daquele grupo era exatamente a união. Reservas e titulares se respeitavam.

Pouco antes da Copa, você perdeu sua dupla titular de zagueiros. Durante o torneio, teve que trocar o Leonardo pelo Branco e o Raí pelo Mazinho. Qual era o time que você pretendia escalar? As mudanças fortaleceram a equipe?
O time que eu imaginava é o que terminou as eliminatórias vencendo o Uruguai. Foi o time que começou a Copa, com Ricardo Gomes e Ricardo Rocha. Só que o Ricardo Gomes se machucou e foi cortado 15 dias antes. Entrou o Márcio Santos, depois entrou o Aldair e o time manteve o bom rendimento. A grande vantagem é que tínhamos quatro excelentes zagueiros, quem entrasse daria conta do recado. O que funcionou mesmo é que tínhamos um esquema definido, uma tática definida. Por isso, alterar um ou dois jogadores não fazia o time perder suas características.

Uma das principais qualidades daquela seleção brasileira foi a solidez da defesa, mesmo jogando com dois zagueiros. Qual era o segredo dessa força na defesa?
Conseguir uma defesa sólida não depende de você usar dois ou três zagueiros. Você pode ter uma defesa eficiente com três zagueiros ou com uma linha de quatro (dois zagueiros e dois laterais), como o Brasil jogou. Depende do equilíbrio entre os jogadores no sistema defensivo, que inclui meio-campo e defesa. Tínhamos uma maneira de jogar em que a coordenação e o entrosamento eram o trunfo. Os jogadores eram muito coordenados e tinham qualidade. Havia um equilíbrio muito bom.


Juca Varella/Folha Imagem



Nome: Carlos Alberto Parreira
Data de nascimento: 27/2/1943
Local: Rio de Janeiro (RJ)

Clubes: Fluminense (1974, 75, 84, 99 e 2000), Bragantino (1991), Valencia-ESP (1994-95), Fenerbahce-TUR (1995-96), São Paulo (1996), NY/NJ Metrostars (1997), Atlético-MG (2000), Santos (2000/2001), Internacional (2001), Corinthians (2002)

Seleções: Gana (1968); Kuwait (1976 a 1978 e 1982); Emirados Árabes Unidos (1984 a 1990); Brasil (1983 e de 1991 a 1994); Arábia Saudita (1998)

Títulos: campeão mundial pela seleção brasileira (1970 e 1994); campeão da Copa do Golfo Pérsico pela seleção do Kuait (1976 e 1982), campeão carioca (1975), brasileiro (1984) e brasileiro da série C pelo Fluminense (1999); campeão turco (1996) pelo Fenerbahce

Feitos: Participou de seis Copas do Mundo (1970, 74, 82, 90, 94 e 98), sendo campeão duas vezes (70 e 94). Em 70, foi preparador físico e observador da seleção comandada por Zagallo. Em 74, participou novamente como preparador físico. Em 82, dirigiu a equipe do Kuait. Em 90, comandou o time dos Emirados Árabes Unidos e, quatro anos depois, foi campeão mundial como técnico da seleção brasileira