
| JULIO GOMES FILHO - Enviado UOL Esporte |
Brasil vence Inglaterra de virada e está na semifinal da Copa do Mundo
05h22 - 21/06/2002
Julio Gomes Filho Enviado especial do UOL na Copa Em Fukuroi (Japão)
A seleção brasileira mostrou um bom futebol, mas teve principalmente força de vontade, raça e experiência para vencer a Inglaterra por 2 a 1, nesta sexta-feira, e garantir a sua classificação para as semifinais da Copa do Mundo. Se Ronaldo falhou desta vez, foram os outros dois craques do time, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, que fizeram a diferença no Shizuoka Stadium Ecopa.
Ronaldinho, até então apagado em campo, fez uma jogada brilhante e deixou Rivaldo na cara do gol aos 47min do primeiro tempo. Até aquele lance, o Brasil perdia por 1 a 0 e tinha muitas dificuldades para armar as jogadas, já mostrando um desespero que certamente seria muito maior na etapa final. Cinco minutos depois do intervalo, Ronaldinho, de falta, fez o gol da virada.
O Brasil tem agora 15 gols marcados na Copa do Mundo -12 deles de autoria dos "três erres". Ronaldo e Rivaldo, com cinco cada um, dividem a artilharia do Mundial com o alemão Klose.
A semifinal será disputada em Saitama no dia 26 de junho, às 8h30, contra o vencedor do duelo entre Senegal e Turquia (que se enfrentam amanhã, em Osaka). Se vencer, o Brasil chegará pela primeira vez na história à sua terceira final consecutiva em Copas do Mundo.
Mas não terá vida fácil. Contra os africanos, a seleção principal terá de vingar os traumas sofridos pela seleção olímpica em 96, quando perdeu da Nigéria, e 2000, quando caiu diante de Camarões. Já a Turquia foi uma rival complicada na primeira fase da Copa. A seleção precisou da ajuda da arbitragem para vencer por 2 a 1, com um gol de pênalti aos 42min do segundo tempo.
Mudança Ao contrário do que aconteceu em Kobe, na última segunda-feira, a seleção não teve a torcida do seu lado em Shizuoka. Se não eram tão mais numerosos, os ingleses eram bem mais barulhentos do que os brasileiros. Cantaram o hino quase que gritando e passaram o jogo inteiro apoiando o time. Já a torcida brasileira, espalhada pelas arquibancadas, mostrou uma apatia de quem não está tão acostumado assim a ir a estádios de futebol.
O técnico Luiz Felipe Scolari decidiu, mesmo sem ter feitos muitos treinos durante a semana, optar por uma substituição na equipe titular. Saiu Juninho para a entrada de Kléberson, um jogador mais defensivo, para fechar o meio de campo.
De fato, a equipe mostrou-se mais acertada em campo durante os primeiros 20 minutos. Mesmo ansioso, Kléberson ajudava Gilberto Silva na marcação e liberava os "três erres" para o ataque. O problema era a falta de ligação com o jogadores de frente.
A partida foi muito estudada pelos dois times, que se respeitavam em demasia. O primeiro chute a gol brasileiro aconteceu somente aos 6min. A equipe tocou a bola na frente da área inglesa e Rivaldo experimentou de longe. Fraca, a bola saiu à esquerda do goleiro Seaman.
O lance de maior perigo aconteceu aos 19min, quando Ronaldo e Rivaldo fizeram uma tabela envolvente na entrada da área. Ronaldo chutou rasteiro, para defesa fácil de Seaman.
A Inglaterra, que só tentava chegar ao gol com lançamentos longos e cruzamentos na área, acabou tendo sorte e fazendo o seu gol aos 23min, após falha bisonha do zagueiro Lúcio. Heskey recebeu na intermediária, avançou e tocou por cima para Owen. Lúcio, na tentativa de dominar a bola, praticamente deu um passe para o atacante inglês invadir a área e só tocar por cima de Marcos.
A partir deste momento, a seleção ficou perdida em campo. A Inglaterra se fechou atrás, e o Brasil não conseguia armar nenhuma jogada de ataque. Símbolos do desespero que começava a tomar conta da equipe foram dois lançamentos inúteis de Edmílson e Roberto Carlos. O zagueiro chegou até a bater boca com Rivaldo em campo.
A Inglaterra foi superior por pelo menos dez minutos e perdeu a chance de "matar" o jogo em dois chutes de Beckham e uma cabeçada de Heskey. Um pouco mais calmo, mas ainda sem armação, o Brasil limitou-se a ameaçar os ingleses em chutes de Roberto Carlos.
Aos 47min, aconteceu o lance que mudou os rumos da partida. Kléberson, que muito provavelmente sairia do time no intervalo, ganhou uma jogada com raça no meio, de carrinho, e a bola sobrou para Ronaldinho Gaúcho. Até então apagado em campo, ele partiu com a bola dominada, avançou, deu um drible desconcertante em Ashley Cole e serviu para Rivaldo, já dentro da área. O atacante bateu de primeira, de perna esquerda, no canto direito de Seaman.
Foi um alívio para o Brasil seguir para o intervalo com um empate.
Logo no início do segundo tempo, Kléberson mostrou mais uma vez que a sorte segue ao lado de Luiz Felipe Scolari. O novo titular da equipe sofreu falta no campo de ataque, próximo ao bico da área inglesa. Todos esperavam um cruzamento, inclusive o goleiro Seaman, que estava adiantado. Ronaldinho Gaúcho foi esperto e cobrou com muito talento, no ângulo: 2 a 1.
Com este gol, a Inglaterra teve de sair para o ataque, mas não mostrava muito ímpeto. Aos 7min, Owen foi lançado na área brasileira, mas Roque Junior, o melhor da zaga nesta sexta, desarmou o atacante. Aos 8min, Heskey cruzou rasteiro e Lúcio salvou, colocando a bola para escanteio. Na seqüência, a Inglaterra teve falta na direita. Beckham cruzou, Marcos não saiu do gol e a zaga afastou.
O técnico Sven Goran Eriksson mexeu pela primeira vez na Inglaterra aos 11min. Tirou o meia Sinclair e colocou o atacante Dyer.
Segurando a vitória Aos 12min, Ronaldinho entrou com o pé por cima da bola em Mills. O árbitro mexicano Felipe Ramos Rizo, que ainda não havia dado um único cartão, exagerou e expulsou o atacante brasileiro.
Outro lance polêmico aconteceu aos 17min, quando o astro inglês David Beckham teve seu pé enganchado com o de Gilberto Silva dentro da área brasileira. Rizo não deu o pênalti e nem o cartão amarelo por uma possível simulação.
Beckham, por sinal, praticamente "sumiu" de campo no segundo tempo. Na etapa inicial, ele já havia sido atendido pelos médicos por estar com fortes dores no seu pé direito -aquele mesmo que ele fraturou alguns meses atrás, uma contusão que quase o deixou fora do Mundial.
Após a expulsão de Ronaldinho, o Brasil começou a mostrar toda a sua experiência e malandragem. O time passou a tocar a bola de lado, cavar laterais, demorar nas cobranças de falta e até mesmo simular agressões. Como fez Rivaldo, caindo no chão com a mão no rosto após uma bola dividida pelo alto com o zagueiro Campbell.
Jogadores mais aplaudidos pelo público quando os times foram anunciados, Rivaldo e Ronaldo foram vaiados em campo. Rivaldo, pelo lance relatado acima. E Ronaldo pela forma lenta como saiu de campo aos 25min, quando foi substituído por Edílson.
Edílson entrou para puxar os contra-ataques. Mas, com um a menos, o time pouco conseguia fazer. Ele e Rivaldo mais azucrinavam a defesa inglesa, seguravam a bola no ataque e cavavam faltas. Tudo o que o Brasil precisava para deixar o tempo passar.
O técnico da Inglaterra, o sueco Sven-Goran Eriksson, realizou uma substituição polêmica ao tirar o atacante Owen e colocar em campo o reserva Vassell. Também entrou em campo o atacante Sheringham no lugar do lateral Cole. Mesmo assim, os ingleses não conseguiam ameaçar o gol brasileiro.
O jogo continuou até os 49min, e a seleção conseguiu segurar a vitória por 2 a 1. Com este resultado, o Brasil manteve o tabu de nunca ter perdido para a Inglaterra em Copas do Mundo. Em 1958, empatou em 0 a 0; Em 1962, venceu por 3 a 1; e, em 1970, por 1 a 0. Em todas estas ocasiões, a seleção conseguiu ganhar o título mundial posteriormente.
INGLATERRA Seaman; Mills, Ferdinand, Campbell e Ashley Cole (Sheringham); Beckham, Scholes, Butt e Sinclair (Dyer); Heskey e Owen (Vassell) Técnico: Sven-Goran Eriksson
BRASIL Marcos; Lúcio, Edmílson e Roque Junior; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho e Roberto Carlos; Ronaldo (Edílson) e Rivaldo Técnico: Luiz Felipe Scolari
Gols: Owen, aos 23min, e Rivaldo, aos 47min do primeiro tempo; Ronaldinho, aos 5min do segundo tempo Cartões amarelos: Scholes e Ferdinand (I) Cartão vermelho: Ronaldinho (B) Árbitro: Felipe Ramos Rizo (MEX) Auxiliares: Hector Vergara (CAN) e Mohamed Saeed (MDV)
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