Empresa norte-americana, que pagou caro para figurar no pacote de patrocinadores do Mundial, desperta onda de rejeição entre torcedores da Alemanha; entidade que gere o futebol internacional suporta pressão e preserva o monopólio da marca estrangeira nos estádios do evento
A frase "Kann ich ein Bier haben?" será item obrigatório no glossário de viagem básico de muitos torcedores que invadirão a Alemanha em junho para ver a Copa. Saber pedir uma cerveja na terra que mais venera e explora a diversidade dessa bebida no planeta faz parte do processo de entrar no clima para o Mundial deste ano, pelo menos para aqueles que acompanharão de perto a competição.
Tamanha é a devoção dos habitantes da terra do Mundial pela bebida, principalmente as locais, que a Fifa acabou pega numa saia justa com um dos patrocinadores da Copa. Parceira oficial do evento, a gigante norte-americana Budweiser gerou uma onda de rejeição entre os fãs alemães meses antes da competição.
A companhia Anheuser-Busch, que detém a marca Budweiser, pagou cerca de US$ 40 milhões para figurar no grupo de patrocinadores oficiais do Mundial (a empresa é parceira da Fifa em Copas desde 1986). Por contrato, os norte-americanos também conseguiram o monopólio das vendas de cerveja dentro e nas imediações dos estádios da competição.
Essa notícia chegou aos ouvidos dos fãs alemães quase como um insulto, e a Fifa se viu pressionada, até mesmo pelo Comitê Organizador da Copa, para rever a cessão do monopólio aos norte-americanos. No entanto, a entidade bateu o pé.
"Preciso ser claro a respeito disso, de uma vez por todas. Essa não é uma Copa do Mundo da Alemanha. É uma Copa do Mundo da Fifa na Alemanha que custou US$ 758,7 milhões", afirmou Blatter sobre o assunto em entrevista recente ao diário alemão Bild.
Os mais tradicionais pontos de venda de cerveja da Alemanha preservam a tradição de produzir a própria bebida, com métodos antiquados. É assim na cervejaria Weiss Bräu, na cidade de Colônia, onde o processo acontece bem diante dos olhos dos clientes.
"Todo o processo, com a mistura de elementos, aquecimento e fermentação, demora pelo menos oito horas. Mas, mesmo depois de pronta, não servimos a cerveja. Deixamos ela guardada em barris por duas ou três semanas. Isso ajuda a apurar o sabor da bebida", relata Daniel Exnen (na foto acima), responsável pela produção da Weiss Bräu, que tem como especialidade a "kolsch", cerveja clara e levemente salgada.
Na verdade, depois de alguma discussão e do mal-estar, a Fifa chegou a estudar uma solução diplomática, pensando em promover a alemã Bitburger, que também patrocina a seleção de seu país, nas vendas nos estádios da Copa. Em troca, a Budweiser conseguiria arrancar da entidade um substancial crescimento de publicidade durante o Mundial. Mas o acordo não vingou.
O fato curioso da parceria que quase saiu é que as duas marcas sempre foram arqui-rivais na Europa. Nos anos 90, a companhia alemã, conhecida popularmente em seu país como "Bit", conseguiu na Justiça a proibição para a adversária norte-americana de usar a marca "Bud" na Alemanha.
Mesmo assegurando o monopólio nos estádios da Copa, a patrocinadora norte-americana corre grande risco de ter um fiasco como desempenho no evento. Tudo porque os alemães veneram cerveja e fazem questão de exaltar a condição de melhores do mundo em assuntos associados a ela.
"Não usaria isso (Budweiser) nem para lavar meu carro", dispara Ottmar Riesing, membro do clube da cerveja da Bavaria. "As alemãs são muito melhores", completa.
"A verdade é que todos os alemães detestam a Budweiser. Se vão fazer uma Copa na Alemanha, têm que vender as cervejas alemãs. Afinal, são as melhores do mundo", afirma Stephanie von Bentzel, que bebe sua cerveja quando vai torcer para o Schalke 04 em Gelsenkirchen.
Tradicionalmente, a Budweiser sempre encontrou muita rejeição no país. Até uma década atrás, a marca não era reconhecida como cerveja na Alemanha. Tudo porque, segundo o regulamento nacional de pureza da bebida, só malte, água, fermento, lúpulo e pressão de oxigênio podem ser usados na produção.
"A Budweiser não era reconhecida porque usava arroz em seu processo de produção. Não sei exatamente se houve alguma mudança, mas agora eles estão listados na categoria de cerveja", relata Daniel Exnen, responsável pela produção de uma cervejeira de Colônia.
Bares locais preferem fazer cerveja própria
Quase uma religião para os alemães, a cerveja certamente desempenhará papel importante na história não-esportiva da próxima Copa, polêmica de nacionalidade à parte. Além de presença certa dentro dos estádios, ela deve figurar nas concentrações de torcedores antes dos jogos e, obviamente, regar as comemorações pós-partidas.
A paixão do alemão por sua cerveja é igual ou talvez superior à idolatria ao futebol. No ranking dos grande bebedores do mundo, a Alemanha aparece no terceiro lugar no consumo anual por cabeça, atrás somente de República Tcheca e Irlanda. De acordo com uma pesquisa recente, 78% dos alemães considera tomar a bebida sua principal atividade de lazer.
No campo dos negócios, mais números de respeito: cervejarias alemãs dominam 10% do mercado mundial e empregam 65 mil trabalhadores.
A grande celebração anual à cerveja na Alemanha é a Oktoberfest, festa criada em 1810 e que nos últimos anos atraiu quase sete milhões de visitantes de todo o mundo. O evento acontece em Munique, Meca da "loira gelada" mundial por alguns dias.
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