A vergonha que cantar o hino e balançar a bandeira ainda poderiam despertar entre os alemães desde os tempos de Adolf Hitler, que culminaram na destruição e na divisão do país, não tem resistido à avalanche nacionalista despertada pela Mannschaft, a seleção da Alemanha, que pode conquistar seu primeiro título após a reunificação do país, deflagrada em 3 de outubro de 1990, menos de dois meses após a conquista do tricampeonato na Copa disputada na Itália.
Ainda como Alemanha Ocidental (RFA), a seleção que derrotou a Argentina de Maradona não representava todas as mudanças sócio-políticas que tomavam corpo desde 9 de novembro de 1989, data que marcou a queda do Muro de Berlim, símbolo máximo que acompanhou a nação a partir da derrota na Segunda Guerra Mundial e que dividiu o país em dois, um sob interferência norte-americana e outro sob a diretriz soviética, resumindo o espírito da Guerra Fria entre as duas potências que dominou o mundo entre as décadas de 60 e 80.
Um dos destaques da equipe de 1990, Jürgen Klinsman sabe exatamente o quanto aquela conquista não fazia sentido para muitos dos cidadãos da Alemanha Oriental (RDA), que passaram anos alijados do crescimento econômico construído pelo vizinho tão próximo. Por isso, vem tratando a Copa disputada em casa como o momento exato para despertar a união no país.
Os jogadores sentem que a Alemanha está unida com eles, esse sentimento está com eles, conta Klinsmann, satisfeito com o fato que foram os jogadores que quiseram ficar abraçados durante o hino na abertura da Copa, situação inimaginável, por exemplo, no Mundial de 1974, quando os atletas alemães, mesmo disputando a competição em casa, boicotavam o hino e mantinham suas cabeças baixas, postura que seguiu até a queda do Muro.
"É tocante quando as pessoas nos estádios se levantam para cantar o hino nacional agora. No passado, havia três ou quatro pessoas na seção VIP que sabiam de cor a letra do hino e cantavam junto. Antes, tínhamos que colocar as letras no telão para as pessoas cantarem", lembra Mayer-Vorfelder, presidente da Associação de Futebol da Alemanha (DFB).
Campeão como jogador em 1990, Klinsmann vira técnico e demora a ganhar apoio da torcida, a quem conclama como uma peça fundamental para ajudar na conquista do tetra e, mais, mudar a cara da Alemanha.
Uma Copa sem brilho técnico premia a Alemanha de Matthäus e marca a reunificação que havia começado no país, mesmo com o título conquistado apenas pela face ocidental.
Meses antes do Mundial na Itália, o Muro de Berlim vai abaixo, derrubando uma divisão que se arrastava desde 1961 e que é oficialmente revista três meses após a final em Roma.
Ainda sob o clima da Guerra Fria, a Alemanha Ocidental de Beckenbauer conquista o título após perder para a rival Oriental e, na prática, se livrar do Brasil nas quartas.
Traumatizado pela derrota na guerra, o país surpreende o mundo ao derrotar os até então imbatíveis húngaros e desperta o nacionalismo sob os gritos de Alemanha Acima de Tudo.
Esfacelada pela derrota na Segunda Guerra e pela queda de Hitler, a Alemanha mergulha na vergonha perante o mundo, abandona símbolos nacionais e entra no processo para a divisão entre duas nações.
Apostando na motivação nacionalista como peça fundamental para empurrar uma equipe até pouco tempo absolutamente desacreditada a uma fortíssima favorita ao título, Klinsmann já percebeu que surgiu uma enxurrada de orgulho nacional até então incomum em um país onde o patriotismo exagerado era visto com suspeita desde a Segunda Guerra Mundial.
"Não acho que me coração alguma vez tenha batido mais forte que hoje. Foi inacreditável", dizia o presidente alemão, Horst Koehler, após a vitória nos pênaltis contra a Argentina, pelas quartas-de-final.
Agora, uma nova demonstração de orgulho rasgado tem data e horário marcados: terça, dia 4, às 16h (de Brasília), contra a Itália.
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