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07/07/2006 - 12h00

Da Redação
Em São Paulo
A chegada da Itália à decisão da Copa da Alemanha conseguiu a proeza de, ao mesmo tempo que despertou assustadoras coincidências com a trajetória de seu último título mundial, em 1982, derrubou o mito de que a seleção tricampeã só consiga sucesso na competição com campanhas irregulares e com pouca emoção.

Melhor ataque da edição de 2006, ao lado da anfitriã Alemanha e da Argentina, a Itália fez com que sua aptidão para jogar defensivamente, que virou sua marca sob o nome de ‘catenaccio’ –a versão italiana para o ferrolho-, fosse aliada a uma rotatividade tática que permitisse que dez jogadores diferentes marcassem gols, o que garantiu ao time dirigido por Marcello Lippi uma irretocável campanha, com cinco vitórias e um empate na competição.

Bem diferente da campanha de 1982. Com três empates no Grupo A, a Itália conseguiu ir além da primeira fase apenas por ter feito um gol a mais do que a então estreante seleção de Camarões. E olha que os italianos marcaram apenas dois gols.

"Desta vez, o 'catenaccio' foi jogado pelos outros. (A Itália) parecia um time dos anos 30 no jogo contra a Alemanha", disse o zagueiro e capitão da equipe, Cannavaro, citando o fato da seleção ter encerrado a partida semifinal com quatro jogadores de ataque, postura raríssima na história do ‘calcio’.

A SEQÜÊNCIA DA CRISE

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Luciano Moggi foi estopim de fraude que abalou a Itália,...

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deixou sob investigação o técnico da seleção, Marcello Lippi, ...

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e ameaça de rebaixamento os gigantes Juventus e Milan.

Mas é apenas a volúpia pelo ataque demonstrada em alguns momentos da equipe na Alemanha que diferencia completamente a seleção de Lippi à de Enzo Bearzot, o técnico do último título italiano em uma Copa do Mundo. Porque a expectativa que antecedia a disputa da competição e, principalmente, o cenário extra-campo é o que fazem de 2006 uma extensão de 1982 para o futebol italiano.

O que une as duas pontas é um escândalo de manipulação de resultados e a desconfiança sobre as decisões táticas de Lippi, que abandonou o esquema com dupla de atacantes até chegar à final após inúmeras críticas da imprensa, e de Bearzot, pressionado na época pela contusão do atacante Bettega e pelos maus resultados dos amistosos pré-Copa.

No entanto, a fraude que ameaça rebaixar tradicionais agremiações como Juventus, Milan, Fiorentina e Lazio, promover uma debandada das estrelas internacionais que recheiam o campeonato da Série A e punir judicialmente 26 pessoas que aparecem como suspeitas na investigação não chegam a ser novidade na Itália.

A diferença é que os jogadores suspeitos de participação no esquema atuam em posições distintas. Um dos destaques da equipe na Copa de 2006, o goleiro Buffon chegou à Alemanha vaiado pelos torcedores sob a desconfiança de ter sido beneficiado pela teia de manipulação, o que deverá ser investigado ao final da competição.

Já em 1982, o atacante Paolo Rossi, o ‘bambino d´oro’ do futebol italiano, foi disputar sua segunda Copa após ter cumprido suspensão de dois anos por envolvimento com a máfia da Tottonero, a loteria esportiva paralela em que árbitros, jogadores e dirigentes influenciavam resultados em troca de dinheiro.

Absolvido pela Justiça, caiu na esfera esportiva italiana e, após a suspensão, ganhou voto de confiança da mesma Juventus, que aceitou pagar a então cifra recorde de US$ 4 milhões para devolvê-los aos campos em 2 de maio, pouco mais de um mês antes do início da Copa da Espanha, em que demorou quatro jogos até desencantar, marcar três contra o Brasil, terminar a competição como artilheiro –com seis- e como ídolo eterno da ‘Azzurra’.

As dimensões do escândalo, porém, podem atingir conseqüências muito maiores do que a suspensão de um jogador seduzido por propinas. O abalo moral causado pelas investigações e pelo iminente rebaixamento de equipes poderosas como Milan e Juventus –que já vê até com bons olhos cair ‘apenas’ para a Série B, evitando assim a desmoralização completa de descer até a já cogitada Série C- tem causado desconforto na torcida e na imprensa italiana.

'AZZURRA' ATÉ A FINAL

AnoCampanhaGols
20065 vitórias e 1 empate11
19944 vitórias, 1 empate e 1 derrota8
19823 vitórias e 3 empates9
19703 vitórias e 2 empates9
19384 vitórias11
19344 vitórias e 1 empate12
“Sabíamos que não seria fácil, mas a realidade nos decepciona", estampava o jornal italiano Gazzetta dello Sport no dia seguinte à vitória por 2 a 0 contra a Alemanha, que levou à final da Copa, no domingo, contra a França, um elenco que conta, entre 23 jogadores, com 13 atletas que pertencem às equipes ameaçadas pelo promotor federativo Stefano Palazzi, o responsável pelos indiciamentos.

A ‘realidade’ mencionada pela Gazzetta tem como protagonista Luciano Moggi, gerente-geral da Juventus de Turim acusado ser uma espécie de controlador oculto das principais decisões do futebol local, definindo a escolha dos árbitros que beneficiasse sua equipe e, indiretamente, tendo voz ativa nas decisões referentes a direitos de transmissão pela TV e na sucessão da federação italiana de futebol, que no meio do imbróglio, teve o pedido de demissão de seu presidente, Franco Carraro.

O caso da arbitragem deverá ser solucionado até o próximo dia 20, prazo estipulado pela Uefa, mas durante a preparação da seleção italiana para a disputa da final da Copa, que será realizada em Berlim, outro Estádio Olímpico, o de Roma, continuará sendo o plenário de depoimentos que deverão marcar uma nova história para o milionário e até então importador mercado italiano.

A lama que envolve o futebol italiano, porém, não deixa de servir como estímulo para a seleção. “(O escândalo e a ameaça aos clubes) Isto pode ter sido positivo porque acumulamos tanta raiva que a transferimos para o gramado”, declarou após a vitória contra a Alemanha o capitão da equipe, Cannavaro, que joga justamente na Juventus, clube onde joga também o autor do gol que garantiu a vitória nas semifinais.

"Houve mais raiva do que alegria no meu gol, por muitos motivos que agora não faz sentido apontar", disse Del Piero, que saiu comemorando de forma colérica o segundo gol da Itália em Dortmund.

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