UOL Esporte - Copa 2006UOL Esporte - Copa 2006
UOL BUSCA
Rubes Chiri/Agência Perspectiva

Moderno e rústico se unem contra lesão e fadiga

Danilo Valentini

Em São Paulo

Equipamentos que, sozinhos, perguntam ao paciente qual a dor que pode tirá-lo de uma partida e imediatamente dão o diagnóstico e a forma de tratamento para uma lesão. Parafernálias que permitem a um atleta levantar peso sem fazer careta ou medir precisamente quanto corre durante um treino. Com tudo isso, o futebol que vai a Copa do Mundo de 2006 parece ter virado uma coisa biônica. Mas só parece.

Segmento que, segundo os especialistas, avança de maneira galopante desde a Copa de 1966, quando a Inglaterra venceu seu único Mundial consagrando o chamado futebol-força, a preparação física e tudo que a acompanha (fisiologia, fisioterapia, nutrição) não foi capaz de dispensar os artifícios mais rústicos dos tempos das bolas de capotão e das chuteiras que pareciam sapatos sociais.

Cones para movimentos curtos nas corridas, cordas para exercitar as pernas, borrachas usadas para exercícios de tração, medicine ball para fortalecer os braços dos laterais que arremessam a bola para dentro da área e sacos de gelo para amenizar dores de pancadas fazem parte da bagagem das principais seleções do mundo que vão à Alemanha.

"SOMOS REFERÊNCIA"

Arquivo Folha

A supremacia brasileira não é celebrada apenas por suas conquistas mundiais. A qualidade da preparação física no país também é motivo para os próprios profissionais se auto-proclamarem, unanimamente, os melhores do mundo no setor.

“No Brasil, independente de o clube estar aparelhado ou não, o preparador apela à criatividade e ao improviso se for preciso, e mesmo sem infra-estrutura a equipe vai estar preparada, correndo muito”, diz Paulo Paixão.

Ademar Braga (foto) chegou a mesma conclusão quando foi técnico do Irã no período 2000-01. “Eles eram muito atrasados, não evoluíram porque não foi permitido pelo sistema político que houvesse intercâmbio. E, sem intercâmbio, não há evolução”, afirma o auxiliar técnico do Corinthians, que teve de comandar a compra dos artigos mais básicos, de cones e barreiras estáticas para treinos de cobranças de falta a esteiras e bicicletas ergométricas. “Por isso os brasileiros viraram referência, assim como já foram um dia os europeus”.

A troca de informações e descobrimento de novas tecnologias é estimulada.

“O São Paulo sempre me libera para pesquisar fora do Brasil. Agora no intervalo do campeonato, por exemplo, vou a Espanha”, conta Ricardo Sasaki, fisiologista do São Paulo que tratou na sala de recuperação do clube vários atuais jogadores da seleção brasileira, como Cafu e Kaká.

Da mesma forma que aparelhos como o GPS, o sistema de posicionamento global usado para medir a distância percorrida por um jogador durante uma corrida em volta do campo, o frequencímetro, que avalia a atividade cardíaca, e o lactímetro, para avaliar os resíduos expelidos após as atividades físicas.

“Por mais que os equipamentos tenham evoluído, não pode ser dispensado tudo o que já foi usado até agora”, afirma Ricardo Sasaki, fisioterapeuta do São Paulo ao lado de Luiz Rosan, que também faz parte da comissão técnica da seleção brasileira e um dos primeiros a chegar a concentração da equipe, em Weggis, na Suíça.

A evolução, porém, é fato. E cíclica. Tanto que alguns procedimentos que já foram tratados como o supra-sumo da modernidade são apontados hoje como obsoletos e folclóricos.

“O que é moderno hoje não serve mais amanhã. É assim desde 1970, quando era o máximo fazer cooper no Alto da Boa Vista ou no calçadão das praias do Rio de Janeiro”, sintetiza Ademar Braga, auxiliar técnico do Corinthians que fez parte da comissão técnica da seleção brasileira na Copa da Itália, em 1990, e já dirigiu as seleções do Kuwait e do Irã.

As corridas de até seis quilômetros que eram lei na lista de atividades de uma equipe que ia começar uma semana de trabalho após ter jogado no final de semana, os exercícios de ‘canguru’ em arquibancadas e as subidas de escadas com sacos de areia nas costas ficaram para trás. “O que vale agora é atender exigências específicas”, diz Braga.

Por isso, jogadores de fôlego presentes na seleção, como o capitão Cafu e o recém-convocado Mineiro, são tratados como fundistas e trabalhados a terem capacidade de correr entre oito e dez quilômetros por jogo. Dos exercícios a alimentação, jogadores de meio-campo costumam ganhar tratamento diferente do adotado para velocistas, como laterais e atacantes.

“Já jogadores de marcação, que fazem muitos movimentos de vaivém durante os jogos, precisam de outro tipo de atividade”, explica Paulo Paixão, parceiro de Moraci Sant´anna no departamento de preparação física da seleção brasileira, que aponta os exercícios personalizados como fundamentais para a evolução física de um atleta. “Antes dos anos 90, um zagueiro corria uma média de três quilômetros por jogo. Hoje, essa marca não é menor do que cinco, seis quilômetros”.

As necessidades individuais de cada atleta, aliás, só são de fato confirmadas após análises precisas de equipamentos que passaram a fazer parte do kit obrigatório de uma equipe de ponta do futebol brasileiro e mundial, cada vez mais aguerrido. “Melhorou o nível atlético porque o jogo é mais exigente, tem mais desgaste, mais choque, mais correria”, atesta Turíbio Leite de Barros, fisiologista do São Paulo.

Arquivo Folha

Não inventaram um substituto para os cones no século 21

Segundo Paulo Paixão, hoje em dia não se pode mais começar a preparar jogadores sem a avaliação isocinética, processo que avalia as condições da musculatura dos atletas e que vai evidenciar se tal jogador está com a coxa direita mais forte que a esquerda. “Evita o desequilíbrio e nos permite fazer correções rápidas apenas com musculação”.

Quesito tratado como uma dádiva do futebol europeu dos anos 70 e 80, a musculação mudou. Antes tratado como ferramenta que poderia igualar o brasileiro aos europeus no auge da seca de títulos mundiais do Brasil, o procedimento hoje é usado mais para fortalecimento de músculos específicos.

Músculos que são tratados a pão-de-ló e que, teoricamente, poderiam até ser tratados sem a presença de um profissional. Tudo porque já existem equipamentos como o combo levado pela seleção brasileira que registra qual a lesão a ser tratada, o tempo e a intensidade adequada de tratamento e que abrange tratamentos, em um só lugar, ultra-som, fisioterapia, eletroterapia e laser.

“As máquinas estão muito sofisticadas, só faltam falar, mas ainda não se dispensa a qualidade de trabalho de preparadores e fisioterapeutas”, afirma Paulo Paixão.

O desenvolvimento da preparação física, no entanto, ainda não é unanimidade, principalmente por lesões sérias ainda serem freqüentes e ameaças às presenças de jogadores importantes na Copa do Mundo, como o já cortado brasileiro Edmílson, além do inglês Wayne Rooney e o argentino Lionel Messi (ambos com escalação não garantida na primeira rodada do Mundial).

“O corpo do ser humano não mudou durante os anos, continua tendo um coração, dois rins e duas pernas, mas será que as mudanças vêm fazendo realmente bem? Tenho dúvidas, porque na época que eu era preparador os exercícios eram mais pesados, mas é hoje que todo dia tem lesão de ligamento”, contesta Ademar Braga.

SELEÇÕES

“O que é moderno hoje não serve mais amanhã. É assim desde 1970, quando era o máximo fazer cooper no Alto da Boa Vista ou no calçadão das praias do Rio de Janeiro”

Ademar Braga, um dos preparadores físicos da seleção brasileira na Copa de 1990, ex-técnico do Kuwait e do Irã e atual auxiliar-técnico do Corinthians

10km

É a distância acumulada que, segundo preparadores físicos e fisiologistas, jogadores de fôlego como Cafu e Mineiro podem percorrer durante 90 minutos de uma partida

Cardápio

Parte cada vez mais integrada a preparação de uma equipe de ponta, a nutrição é o controlador mais rígido de um jogador. Seja no veto a alimentos gordurosos em períodos de competição, seja na recomendação de ingredientes saudáveis.

`Bombas` calóricas como feijoada e churrasco, por exemplo, foram vetadas por Silvia Ferreira, a responsável da CBF para definir o que pode e não pode na mesa da seleção brasileira durante a Copa da Alemanha. Assim como o kassler (costela) e o einsbein (joelho), tradicionais pratos locais que levam carne de porco.

Mas não é qualquer profissional que ganha de um especialista a autorização quase que obrigatória de poder comer livremente um suculento pedaço de bife acompanhado de um monte de macarrão. “Um jogador que usa muito a velocidade durante o jogo, como um atacante, precisa imediatamente de uma porção de proteína e carboidrato para compensar a sua musculatura ressentida”, receita Turíbio Leite de Barros, fisiologista do São Paulo.

A alimentação, alertam especialistas, deve começar antes, logo depois que os jogadores chegam aos vestiários. “Frutas como abacaxi e melancia são ricas fontes de carboidratos e ótimas para reidratação”, diz Turíbio, que também costuma oferecer sorvete de frutas e kits individuais com isotônicos preparados com composição personalizada para cada jogador.