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O OUTRO LADO DA COPA

Arte UOL/ Mario Benevento Neto

Loucos e normais trocam papéis e se confundem durante Copa

Rodrigo Bertolotto

Em São Paulo

Cada louco com seu tema. "Já fui astronauta, gerente da Nasa e ator de Hollywood", diz o esquizofrênico Lino, tomando sol no pátio enquanto a maioria dos pacientes acompanham em um auditório o jogo da seleção brasileira. "Estou administrando o bolão do pessoal. Como tenho o poder da telecinética, controlo a matéria pela mente. No primeiro tempo, me aproximei da TV e deu interferência: quase saiu um gol de Gana", explica. "Melhor ficar aqui que o Brasil ganha o jogo", completa.

Você não tem aquele amigo que se acha pé-frio? Ou aquele que acha que porque fez isso ou aquilo seu time ganhou? Pois ele pode se identificar com os esquizofrênicos, afinal, um dos sintomas do distúrbio é achar que influencia em coisas distantes. Se acha que o resultado está comprado, o Paranóicos F.C. é o seu time. Se grita e toca corneta o tempo inteiro, o sujeito pode se reconhecer no comportamento dos histéricos.

A reportagem do UOL acompanhou o jogo de oitavas-de-final em um Caps (Centro de Atenção Psicossocial), instituição estadual que renovou o tratamento de alienados, que antes eram trancados em manicômios.

TIPOS DE LOUCO POR COPA

Torcedor bipolar
Alterna momentos de euforia ("Brasil é campeão") com outros de depressão ("É um timeco"), na maioria das vezes dá opiniões sem nexo com o que está acontecendo em campo

Crédito

Torcedor esquizofrênico
Com facilidade, começa torcendo por uma seleção e passa a torcer por outra. Torce contra e a favor, alternadamente. Acha que influencia no resultado, se considera "pé-frio" e foge da TV

Torcedor histérico
Grita, apita e quer ser o centro das atenções na torcida. Não acompanha a tática da partida, fica ansioso e tem pouca tolerância à frustração (abandona o jogo se seu time está perdendo)

Torcedor "síndrome do pânico"
Teme que o Brasil vai perder até da Islândia ou Ilhas Salomão, tem pavor que a qualquer momento um jogador se machuque, seja expulso ou tenha intoxicação alimentar

Torcedor obsessivo compulsivo
Assiste aos 64 jogos da Copa, escuta todos os comentaristas, vê os VTs dos jogos que já acompanhou, grita gol para replay e lê no dia seguinte todos os jornais e sites

Torcedor paranóico
Acredita que o resultado está comprado, que o juiz é vendido, que a Fifa manipula, que sempre há um complô. Talvez seja o torcedor que esteja mais perto da realidade do futebol

Mas quem chegasse à sala onde cinqüenta pessoas assistiam ao jogo juraria que os funcionários eram os doidos, e vice-versa. Psicólogas, enfermeiras e terapeutas gritavam e pulavam, enquanto os usuários estavam concentrados nos lances.

Jurandir (nome fictício, como o dos outros pacientes citados na reportagem) apóia o queixo na palma da mão e segue tudo o que acontece na tela. Ele é classificado como bipolar, denominação nova para a síndrome maníaco-depressiva. No primeiro contato, se nega a conversar. Com o jogo amarrado no início, tento instigá-lo: "Você não acha que o Parreira é louco de voltar com o tal quadrado mágico?" Ele mostra seriedade de quem está sendo entrevistado: "Ele é conservador, até teimoso, mas não é louco." Mais relaxado com o gol de Ronaldo e a situação da entrevista, ele confessa: "Assistir ao jogo em casa me dá muita angústia. Estou gostando de ver aqui com os outros."

Torcer pela seleção foi atividade programada para envolver mais os usuários do centro com a realidade externa, ou seja, a loucura em torno da participação brasileira na Alemanha. "É uma ocasião para evitar a alienação e sintonizá-los com o mundo", afirma a psicóloga Miriam Fernandes.

Mas nem todos vieram. O paranóico José Carlos ficou em casa, com uma mania particular para os jogos do Brasil. Ele recorta um pedaço de papel e cobre o gol em que a seleção ataca para evitar a felicidade nacional. A idéia de torcer contra é recorrente. "É um indício do descontentamento deles com a realidade. Eles não lidam bem com os sentimentos coletivos e se fecham em seu eu", analisa a psicóloga.

"Sou Gana. Eles jogam o futebol do tempo do Pelé", dispara o paranóico Vágner. Quando sai o gol do Brasil, já mudou de idéia e pula e aplaude: "Eu sou da seleção, poxa". Já a esquizofrênica Beatriz primeiro não liga para a partida. "Não vou assistir, vou prá casa lavar duas calças e ler um livro", justifica. Quando sabe que haverá ali pipoca e guaraná durante o jogo, muda de idéia. "Vou ficar e torcer por Gana porque eu sou africana", afirma a paciente absolutamente branca. A torcida dura pouco: aos 15min de jogo já deu no pé.

Outro comportamento comum são os esquizofrênicos do lado de fora para não atrapalhar a alegria dos outros pacientes. "Sou pé-frio em tudo sempre. Não vou lá dentro", sentencia Marcinho. Um outro colega de diagnóstico fuma na calçada. Tem no ouvido papel molhado para não ouvir as vozes dentro de seu cérebro. Já Luiz é um esquizofrênico que pensa positivo. "Achei que dava azar assistir com os outros. Mas acho que estou dando sorte", afirma no seu entra-e-sai da sala.

Desenhando a planta de sua casa imaginária sobre a mesa de pingue-pongue, a moradora de rua Iara diz que odeia futebol. "Futebol mata as pessoas, destrói os lugares. Prefiro vôlei, que nunca matou ninguém", argumenta a paciente com traços antisociais.

Em situação totalmente oposta está a histérica Laura. Ela usa uma tiara com a bandeira do Brasil e saco plástico verde na cabeça. Só sai do lado do televisor para pegar mais um pacote de pipoca. O trabalho de gritar e comer pipoca acaba com Laura engasgando. Ela tosse sem parar. Tudo resolvido volta a torcer.

Uma falta cometida por Gana e vem o grito: "Dá vermelho, juiz. Melhor, dá cartão preto para esse cara." Mais empolgação, mas ela nem sabe quem é o rival. "Como é o nome do país? Grana?", pergunta para a vizinha. Seu comportamento é criticado por outras pacientes ("Ela está se achando", diz uma, "Olha a voz de gralha", dispara outra). Até as psicólogas tem de contê-la: "Menos, menos". "Temos que estimular uns e controlar outros. O futebol mexe muito com eles também", afirma a psicóloga Miriam. "Laura adora fazer macaquice, quer ser o centro das atenções. O jogo é o lugar ideal para sua mania de espetáculo", completa.

O Caps localizado atrás do MASP (Museu de Arte de São Paulo) foi criado em 1987, o primeiro do Brasil, que hoje conta com 750 centros nesses moldes. Os pacientes recebem consulta, fazem atividades artísticas (uma delas recebeu o nome de "Tarja Preta") e, em alguns centros no computador (há um projeto de inclusão digital com sugestivo nome de "Caps Locki"). Na oficina de escrita, o destaque é seu Geraldo, que já publicou suas poesias em livro. Ele assistiu quietinho o jogo e abriu um sorriso com os gols. "Até pouco tempo achava que era Deus. Agora não acho mais", conta. O problema agora é a mulher dele, evangélica, não permite que tenha televisão em casa.

Os usuários, portadores de transtornos mentais graves, não dormem por lá (para os tradicionais manicômios só vão os que estão muito transtornados e sem suporte familiar). Alguns ganham um salário-mínimo do governo e vivem em pensão. Os menos afortunados dormem na calçada próxima.

Mas cada vez mais eles estão organizados. Ricardo é criador da associação Psicóticos Anônimos e está envolvido em eventos como a Parada do Orgulho Louco e a Copa da Inclusão, que acontece todo mês de outubro. Ricardo puxa conversa com a reportagem antes do jogo. Pergunta o palpite. Arrisco um 2 a 0. "Vai ser 10 a 0. Você não sabe nada de futebol. Teu chefe devia te mandar para o Iraque", decreta em um cometário que parece saído de uma mesa-redonda de final de domingo. Por isso, em época de Copa o limite entre loucura e lucidez se confunde ainda mais.

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