Com dólar e ações estáveis e previsíveis, operadores do mercado financeiro preferem atualmente um investimento bem mais dinâmico e arriscado: as seleções da Copa do Mundo. E não imagine que é um desses inocentes bolões de firma, afinal, as cifras são altas, a venda de palpites repete o formato de outros papéis e, para completar, tudo é feito na surdina (afinal, eles deviam estar comprando e vendendo outras coisas e não resultados de jogos e possíveis artilheiros).
Profissionais de bancos e corretoras, com idades entre 25 e 35 anos, estão fazendo uma bolsa de apostas do Mundial. O circuito inclui profissionais de outros países, aproveitando a rede de contatos entre as instituições. Para as operações, eles usam o telefone, e-mails e programas de planilhas, além é claro da habilidade com números e cifras -todos eles companheiros do trabalho diário.
O investimento foi batizado com óbvio nome de "Copa do Mundo". As negociações começaram pouco antes da competição e continuam até a final do torneio, com cotação diária oscilando de acordo com as notícias vindas da Alemanha. Para participar, é preciso ser convidado (nos moldes dos clubes privês).
Os operadores fazem as apostas após o expediente, em uma espécie de "over-night". Na maioria das vezes, operam sem o conhecimento dos patrões, já que estão usando equipamentos da empresa para fins pessoais.
COTAÇÕES DOS "PRÊMIOS" DE ALGUMAS SELEÇÕES
| Seleção |
Compra |
Venda |
| Brasil |
R$28 |
R$31 |
| Argentina |
R$17 |
R$21 |
| Alemanha |
R$15 |
R$17 |
| Inglaterra |
R$9 |
R$12 |
| França |
R$1 |
R$4 |
O jargão da área é usado nas movimentações: uma aposta, por exemplo, é chamada de lote. As operações de Copa do Mundo funcionam como o mercado de opções: existe uma ponta compradora e uma ponta vendedora em cada operação. A ponta vendedora promete pagar R$100 (chamado de strike) ao comprador caso a seleção x, alvo da negociação, seja campeã do Mundial.
Para isso, o vendedor cobra um "prêmio", que varia de acordo com as probabilidades de cada seleção realmente ser campeã. Por exemplo, por ter grandes chances de ser campeão, o vendedor de Brasil cobrava um "prêmio" de R$35 antes da Copa. No caso de Togo, por exemplo, cobrava-se apenas R$1 de prêmio. Coréia do Sul não estava nem cotada pelos operadores, o que no jargão de mercado significa que não havia "liquidez para esse ativo".
Caso a seleção alvo ganhe, o vendedor transfere ao comprador a quantia de R$100, menos o prêmio cobrado. "No caso do Brasil, se eu paguei R$35 por essa opção, e o Brasil realmente se tornou campeão, o vendedor me deve R$100 (strike) e eu devo a ele R$35 (prêmio), portanto ele me pagará R$65. Caso o Brasil não vença, ele me deve nada e eu devo pagar a ele R$35 de prêmio", explica um operador que não quis se identificar.
Com a primeira fase da Copa perto fim, as cotações já sofreram mudanças. O Brasil estava cotado acima de R$35 antes, mas após as atuações nos dois primeiros jogos, caiu para R$28 (veja tabela). Alemanha estava em baixa e subiu essa semana, sendo cotada a R$15. Mesmo com a goleada sobre Sérvia e Montenegro por 6 a 0, a Argentina está cotada a R$17 e quase não oscilou.
Outra possibilidade de aposta é no número de tentos na competição. Os apostadores têm operado na faixa de 200 o número total de gols ao final da Copa. Já para artilheiros, Klose, Adriano, Fernando Torres e Crespo estão entre os mais bem cotados.
Toda a liquidação financeira é feita ao final da Copa. Apesar de informal, quem participa afirma que é um mercado de muita fidelidade. Tudo é acordado por telefone ou via e-mail, sem contrato, recibo, enfim, qualquer garantia formal. A maior garantia, que é muito usual no mercado financeiro, se resume a uma frase: "your word is your bond", ou seja: sua palavra é seu maior ativo.
Uma das motivações é fazer com o seu dinheiro o que se faz normalmente com o dinheiro dos outros. É uma extensão do nosso trabalho 
operador de mercado financeiro"Certamente, alguém que não honrar seus compromissos será mal-visto e ninguém mais fará operações com esta pessoa. Apesar de não parecer, o mercado financeiro é muito pequeno", explica um operador.
Além da possibilidade de lucrar, serve como estímulo a chance de poder treinar as habilidades comerciais de quem lida diariamente com números e negócios. "É uma extensão do nosso trabalho. Uma das motivações é fazer com o seu dinheiro o que fazemos normalmente com o dinheiro dos outros", explica um apostador.
Para ganhar dinheiro mesmo, é preciso se dedicar. "Com um lote (aposta) não dá para fazer dinheiro. Geralmente, o pessoal busca montar 'carteiras' de times que possam gerar algum ganho, ou seja, fazer várias apostas ao mesmo tempo. Tudo baseado em estatísticas coerentes, para não levar prejuízo", explica um operador.
Apesar da informalidade, os operadores levam as apostas a sério. "Não é um negócio para se brincar. Se entrar, tem que pensar em fazer negócios lucrativos e não em apostar apenas porque você acredita que aquele time pode vencer", diz um apostador.
As apostas no mercado financeiro não ficam só no futebol. Até o reality show Big Brother já foi motivo de apostas. "Eu mesmo apostava direto, sem ao menos assistir ao programa e conhecer os participantes. É um vício", confessou um operador entrevistado. Há quem comprou vários lotes de apostas e pode terminar a Copa no vermelho se seus palpites não vingarem.