Saindo do centro, os subúrbios cariocas se sucedem: São Cristóvão, Jacaré, Inhaúma, Del Castilho, Pilares, Encantado, Piedade, Quintino, Cascadura, Madureira e, finalmente, o bairro de Bento Ribeiro. Passa-se o Largo do Respeito, vira-se na praça do Espirro do Grilo e chega-se a rua General César Obino. Faz mais de quatro anos que Ronaldo não faz um itinerário como esse, e as paredes da casa em que cresceu denunciam isso.
No muro do número 114 da rua, lá está um grafite de Ronaldinho, mas o gaúcho e cabeludo. Foi feito para a última Copa, a de 2002, e sobreviveu quatro anos. Já o desenho do filho pródigo da casa foi escondido atrás de uma demão de tinta branca, como se os atuais moradores tentassem retribuir e quisessem apagá-lo de suas vidas.
Ronaldo pegou gosto pelo golfe...
...e por top models, como Raica Oliveira...
...e Daniella Cicarelli, ao lado da ex-sogra...
...já o ex-sogro, Nélio, posa com namorada
Chantilly, favela e literatura
Com o óculos de sol sempre sobre o cabelo, seu Nélio fica fulo quando lê biografias do filho que o retratam saindo de uma infância miserável: "Esses gringos escrevem que meu filho era favelado, não tinha dinheiro para a passagem para treinar no Flamengo. Ele não jogou na Gávea porque, depois de dois meses, ele não entrava nem nas pranchetas das peneiras. Mas os jornalistas só querem contar a história da gata borralheira." Como funcionário público, ele ganhava o suficiente para manter os filhos e a mulher ("Todos tinham plano médico e eu ganhava ticket-refeição também"). Ele não gosta também quando é retratado nos jornais locais. "Tem colunista que fica botando parente de jogador como se fosse burro. Falaram que eu fiquei com medo de um lustre iria cair em mim no castelo de Chantilly. Não vi lustre nenhum lá", fica indignado. "É uma visão elitista", completa. Seu Nélio se formou engenheiro cartográfico na UERJ, mas trabalhou só cinco meses na área. Quando algum jornalista tefona em seu celular, passa a ligação para o assessor de imprensa. Não gosta de falar sobre futebol, apesar dos confortos que ele lhe trouxe. "A última coisa que eu converso é sobre futebol. Gosto mesmo é de literatura. Me irrita quando alguém vem puxar assunto. Eu não sei nada sobre futebol. Só vemos os jogos do meu filho e do Flamengo." Ele diz que está lendo Josué Montello ("Os Tambores de São Luís") e Guimarães Rosa ("Noites do Sertão") e que seu livro preferido é "Cem Anos de Solidão", do colombiano Gabriel García Marquez. Fala que já indicou livros para seu filho, mas que ele não é muito de leitura. Conta-se que emprestou "Crime e Castigo", Fiodor Dostoievski, para Ronaldo, que desistiu na metade sem entender muita coisa.
"Ele não tem muito sentido de família. Se entendesse o significado da palavra, não ficaria casando e descasando. E não esqueceria dos parentes", se queixa o primo Fábio Barata. Ele recebe o
UOL Esporte reticente. Passa um carro de reportagem, e ele despista um fotógrafo que buscava familiares do atacante do Real Madrid e da seleção. "Só lembram da gente quando tem jogo da Copa. Aí a Globo acorda a gente de manhã, leva a gente para Barra, para eles filmarem a família torcendo pelo jogador. Só para engrossar o bolo. Mais parece torcida de participante de Big Brother", sentencia o primo segurança.
No terreno vivem quatro primos (além de Fábio, estão Suzy, Carlos Eduardo e Roger) e dois tios de Ronaldo (Carlinhos e Almir). Não há sinal de reforma na construção, só a demão de tinta sobre a imagem do moleque que virou uma galinha de ovos de ouro (só em 2005 ganhou R$ 45 milhões). Mas há sinal sim de uma mágoa com o embaixador da boa vontade da ONU. "Tem o tio Carlinhos, que está com um tumor no pescoço, e ele nem vem visitar", reclama.
O início do enredo é o habitual: no bairro pobre um enriquece. Os desfechos possíveis são três: o afortunado esquece seu passado ou ele carrega todos com ele ou leva parte da família e vizinhos em sua ascensão. Ronaldo escolheu o último, o meio-termo como solução. Mas quem ficou para trás guarda mágoa. Os coadjuvantes dessa história são retratados como agradecidos, amargurados ou aproveitadores, dependendo do ponto de vista.
A mãe, dona Sônia, ainda aparece pelo bairro, visita os parentes, leva mantimentos, convida o afilhado Luisinho para passear na Barra. Por seu lado, o pai do jogador, seu Nélio, prefere ficar em seu mundinho na Barra da Tijuca. "Ia para Bento Ribeiro só mesmo para votar. Mas agora troquei o domicílio eleitoral e não preciso ir mais para lá", afirma seu Nélio.
"Agora, ele está todo grã-fino. Não vem mais aqui. Ainda me lembro dele todo acanhado, sentadinho nesta calçada", conta Ivete Monteiro, avó de Neném, melhor amigo de infância do jogador. Hoje, o neto é motorista da família Nazário de Lima, buscando os sobrinhos de Ronaldo na escola e levando documentos da empresa R9, marca que já foi boate e agora é um escritório que cuida da imagem do jogador e de uma faculdade de fisioterapia (tema recorrente na contundida carreira do jogador).
Na porta da casa, um cartaz: "Vende-se picolé de amendoim e coco, 50 centavos". Neném trabalhava em uma copiadora antes de ser empregado do amigo. "A última vez que o Ronaldo veio aqui em Bento Ribeiro foi em 2002. Ele me ligou e passou à meia-noite pela minha casa. Ele estava com desejo de comer o cachorro-quente da estação de trem de Marechal Hermes."
Hoje em dia, o círculo das celebridades lhe cai bem. Antes disso veio a fase "Ronaldinhas", o casamento com a "rainha das embaixadinhas" Milene Domingues e o filho Ronald. Agora, só namora top model e é amigo de engomados e bronzeados playboys nacionais (Álvaro Garnero, Ricardo Mansur e Aécio Neves) e internacionais (Flávio Briatore).
Em fevereiro de 2005, o casamento a jato com a modelo Daniella Cicarelli (com saldo de 86 dias, uma gravidez polêmica e milhares de páginas de fofoca) entrou para o folclore da história do país, com direito ao castelo francês de Chantilly, música do DJ Fatboy Slim, vestido da grife Valentino e a noiva expulsando da festa uma de suas concorrentes, outra namoradora de ricaços.
A atual companheira é outra modelo, Raica Oliveira. Antes de se apresentar para a Copa, passou alguns dias com ela em paraíso turístico nos Emirados Árabes. Jardins, Angra dos Reis e Costa Brava são seus destinos. Bem diferente de quando ele tinha divertimentos mais simples e próximos, como ir ao bar do Silvino, do Missinho ou na feijoada do Beto.
Os pais de Ronaldo se conheceram na extinta estatal Telerj. Ela, telefonista. Ele, técnico. Para criar os três filhos (Ione, Nelinho e o caçula Ronaldo), ela deixou o emprego, depois trabalhou em uma sorveteria. Para complementar a renda, o casal Sônia e Nélio vendiam cosméticos reunindo as vizinhas nas casas do bairro.
"A gente aplica máscara na metade do rosto de uma das mulheres. Um lado ficava bonito. O outro continuava feio. Aí a mulherada comprava o produto", lembra entre um cigarro e outro, olhando pela janela do escritório. O que vê parece uma cidade cenográfica. Não é o vizinho Projac. É a Barra da Tijuca em seus caixotes luxuosos na av. das Américas: o hospital Barra DŽOr, o New York City Center (e sua réplica da Estátua da Liberdade), uma concessionária de carros blindados e os condomínios -sempre com nomes estrangeiros, bem ao gosto novo-rico, como Golden Green (o de Ronaldo) ou Riviera Dei Fiori (o de seu Nélio).
Seu Nélio e dona Sônia não vivem juntos desde que Ronaldo ainda era menino, mas seguem casados no papel, mesmo cada um desfilando com namorados. Ela deve ter cansado de tanto que ele aprontava. "Uma vez, quando Ronaldo tinha três anos e Nelinho quatro, eu levei os dois para assistirem o pai em uma pelada em Bangu. O jogo terminou, emendei um papo, um churrasco, uma cerveja. Só sei que cheguei de manhã em casa. Minha mulher ficou maluca, e eu tentei explicar que os meninos ficaram tomando guaraná e salgadinho e depois dormiram no carro. Mas não teve jeito", confessa seu Nélio.
Seu Nélio tentou a vida de jogador até os 18 anos, jogou de atacante e meia nos juvenis da Portuguesa carioca e no Madureira. Largou para trabalhar na Telerj. Realizou com o filho o sonho de ser craque, tanto é que foi ele quem tentou colocá-lo no Flamengo e depois o levou para o São Cristóvão.
"Tenho poucos amigos na Barra. Fico só com minha namorada, tomo meu chopp. Aqui, você é o que você tem", teoriza o pai do jogador. Dona Sônia experimentou o choque quando foi chamada de "suburbana e favelada" por um vizinha irritada com o barulho de uma festa no prédio do condomínio. "Somos suburbanos, mas temos caráter", se defendeu Dona Sônia, com taça de champanhe na mão, em uma revista de celebridades.