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Técnicos Brasileiros na Copa

Brasileiro planeja "visita incômoda" à Alemanha

Rodrigo Bertolotto

Em São Paulo

A seleção da Costa Rica é o típico time pequeno de Copa, mas daqueles que complicam a vida dos grandes. E Alexandre Guimarães, técnico brasileiro da seleção centro-americana, sabe que terá o palco ideal para uma travessura: o jogo de abertura do Mundial, contra a anfitriã Alemanha. "Temos tudo a ganhar e nada a perder", sentencia o brasileiro em entrevista ao UOL Esporte.

Junto com Trinidad e Tobago e Togo, a Costa Rica está entre os países de menor território e população que estão representados no maior evento do futebol mundial (tem 4 milhões de habitantes e um território do tamanho do Rio Grande do Norte). De tanto cultuar os diminutivos, os costarriquenhos ganharam o apelido de ticos. Como o Brasil é o país de Ronaldinho, Juninho e Cicinho, todas as palavras na Costa Rica ganham um "tico" no final. Um exemplo: pelota (bola) vira pelotica.

Mas "la seletica" foi atrevida em suas duas participações em Copas do Mundo até agora. Em 1990, quando Guima era o meio-campista que sempre entrava no segundo tempo, a Costa Rica derrotou Suécia e Escócia e só caiu nas oitavas-de-final, diante dos tchecos. Da segunda vez, em 2002, com o brasileiro já no comando, o time bateu a China e empatou com a Turquia, que acabou classificada pelo saldo de gols e depois chegou até as semifinais. Das duas vezes, a Costa Rica enfrentou e perdeu para o Brasil (placares de 1 a 0 e 5 a 2, respectivamente). "Nossa mentalidade é sempre agressiva, um futebol de ataque, mas vamos tentar ser mais equilibrados dessa vez", afirma "el Guima". Leia abaixo alguns trechos da entrevista.

Guima foi "exportado" aos 11 anos para a Costa Rica quando ainda estava no dente-de-leite em sua Maceió natal. Não que fosse um prodígio. Menor de quatro irmãos, acompanhou o pai médico que foi designado pela Organização Panamericana de Saúde para trabalhar no combate à malária no país centro-americano em 1971. Mas chegando lá se decidou primeiro ao basquete, jogando em duas equipes da primeira divisão local, aproveitando sua altura de 1,82 m. A mesma vantagem física, porém, também facilitou sua vida de atacante cabeceador. Ele estudou Educação Física na Universidade de Costa Rica, enquanto se destacava no futebol local. Profissionalizou-se em 1979, nacionalizou-se em 1984, virou ídolo do popular time do Saprissa, foi chamado para a seleção e jogou na Copa de 1990. Aposentado dos gramados em 1992, Guima começou a carreira como auxiliar técnico e chegou a seleção local pela mão do conterrâneo Gilson Nunes. No meio do trabalho, teve atrito com o patrício e passou a assistir as partidas da tribuna. Após um tropeço diante da Guatemala nas eliminatórias para a Copa de 2002, porém, Nunes foi ejetado. Guima foi efetivado e levou o país para o Mundial. Depois da campanha na Coréia do Sul e a eliminação na primeira fase, ele escreveu um livro de memórias, "A Celebrar, Carajo" (título que é melhor não traduzir). Foi a segunda investida editorial, afinal, sua participação em 1990 valeu outra publicação, "La Aventura Tricolor".

- Como vai ser estrear contra Alemanha no jogo de abertura da Copa? Ajuda ou atrapalha um jogo com tanta audiência, contra os anfitriões, com o técnico rival, Jurgen Klinsmann, muito criticado?

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Acho que a Costa Rica tem tudo a ganhar e nada a perder. Estou tranqüilo porque nosso grupo une experiência e juventude e vai saber canalizar as energias em volta desse jogo. Somos pequenos, mas no futebol tudo é possível. Já o Klinsmann está agindo conscientemente ao concentrar as críticas nele para desafogar os jogadores. Mas não vou comentar o trabalho dele, prefiro me concentrar no meu.

- Como você analisa seus rivais de primeira fase?

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A Polônia tem uma seleção como a da Alemanha: previsível, mas muito determinada e organizada. Já o Equador é da mesma escola latino-americana que nós, apostando na improvisação. Essa é a partida que temos de vencer, para depois jogar nossa classificação contra os poloneses e tentar a vaga nas oitavas-de-final.

- O que esperar de seu time na Copa do Mundo?

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Um jogo de rigor tático e soltura técnica. Em 1990, tivemos uma preocupação tática e, graças a isso, chegamos às oitavas-de-final. Em 2002, jogamos mais para a frente, para dar espetáculo e não conseguimos passar de fase. Agota, é preciso haver uma mistura, praticar um futebol convincente e com marcação.

- Ao contrário do que acontece com a seleção brasileira, a maioria de seus jogadores estão no campeonato nacional. Mesmo assim você teme uma queda-de-braço com os clubes costarriquenhos para ter os jogadores. Essa situação não é necessariamente uma vantagem?

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Procuro não me envolver na briga entre federação e clubes e tento ser diplomático. Mesmo com essa situação, teremos a vantagem de treinar duas semanas a mais que as seleções com jogadores na Europa. O torneio daqui acaba no dia 30 de abril, dei uma semana de férias e já em 9 de maio terei todos os convocados. Teremos um mês até a estréia. As outras seleções só poderão se reunir lá para o dia 20. Temos tempo de fazer nossa preparação em cada detalhe e decorar nossas táticas.

- Fala-se que o problema do futebol da Costa Rica é o isolamento, cercada por países que veneram o beisebol e disputando torneios da Concacaf. Você não acha que a Costa Rica deveria copiar o México e disputar torneios sul-americanos de seleções e clubes para ganhar mais tarimba internacional?

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Nossos problemas são mais econômicos que geográficos. O país é pequeno, com uma população pequena e poucos recursos. Por tudo isso, é um feito chegar a uma Copa. O beisebol é realmente forte na região, os migrantes nicaragüenses na Costa Rica são meio milhão e até formaram um liga amadora. Mas o Panamá, que tem o beisebol como primeiro esporte, formou um time de futebol forte com Dely Valdés, um jogador em nível europeu. Está ficando cada vez mais competitivo por aqui. Sobre a Concacaf, acho que o nível é bom e os times daqui têm se destacado, como o Saprissa, que disputou o Mundial da Fifa de clubes.

Esta entrevista bem que merecia uma multa, afinal, Guimarães atendeu a reportagem em seu telefone celular enquanto dirigia o carro em direção ao clube Saprissa, o mais popular do país e onde foi ídolo no final dos anos 80. Sua chegada ao portão do clube marca o fim da conversa. Ele vai encontrar o filho que tenta a sorte como jogador profissional. Celso Borges (adotou o outro sobrenome da família) tem 17 anos, jogou pela seleção local o Mundial juvenil de 2005 e estreou em janeiro no Saprissa, que é dirigido por Hernán Medford. Nascido na Costa Rica, o filho é comandado pela antigo companheiro de ataque de Guima, tanto no clube quanto na seleção. Como antes lhe entregava os passes, agora ele entrega o filho para o amigo. Mas será possível ver Celso Borges na Alemanha? "Estou muito esperançoso com sua carreira, mas na Copa nem pensar", decreta.

Publicado originalmente em 28 de abril de 2006

SELEÇÕES

A auto-definição

"Minha liderança sempre foi natural. Não sou de fazer tipo. Falo abertamente e sem demagogia."

Defendendo sua postura diante dos jogadores costarriquenhos e sua condição de "meio gringo" e "meio local".

Estilo como técnico: pragmático e conciliador; sabe unir o grupo e contentar todos os lados (veteranos, novatos e dirigentes); não entra em polêmica; tem empatia com a torcida, ao contrário de seus antecessores no cargo durante as últimas eliminatórias, o norte-americano Steve Sampson e o colombiano Jorge Luis Pinto
Equipes que dirigiu: Belén, Herediano e Saprissa (Costa Rica), Comunicaciones (Guatemala), Irapuato, Dorados (México) e seleção da Costa Rica
Principais títulos como treinador: Campeonato Costarriquenho 1997/98 e 1999/2000
Estilo como jogador: começou como atacante, bom cabeceador e nas assistências, mas no final da carreira virou meio-campista, distribuidor de bolas
Clubes em que atuou: Durpanel San Blas, Puntarenas, Saprissa, Turrialba e seleção da Costa Rica
Principais título como jogador: Campeonato Costarriquenho (1982/88/89)
Formação: formou-se em Educação Física na Universidade de Costa Rica

A justificativa

"Prefiro levar cinco gols e fazer dois que ficar na retranca e não conquistar nem um escanteio."

Declaração após a goleada sofrida diante do Brasil na primeira fase da Copa de 2002