"Ô, rapaz, estou no estádio aqui assistindo a um jogo. Mas vamos conversando." Assim Marcos Paquetá começa a conversa por celular com o
UOL Esporte. É noite atípica, com o brasileiro fora de sua casa, cravada dentro de um dos bairros exclusivos para ocidentais em Riad, a capital saudita. São os chamados "compounds", condomínios para estrangeiros -alguns deles já viraram alvo fácil de atentados da Al Qaeda, grupo liderado pelo saudita Osama Bin Laden.
O carioca Paquetá afirma que está tirando de letra as restrições islâmicas, que os ocidentais burlam com bebidas contrabandeadas, piscinas muradas e muita tecnologia em casa para compensar a falta de entretenimento do lado de fora do muro, um dos países islâmicos mais restritos. Mas o treinador aproveita esse universo local em seu trabalho por lá e usa até o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, para motivar seus atletas, em vez de importar auto-ajuda norte-americana ou o batido "Arte da Guerra", do chinês Sun Tzu. "Tiramos vários ditados de Alcorão. Eles gostam também de um trecho que diz 'Alá tudo pode, tudo faz'. São coisas que tocam fundo para eles", afirma Paquetá, que ainda exibe vídeos dos sucessos sauditas no exterior, buscando a superação dos atletas.
As principais imagens são da Copa de 1994, quando bateram a Bélgica, com um golaço de Owairan (apelidado "o Pelé do Deserto"), e caíram nas oitavas-de-final diante da Suécia. Nas duas últimas Copas, os sauditas saíram na primeira fase, sendo que em 2002 ficaram com o último lugar e amargaram a goleada por 8 a 0 diante da vice-campeã Alemanha. Uma resposta óbvia de Paquetá é que sua função é "apagar a má imagem do último mundial" e "temos chance de repetir a campanha de 1994". Leia abaixo os principais trechos.
Em suas respostas, Marcos Paquetá repete sempre a palavra "planejamento". Mas, com os príncipes sauditas, os planos podem mudar a qualquer momento. Bem sabe disso Carlos Alberto Parreira, demitido após duas derrotas na Copa de 1998. O príncipe o dispensou antes do terceiro jogo chamando-o de "retranqueiro", a TV local o tratou de "covarde" e "traidor", e Parreira se declarou o "bode expiatório" da eliminação. Marcos Paquetá está desde agosto de 2004 na Arábia Saudita, portanto, já passou mais de 600 noites no deserto, primeiro no time Al-Hilal e agora na seleção. Mas, apesar do contrato até final de 2007, o futuro do brasileiro é incerto. Seu antecessor no posto, o argentino Gabriel Calderón, foi ejetado no final de 2005 mesmo liderando a classificação para a Alemanha. "Quando me convidaram, não deu tempo de consultar o Parreira. Foi tudo muito rápido", afirma Paquetá. "Mas demissões são situações que os técnicos estão acostumados e não têm como fugir, na Arábia ou no Brasil", completa. Em março, com as derrotas para Portugal e Polônia nos amistosos preparatórios, foi o pescoço de Paquetá que pareceu estar ameaçado (antes havia conseguido três empates com Grécia, Suécia e Finlândia). Falou-se que em seu lugar entraria o sérvio Bora Milutinovic, veterano de cinco Copas por cinco seleções diferentes (China em 2002, Nigéria em 1998, EUA em 1994, Costa Rica em 1990 e México em 1986). "Isso é uma grande bobagem", saiu a desmentir Sahad Al Museibih, supervisor da seleção saudita.
- Quais são as diferenças na preparação de uma equipe no Brasil e na Arábia? Como é treinar no deserto e com jogadores semi-profissionais?
- Metade do ano não podemos treinar de dia. Só no amanhecer e no entardecer. É para evitar os horários de pico de calor e também as orações, que mudam muito de horário. Tem uma reza entre 5h e 5h30 da manhã. Treinamos logo depois. À tarde, podem ter até três orações. Então, é melhor treinar à noite. Além disso, alguns jogadores fazem dupla jornada, porque o futebol não é profissional aqui. Tem jogador que é policial, outro é bombeiro e até oficial do Exército. E os cargos não são só de fachada. Tem dia que realmente não dá para forçar o treino. - Como é levar a vida em um país em que o consumo de álcool e a mulher descoberta são punidos com chicotadas? Não é duro ter de comemorar um título sem uma cervejinha?
- Olha, aprendi a respeitar a cultura deles. Eu não senti a proibição da bebida porque não sou de beber. Não tenho esse vício. Apesar de não gostar, minha mulher anda pelas ruas de chador, mas sem o lenço como as muçulmanas. Contudo, dentro dos "compounds" (os condomínios fechados para estrangeiros) o estilo de vida é ocidental, com piscinas, bebidas e até uma boate. Tem muitos italianos e franceses, empregados de uma empresa de telefonia. Mas a vida é realmente pacata. Se você gosta de noitadas, teatro, cinema e shows, melhor não vir para cá. - E como é o relacionamento com os dirigentes, afinal, eles são membros da realeza? Tem alguma preocupação com a etiqueta especial?
- Até agora tem sido uma experiência boa. Eles têm me dado apoio, me atendido bem. São pessoas muito educadas, estudaram no exterior. Mas, claro, tem a vaidade típica dos nobres. Quando me convidaram para a seleção, o príncipe que é o dono do Al-Hilal não queria me liberar. Mas, entre nobres, eles se resolveram. - Não pensou em nacionalizar algum jogador brasileiro, o que muita seleção vai fazer nessa Copa?
- Teve até um apelo dos torcedores, que queriam naturalizar Marcelo Tavares, um zagueiro que eu trouxe do Avaí para o Al-Hilal. Ele foi bem no time e fez muitos gols de cabeça. Mas o processo é um muito difícil e demorado, passa por ele se converter ao islamismo e ser aceito pelos religiosos. - Você é um especialista na formação de jogadores. Como foi passar para o futebol adulto e ter de disputar uma Copa do Mundo por um país estrangeiro?
- Já tinha trabalhado no Avaí-SC e continuei no Al-Hilal. Com cinco dos seis títulos na temporada daqui, os dirigentes da federação me chamaram exatamente para renovar a seleção e formar novos talentos daqui. Mas falta também intercâmbio. Nenhum atleta daqui joga em clube fora do país. Falta calejar para os torneios internacionais. O jogo no estádio Rei Fahd termina, e Paquetá encerra a entrevista telefônica. "Estou cercado por repórteres árabes, preciso dar entrevista aqui", diz. O brasileiro está em um dos estádios mais luxuosos do mundo, com pisos de mármore, corredores de tapetes persas e lustres cravejados de diamantes na tribuna real. Por fora, ele parece uma enorme tenda nômade erguida no deserto. A saída reserva uma avenida com palmeiras perfiladas a sua beira. Paquetá volta a seu oásis ocidental que é sua casa.