Por que aqui em São Paulo o regionalismo é pedir Rogério Ceni, Nilmar...
Nunca foi diferente. Lembro de um jogo em 1982, quando eu era técnico da seleção do Kuait, e íamos jogar na Copa contra a Tchecoslováquia, que veio fazer um amistoso contra o Brasil. Aproveitei e vim assistir esse jogo aqui no Morumbi. Nossa...a hora que o Roberto Dinamite entrou em campo começou a gritaria: "carioca filho da p.". Fiquei impressionado. Parecia um inimigo. Então, o regionalismo não pode influenciar na convocação. E não vai mesmo. Não tem que agradar ninguém. John Kennedy tinha uma frase. Perguntaram para ele qual era a fórmula do sucesso. Ele disse: "Não conheço nenhuma. Mas conheço, com certeza, a do fracasso. É querer agradar a todos."
Nesses últimos quatro anos não houve nenhuma grande polêmica por nome...
Nós fomos coerentes. Houve seqüência. Você não vai para a Copa com três equipes. Você tem que fazer um time. E é difícil fazer um time. Às vezes um treinador passa dois anos num clube, um ano, e não consegue montar um time, jogando domingo e quarta. A seleção jogou a última partida oficial em outubro. Vai chegar na Copa sete meses sem se reunir, sem jogar. Só com o jogo de Moscou. Acha que o treinador tem que ter mãos mágicas. Chegou lá, num toque de mágica, faz o time jogar um futebol de sonho.
Mas comparando com 1994 é muito menos pressão...
Por causa dos resultados. Mais nada. Só porque está ganhando. Me perguntaram uma vez sobre a minha aceitação popular numa pesquisa, que era de 80%, 70%, sei lá. Eu disse "a razão são os resultados". O torcedor raciocina muito em cima do resultado.
Você consegue imaginar um Brasil eliminado na primeira fase?
Não consigo imaginar um Brasil que não seja campeão do mundo.
Nem num pesadelo, num sonho com a Copa?
Pô, sonho, penso, daqui para a frente não tem como você não viver a Copa do Mundo. Seria anormal se eu não vivesse a Copa do Mundo, com todos os desdobramentos. Pressão, ansiedade.
Falando em ansiedade, essa história do superfavoritismo, como você e o grupo estão lidando com isso?
É uma coisa a ser conversada, trabalhada, mas não acho que a gente vai perder ou ganhar a Copa por causa disso. Os jogadores também, tenho visto entrevistas deles aí, estão todos muito conscientes.
Mas de onde vem esse temor?
Vem lá de fora. O Zagallo até falou ontem, não somos nós, isso vem lá de fora, são eles que vêm apontando a gente como favoritos, a gente que não pode entrar nessa. Favorito é a Alemanha que vai jogar em casa, são os europeus que vão jogar em casa. É Brasil contra o mundo. Ninguém vai querer que o Brasil, a não ser o pessoal aqui na América do Sul...alguns (risos) vão torcer para a gente. Os africanos e os asiáticos gostam do Brasil, mas todo mundo que tem peso no futebol será contra nós. Não interessa para eles o Brasil hexacampeão. Então, temos que estar preparados para isso, a Copa do Mundo vai ser uma guerra mesmo.
Mas você não acredita nessas teorias conspiratórias?
Não, não, não. Ganhar e perder é dentro do campo. Porque hoje o mundo está muito globalizado, a televisão não tem mais esse negócio, o juiz está muito exposto, muito monitorado, serão 25 câmeras em cima de cada gesto, cada ação.
Mas o torcedor brasileiro também não teme essa marca de superfavorito?
Pelo contrário. Cada vez mais eu me convenço sobre a caixa de ressonância. Não falam em outra coisa que o título, vamos ganhar. Hoje mesmo, no avião, umas cinco pessoas vieram dizer "boa sorte". Em 1994, era mais cobrança, só as pessoas mais chegadas se preocupavam em dizer boa sorte.
Você diz que os jogadores sabem muito bem dessa pressão e vão saber lidar. O seu trabalho vai ser muito mais tirar pressão deles?
Mostrar que não tem favoritismo dentro do campo. Isso é fora do campo. Se você bobear, nosso grupo é complicado. O Japão vai fazer uma boa Copa do Mundo, está se preparando muito bem, está disputando a Copa da Ásia, está jogando, vão jogar dia 31 contra a Alemanha, vão dar trabalho, é experiente, o Zico está fazendo um trabalho muito bom. A Austrália não tem nenhum inocente, todos jogam na Europa. A Croácia fez uma eliminatória muito boa, não perdeu nenhum jogo, ganhou da Argentina.
O esquema, sem dúvida, obteve resultado, mas os quatro titulares jogaram juntos uma única vez, contra a Venezuela.
Mas não vejo problema nenhum. Não vejo problema nenhum.
Os jogadores da seleção estão indo cada vez mais jovens para fora do país. Ronaldo e Adriano são exemplos de jogadores quase sem carreira no Brasil. Isso não reduz a identidade com o país?
Eles se identificam muito, muito. Eles acompanham tudo. Todos eles assinam canais brasileiros e assistem aos jogos ao vivo, vêem o Jornal Nacional, não perdem as raízes. Qual foi o jogador brasileiro que ficou jogando na Europa 10 anos e ficou morando lá? O Leonardo está de dirigente do Milan, mas está trabalhando. Lá é para ganhar dinheiro, é a realização profissional. O Aldair era o rei de Roma, mas agora vive em Vitória. O Mauro Silva, passou 10 anos no La Coruña. Acabou, no dia seguinte veio embora, está aqui em São Paulo. Esses laços são muito fortes.
Houve algum momento em que você comprou alguma briga?
Não é comprar briga, nós mantivemos as nossas convicções. O Emérson, o Zé Roberto. Não é para enfrentar a imprensa. A imprensa achava que o Zé Roberto não era um jogador útil. Mas ele provou o contrário. As partidas que o Zé Roberto fez contra a Alemanha e contra o Japão, meu Deus do céu, foram de encher os olhos.
Você já frisou que a formação ofensiva entra em campo contra a Croácia e, mantendo os resultados, não há porque mudar. Só muda se o quadrado no ataque não corresponder. Vai ser uma seleção mutante?
Pode ser 4-4-2, 4-3-1-2 ou o 4-5-1: se não der certo, tem que mudar mesmo. Mas eu não posso falar sobre hipótese. Vamos começar dessa maneira. O que vai acontecer durante a competição não posso prever aqui. O que eu te digo é que não gosto de três zagueiros. E não tem mais ninguém jogando com três zagueiros no mundo. Eu nunca joguei. Prefiro a linha de quatro. Não é porque não estão jogando. Não vejo porque o Brasil botar três zagueiros. Ganhou a Copa de 2002 com três zagueiros. Mérito do Felipão. Pode-se ganhar com três zagueiros. Mas eu não.
Mas não é porque os jogadores nos seus clubes estão desacostumados a marcar? O Ronaldinho é um cara que dá uma caminhadinha ali no Barcelona, todos os outros saem marcando, o Ronaldo Nazário também...
O Ronaldo nunca marcou na vida dele. Não vai ser agora, com 29 anos, que ele vai marcar. Na Copa de 1994, o Romário e o Bebeto não marcavam. O máximo que eu pedia é que eles voltassem para ocupar espaços, não deixassem que zagueiros tocasses bola um para o outro.
Você comentou que a República Tcheca é uma seleção que você não gostaria de enfrentar, que era um time bem armado...
A gente sendo primeiro, o cruzamento vai ser contra Itália ou contra República Tcheca a não ser que os Estados Unidos aprontem alguma surpresa. Mas a gente não tem medo não. É um time muito bom. É rápido, veloz, vi na Copa Européia eles poderiam ter sido campeões, mano. Dominaram a Grécia, que fez gol de corner na semifinal. No ranking da Fifa, é a segunda seleção.
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E o problema do time com muitos atacantes e pouca defesa?
É um time sem equilíbrio. Contrataram alguns jogadores de nível baixíssimo, como Gravensen. Assim não dá. O Zidane mesmo disse, há um tempo, que tudo ruiu após a saída do Makelele. Foi quando o time começou a perder o equilíbrio.
Mas o interesse voraz dos ingleses em contratar o Luiz Felipe Scolari mostra que caiu de vez o preconceito europeu em relação aos técnicos brasileiros?
Acho que muito mais que o sucesso com a seleção brasileira, o que fez com que os ingleses convidassem o Felipão, essa é a minha opinião, foi o trabalho que ele fez com a seleção portuguesa. Com certeza, isso o credenciou muito mais que o título de pentacampeão. Eles acham que ser campeão do mundo com o Brasil é fácil. Qualquer um faz. Mas não digo se há preconceito ou não. Apenas que o Felipão mostrou a qualidade dele.
Você avalia que o sucesso do trabalho se deve mais pelo Felipão unir veteranos, como o Figo, incluir o brasileiro Deco e com o restante do grupo, ou por méritos técnicos e táticos?
As duas coisas. Se não arrumar o time, se não der uma tática convincente, só com tato não resolve. Então o trabalho dele como treinador foi bom.
Hoje os treinadores estão mais em evidência no Brasil que os próprios jogadores. Consequência da falta de ídolos pelo êxodo?
Claro. Isso não tem que ser assim. Ídolo tem que ser o jogador. O técnico é importante, ele é o comandante, é o líder, é o que decide, sem dúvida ele é importante. Quem comanda é importante. Mas o ídolo tem que ser o jogador. Eu não faço nada para aparecer. O meu cargo faz com que eu apareça. Eu sei disso, então eu não faço nada para aumentar essa exposição na mídia. Eu não tomo nenhuma iniciativa. Porque tem gente que sabe se promover. Mas no meu cargo a visibilidade é tão grande que eu não tenho que fazer nada.
E você acha que realmente não tem mais o que inventar taticamente, que hoje os técnicos só se diferenciam como motivadores?
Não, é pelo trabalho. Motivação é um componente importantíssimo. Quando você analisa um trabalho, você tem a parte física, técnica, tática e emocional. Esse é um dos componentes. Então começa só a motivar, esquece do físico, do técnico e do tático e veja aonde você vai parar. Esse é um dos componentes importantíssimos, mas não é tudo.
Mas realmente não há mais inovação tática? Em 1994 todo mundo falava em "ataque invisível", 4-6-0, e agora parece que segue tudo na mesma...
Mas não é. Futebol, taticamente, está muito nivelado e globalizado. A diferença vai continuar sendo feita pelo jogador. As equipes ganham campeonatos, jogadores decidem os jogos. Isso vai continuar acontecendo, mano. Quando você tem um time solidáro, bem armado, ocupando bem os espaços, a gente cria isso, aí cada um impõe a sua filosofia. A nossa é de toque de bola, de movimento com a bola, de dribles, de tabelas, de criação de jogadas. Os europeus são mais objetivos, passes mais rápidos, mais longos, mais verticalizados. O futebol nada mais é do que isso. Uma equipe tentando impor a outra o seu estilo.
Você não acredita na solução jogo a jogo, com variações mínimas dependendo do rival?
Não. O que eu acredito é que você vai para campo impor o seu ritmo, o seu jogo, a sua maneira de jogar. Você não tem que ficar mudando de jogo para jogo. Tem que consolidar sua maneira de jogar.
Mas também não há mais muitos técnicos que armem equipes com "marca registrada", que sejam capazes de explorar ao máximo o potencial dos jogadores?
O mundo está muito globalizado. Não é só no futebol. Todo mundo treina da mesma maneira. O que faz a diferença no final? É o homem. No futebol, o jogador. É o passe do Ronaldinho que deixa o Giuly na cara do gol na semifinal da Liga dos Campeões. Quem ganhou o jogo? Foi o Ronaldinho? Não. A equipe ganhou o jogo. Ele deu o passe, mas quem ganha o campeonato é a equipe, a solidez da equipe do Barcelona. Então o futebol chega num ponto que não tem mais novidade tática, não tem mais o que inventar. O que mais se procura hoje são mais jogadores versáteis. A grande diferença é essa. A ocupação de espaço e a velocidade do jogo, não é o 4-4-2, 4-5-1, 3-4-3. Isso não vai fazer diferença nenhuma. Eu não me importo com esses números. Quero que meu time ocupe espaço, saia rápido, saiba jogar, tenha determinação, esteja entrosado.
O Brasil quer o hexa, quer a Copa de 2014, o Ricardo Teixeira quer presidir da Fifa. Não é Brasil demais no futebol mundial?
O Brasil sediar a Copa é uma pretensão natural, normal. Depois de 1950, são 56 anos, depois de meio século, o país pentacampeão do mundo, que melhor representa o futebol, acho que é um direito, mais que garantido, assegurado. Sobre o Ricardo Teixeira, eu nunca ouvi ele falar (sobre ser presidente da Fifa). As pessoas falam, comentam. Mas é uma escalada natural. Mas quem vai assumir a CBF com a experiência que ele tem, com a rede de contatos que ele tem, que pega um telefone aqui e fala com qualquer um e resolve? Isso aí foi construído ao longo de 16 anos. Hoje ele mesmo fala, "em 1990 (ano do Mundial da Itália, o primeiro do atual presidente) eu era cabaço", já que tinha assumido em 1989 e cometido um monte de erros. Mas não sabia o que fazer porque estava começando. Por mais que o Havelange estivesse no lado dele, ela era que estava no comando, segurando o timão do barco. Hoje não, é diferente, tem muita experiência, muitos contatos, está presente em comitês da Fifa. Então o cara que for assumir, até fazer esse networking...
Mas então como formar lideranças novas?
Eu acho que deveria ter, para não ficar essa lacuna. Mas não sei como, mas também não é culpa dele.
Você, por exemplo, já declarou sua preferência pela beira do gramado mesmo...
Tem que ter certas aptidões, paciência, jantar, reuniões sociais, política, fazer aquele dia a dia, não é a minha área, eu não teria...
Mas, fora de campo, o Brasil também segue "fominha". Queria eleger o Papa, pedia cadeira no Conselho de Segurança na ONU, colocou um homem em órbita...
Mas só é grande quem pensa grande na vida. Já viu alguém pensar pequenininho e ser grande? Nunca vi. Entao é natural que o Brasil tenha isso tudo, porque trabalha para isso. Não é fácil conviver com o sucesso. Respeito muito que nosso jogadores vão para uma Copa do Mundo e, na ora da pressão, respondem positivamente. Estão acostumados a ganhar. É importante isso. A CBF pensa grande. O futebol brasileiro é grande.
E depois da Copa? Está planejando continuar na CBF?
Não estou planejando nada. Meu foco é até a Copa. Eu não quero falar do meu futuro. Eu quero é continuar com o futebol. Mas vou resolver o que vou fazer ainda.
Mas você não quer voltar para a via-crúcis de clubes, o mesmo que aconteceu depois da Copa de 1994, com suas passagens pela Espanha, Turquia e EUA. Você queria se estabelecer numa papel diretivo...
Não cheguei a pensar nisso não. Em 1994 eu queria ficar como treinador mesmo. Agora, não sei.
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