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Técnicos Brasileiros na Copa

Scolari troca país, mas não troca temperamento

Rodrigo Bertolotto

Em São Paulo

Ele já trocou vestiário por balneário, gramado por relvado e torcedor por adepto. "Minha pátria nesse momento é Portugal. Sou mais português que brasileiro." É dessa maneira que Luiz Felipe Scolari veste a camisa (ou camisola, na versão lusa).

Mas o técnico levou para o Velho Continente sua imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, a quem agradeceu após a campanha do pentacampeonato de 2002 cumprindo promessa e visitando seu santuário em Farroupilha (RS). Juntou a estátua a uma da santa local, Nossa Senhora de Fátima. Levou para lá também seu temperamento forte, seu jeito ao mesmo tempo disciplinador e aglutinador e seu gosto por usar agasalho, contrariando a onda européia de técnicos vestidos de terno e gravata à beira do gramado.

Já bateu de frente com a imprensa lisboeta, com bate-boca com os repórteres mais críticos (nada que chegasse ao sopapo que deu em um jornalista em sua época de Palmeiras). Já contrariou interesses de colegas técnicos de clubes portugueses (mas nada perto do safanão que deu em Vanderlei Luxemburgo em sua época de Grêmio).

Pelo dicionário Houaiss, é o "indivíduo que, nas residências, se ocupa do serviço de copa, serve à mesa e atende a porta." Ainda não se registra sua acepção para o futebol: "time, técnico ou jogador especialista em torneios no formato copa". Mas a melhor definição mesmo do termo "copeiro" é Felipão. Ele apareceu para o futebol levando o Criciúma em 1991 ao título da Copa do Brasil, troféu que ganhou também em 1994 (pelo Grêmio) e 1998 (no Palmeiras). Esses triunfos o levaram a outro mata-mata um nível acima: o da Libertadores da América, que venceu em 1995 e 1999. Até em sua passagem pelo Oriente Médio, as taças que ergueu foram de copas. Ganhou também a finada Copa Mercosul em 1998 em seu período palmeirense. O Campeonato Brasileiro que venceu em 1996 foi graças aos playoffs, afinal, o Grêmio tinha ficado em sétimo por pontos corridos. Mas a maior prova de seu estilo copeiro foi o pentacampeonato mundial na Copa de 2002, assumindo a seleção no final das eliminatórias, conquistando a classificação à Copa, surrupiando a tática da Argentina (o tal "3-5-2") e levando a taça. Já por Portugal, conseguiu levar a "equipa nacional" à final da Eurocopa-2004, mas sua magia "copeira" não foi suficiente para bater os azarões gregos.

Mas, à sua maneira, conseguiu criar um espírito de grupo na seleção portuguesa. Aclimatou o luso-brasileiro Deco na equipe, convenceu Figo a voltar de sua aposentadoria nacional, incorporou a jovem estrela Cristiano Ronaldo, criando um clima bom entre os vários grupos que esses jogadores representam.

Scolari falou com o UOL em curta passagem por São Paulo em que o técnico ministrou palestra motivacional para executivos e depois concedeu entrevista coletiva.

- Qual é a diferença de comandar atletas brasileiros e portugueses? Você, inclusive, levou a psicóloga Regina Brandão que trabalhou com você no Palmeiras e na CBF.

- O trabalho psicológico é diferente. O brasileiro já vai a uma Copa quase na obrigação de ser finalista. Para os portugueses, a cobrança é menor. Estar entre os oito melhores é um feito para Portugal. Mas quem chega às quartas-de-final não quer perder. E o grande feito mesmo é ser campeão. Eu pessoalmente gosto de chegar desacreditado. É mais fácil de trabalhar o lado psicológico dos atletas, é mais fácil dirigi-los. Mesmo com a semifinal de 1966, temos que lembrar que esta é a quarta participação de Portugal em Copa, e em duas foi eliminado já na primeira fase. A historia tem de ser recordada até quando não se quer.

- Há no Brasil agora uma intraqüilidade com a posição de favoritíssimo para o Mundial. Como lidar com isso?

- Essa condição é de difícil aceitação. O brasileiro tem receio de ser favorito, mas o europeu não. O Parreira vai tomar frente a isso. Ele vai falar nada de nariz empinado, nada de empolgação.

- Quais, além de Portugal, são os fortes candidatos nessa Copa?

- Olha, a Argentina é excelente, apesar dos resultados negativos nos últimos amistosos contra Croácia e Inglaterra. Tem a Holanda, com seu jogo aberto e para frente...a Inglaterra, a República Tcheca... a Itália cresceu muito neste ano. Entra na lista também a Alemanha por sua tradição e por ser sede, apesar de o ambiente de hostilidade em volta de Klinsmann trazer intranqüilidade para o grupo.

- Nesse cenário, em que ponto está a seleção de Portugal?

- Temos o melhor potencial que já existiu em Portugal. E mesmo assim não temos muitas peças de reposição. Nas eliminatórias, tivemos contusões do lado esquerdo da defesa e não havia como repor. Temos que ter uma atitude de constante cuidado. Espero que a cota portuguesa de lesões pare pelo zagueiro Jorge Andrade. Se acontecer contusões, que seja nas outras seleções.

- Como é ir para a segunda Copa pela segunda seleção diferente? Você pode ir para uma terceira Copa por outra seleção, a Inglaterra?

- Nunca pensei que chegaria a um Mundial, queria só ser jogador, jogar no Rio Grande do Sul e só. Ir para o segundo é uma sensação maravilhosa. Em 2002, eu era um calouro no grupo do pentacampeonato, cheio de jogadores com experiência de duas Copas. Agora, me sinto melhor preparado. Já o outro assunto...há possibilidade de permanecer em Portugal. Podemos acertar durante a Copa. Mas depois da Copa tenho de definir minha vida. Os clubes já devem ter acertado com seus treinadores, então, eu acho que vou continuar sendo técnico de seleções.

Scolari acena, se despede e sai do auditório da entrevista. Vai correndo para o prédio da ESPN Brasil prensar suas mãos na calçada da fama que o canal esportivo criou. O que não se sabe é para onde vai após julho próximo. Ele se mostra incomodado de ter de negociar a renovação de seu contratado no meio do Mundial, da mesma forma que fez em 2004, quando a acertou a prolongação de seu acerto com os portugueses durante a Eurocopa em que os anfitriões foram vice-campeão. Tudo depende dos resultados na Alemanha. Bem que ele gostou do interesse da Inglaterra que ele vire "Big Phil" e dirija o "English Team", equipe da qual foi carrasco no Mundial-2002 (pelo Brasil) e da Eurocopa-2004 (por Portugal).

Scolari usa de muita diplomacia quando o assunto é seu sucessor no Brasil, Carlos Alberto Parreira: "Não emito opinião sobre o time dos outros, como não quero ninguém falando do meu." Nesses momentos, ele deve imaginar um mundo ideal, sem comentaristas a apontar erros em seus times. Pena, para ele, que isso seja irreal.

Publicado originalmente em 7 de abril de 2006

SELEÇÕES

O bordão

"Brrrrrrrrr, tu que tá dizendo"

Resposta típica, com direito a uma bufada inicial, quando a pergunta do repórter tem alguma crítica ao seu trabalho.

Estilo como técnico: misto de xerifão (nos clubes, vigiava a vida noturna de seus comandados) e paizão (protetor dos atletas, sempre assume as derrotas), gosta de vestir o agasalho do clube e diz que terno e gravata é "para usar na missa, não no campo"
Equipes que dirigiu: seleções de Portugal e Brasil, Cruzeiro, Palmeiras, Jubilo Iwata (Japão), Criciúma, Coritiba, Al Qdsia (Kuait),Grêmio, Al Ahli, Al Shabab (ambos da Arábia Saudita), Brasil de Pelotas, Juventude e CSA
Principais títulos como treinador: Copa do Mundo (2002), Libertadores (1995 e 99), Brasileiro (1996), Copa do Brasil (1991, 94 e 98), Copa Mercosul (1998), Recopa Sul-Americana (1996), Copa do Kuait (1990), Copa do Golfo (1990), Rio-SP (2000), Sul-Minas (2001), Gaúcho (1987, 1995 e 1996) e Alagoano (1982)
Clubes em que atuou como jogador: Aymoré, Caxias, Novo Hamburgo, Juventude e CSA
Estilo como jogador: zagueiro raçudo e limitado tecnicamente (em 333 jogos nos seus seis anos de Caxias, fez três gols, sendo dois contra), mas com grande espírito de liderança, sendo em várias oportunidades o capitão dos clubes em que jogou
Formação: educação física, mas sempre se negou a ser preparador físico de clube

A polêmica

"Pinochet fez muita coisa boa também. Ele pode ter feito uma ou outra retaliaçãozinha aqui e ali, mas fez muito mais do que não fez."

Comentando o governo do ditador chileno Augusto Pinochet (1973-90). Conservador em política, Felipão começou sua carreira como técnico no CSA, clube alagoano sob a influência do clã Collor.