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  28/02/2006 - 20h32
Brasil vai à Copa sem se despedir dos brasileiros

Daniel Tozzi
Enviado especial do UOL
Em Moscou (Rússia)

Não poderia haver desfecho mais apropriado para um quadriênio no qual a seleção brasileira sofreu sua internacionalização em praticamente 100%. Pela primeira vez desde quando conquistou seu primeiro título mundial, em 1958, o time nacional parte para a Copa do Mundo sem atuar em casa no ano da disputa. "Gostaríamos de jogar no Brasil, mas, infelizmente, nem sempre é possível", afirmou o lateral-esquerdo Roberto Carlos.

AS DESPEDIDAS
1958 - Em maio, o Brasil jogou no Pacaembu. Sob vaias, fez 5 a 0 no Corinthians. Os corintianos queriam Luizinho no lugar de Pelé, que deixou o campo machucado
1962 - Seleção parte para o bi com vitória por 3 a 1 contra o País de Gales, no Pacaembu, em 16 de maio
1966 - Último jogo em casa antes do fiasco de 1966 foi contra a extinta Tchecoslováquia: 2 a 2 no Maracanã
1970 - Antes do tri, as vaias. O Brasil vence a Áustria por 1 a 0 em 29 de abril, mas deixa o Maracanã vaiado
1974 - Em 12 de maio, no Maracanã, Brasil supera o Paraguai por 2 a 0
1978 - O time que viria a ser campeão moral bate os tchecos no Maracanã: 2 x 0 em 17 de maio
1982 - Após uma excursão bem-sucedida pela Europa, o show em Uberlândia: 7 a 0 na Irlanda
1986 - Empate contra o Chile em Curitiba marca nova lesão de Zico às vésperas da Copa
1990 - Maracanã vê time de Lazaroni empatar por 3 a 3 com a Alemanha Or. antes da ida à Itália
1994 - Três dias após a morte de Senna, Ronaldo garante vaga na Copa no 3 a 0 contra a Islândia
1998 - Maracanã vaia Zé Elias, Raí e Zagallo na derrota por 1 a 0 contra a Argentina
2002 - Ronaldo volta após dois anos e meio machucado na vitória por 1 a 0 contra a ex-Iugoslávia
Com calendário apertado em 2006 e as obrigações contratuais com a Ambev - patrocinadora com direito a agendar um amistoso por ano -, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) mandou a seleção fazer contra a Rússia, em Moscou, sob um possível frio de -17ºC, seu último amistoso antes da convocação final e início da preparação para a Copa. A partida, que começa às 13h, terá acompanhamento on-line do Placar UOL Esporte.

Mesmo a partir dos anos 80, quando o êxodo desenfreado dos selecionáveis passou a dificultar cada vez mais a reunião da seleção considerada principal em território nacional, a CBF ainda conseguia pôr a seleção em campo no país para sua "despedida".

Foi assim nos quatro últimos mundiais, quando a base titular já jogava fora do país. Durante a disputa das eliminatórias para o Mundial da Alemanha, o técnico Carlos Alberto Parreira previa a radicalização do "estrangeirismo" do time nacional. "Não estranhem se, em breve, o Brasil levar a uma Copa apenas jogadores que atuam no exterior", chegou a declarar o treinador.

Um ensaio para essa situação já ocorreu nas últimas eliminatórias. Em setembro de 2003, para o jogo contra o Equador, o Brasil entrou pela primeira vez em campo com um time titular formado exclusivamente por jogadores que atuavam - e atuam - no exterior.

Mas, o que poderia acarretar numa falta de identidade, no atual grupo acabou por fortalecer o vínculo com o time nacional. Jogadores e comissão técnica insistem em frisar, a cada entrevista, o ambiente terapêutico vivido pela seleção que busca o hexacampeonato.

"Jogar pela seleção ajuda. É um outro ambiente", disse Ronaldo, que passa por mais um momento turbulento em sua carreira - é vaiado pela torcida do Real, leva pito público do seu capitão no time espanhol, Raúl, e se viu "deserdado" por Florentino Pérez, presidente merengue que bancou sua contratação em 2002, mas, na segunda-feira, renunciou ao cargo.

"Eles (jogadores) têm um nível de profissionalismo muito alto. Em geral, não dão trabalho", afirmou o treinador, numa referência à função-adjunta de um técnico - a de "babá" de astros insolentes. "Esse clima é uma conquista conjunta da comissão técnica com os jogadores", completou o treinador.

A comunhão à qual se refere Parreira é tamanha que qualquer discurso que não enfatize o desejo ímpar de vestir a camisa amarela pode ser visto pela opinião pública e até mesmo dentro da comissão técnica como desprezo pela seleção.

Vide o caso de Rogério Ceni, goleiro do São Paulo, que, após lamentar sua ausência na estréia do seu clube na Libertadores para ir a Moscou, precisou declarar ao site oficial da CBF estar honrado em ser chamado para o amistoso após os três goleiros preferidos de Parreira - Dida, Marcos e Júlio César - ficarem fora da convocação por motivos de lesão.

"Fui convocado para o jogo contra a Rússia, e onde vou tentar, apesar de todas as dificuldades, me superar, e depois esperar o Parreira escolher os convocados", disse Rogério, que será titular nesta quarta. As chances de o goleiro são-paulino ir à Copa são mínimas.

Outro "estranho no ninho", apesar de também ser pentacampeão em 2002, é Ricardinho, escolhido novamente por Parreira para substituir Ronaldinho Gaúcho - fizera a função no amistoso contra a Croácia, em agosto de 2005.

Eleito numa enquete da revista "Placar" como jogador mais odiado do Brasil, o meia é um dos poucos que ainda atuam no país. Teve apenas duas curtas passagens pelo exterior - uma pelo Bordeaux, da França, e outra pelo Middlesbrough, da Inglaterra.

FICHA TÉCNICA
Rússia x Brasil
Rússia
Akinfeev; A.Berezutski, V.Berezutski, Ignashevich e Kolodin; Semak, Aldonin, Smertin e Semshov; Arshavin e Kerzhakov
Técnico: Alexandr Borodiuk
Brasil
Rogério Ceni; Cicinho, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Emerson, Zé Roberto, Ricardinho e Kaká; Ronaldo e Adriano
Técnico: Carlos Alberto Parreira
Horário: 13h (de Brasília)

Data: 1º/03/2006

Local: Lokomoticv Stadium, em Moscou (RUS)

Juiz: Massimo Busacca (SUI)

Apesar de ser um nome certo na lista de Parreira, Ricardinho adota uma postura precavida ao comentar sua provável presença na Alemanha - o que, para os seus "eleitores", pode ser visto como uma atitude política. "É um passo de cada vez, até para que a gente não se perca. Tem que pensar no presente", avaliou o meia.

Mas é justamente no presente que Parreira não quer pensar contra a Rússia. O técnico declarou que quer aproveitar a ausência de Ronaldinho, contundido, para avaliar substitutos e variações em potencial. Se Ricardinho foi confirmado como titular, é certo que o técnico fará mudanças no segundo tempo. Não apenas no meio-campo, mas em outros setores. "Pretendo fazer de quatro a seis alterações", explicou o Parreira.

Os outros dois postulantes à vaga na ausência do melhor jogador do mundo segundo a Fifa são Zé Roberto e Robinho. O primeiro, titular absoluto, seria adiantado e desempenharia função semelhante a que faz no seu clube, o Bayern de Munique. Com isso, uma vaga de volante seria aberta. Já Robinho entraria simplesmente no lugar de Ricardinho, sem qualquer outra alteração na equipe.

Já a Rússia será comandada por um técnico interino, Alexander Borodyuk. Após o fracasso nas eliminatórias para a Copa, os dirigentes russos demitiram o técnico Yuri Syomin, que deixou a equipe local na terceira colocação no grupo, atrás de Portugal e Eslováquia -esta última foi para a repescagem é também ficou fora da Alemanha.

O interino decidiu inovar e formar o ataque com a dupla da equipe Zenit, de São Petersburgo: Arshavin e Kerzhakov.

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