| |
28/02/2006 - 22h04
"Honrado" pelo frio, Rogério não adere ao lobby dos "injustiçados"
Daniel Tozzi Enviado especial do UOL Em Moscou (RUS)
Nada de entrevistas com lágrimas, acusações contra treinador ou apoio de ditadores. Rogério Ceni se difere de outros jogadores que contaram com apoio de parte de torcida e imprensa para tentarem entrar num grupo que vai a uma Copa do Mundo, entre outras coisas, justamente por não demonstrar o mínimo interesse em aderir publicamente ao lobby a seu favor.
Embora tenha adotado o discurso do "prazer em servir à seleção" após ter que declarar ao site da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) tal sentimento, - isso graças a uma entrevista na qual lamentava ter que se ausentar do São Paulo na Libertadores -, Rogério ainda é questionado sobre sua real satisfação em jogar pelo time nacional.
| INJUSTIÇADOS? |  | Dario Foi tri em 70, mas ficou marcado por contar com o lobby do general Médici | |  | Ademir da Guia Considerado lento por Zagallo, o mito do Palmeiras jogou apenas 45min na Copa de 1974 | |  | Falcão O Inter era o melhor do Brasil, mas Coutinho deixou o volante fora do Mundial da Argentina | |  | Leão Titular em 1974 e 78, foi preterido por Telê Santana em 82. Voltou em 86, mas mesmo assim criticou o técnico | |  | Renato Gaúcho No auge em 86, foi cortado por Telê por indisciplina. Se entendeu com o técnico, mas reclama até hoje | |  | Romário Chegou a ser capitão na estréia de Scolari, mas caiu em desgraça com treinador por causa de seu comportamento | | "Nunca é roubada jogar pela seleção. É sempre uma honra", disse o goleiro após o treino no Lokomotiv Stadium, em Moscou, local do amistoso contra a Rússia no qual Rogério será titular. "Eu me preocupo com o jogo contra a Rússia independente de temperatura ou chances de ir para a Copa. Isso quem resolve depois é o Parreira, a comissão técnica", completou.
Campeão paulista, sul-americano e mundial de clubes em 2005, o goleiro são-paulino foi lembrado apenas pela impossibilidade de Parreira poder convocar seus preferidos Dida, Marcos e Júlio César, todos machucados. Gomes, primeiro na "lista de espera" para ir à Alemanha, começa no banco. "Ele (Rogério) tem mais experiência na seleção, por isso vai começar jogando", justificou o treinador ainda na semana passada.
Parreira, inclusive, tem sorte por contar com um candidato a "injustiçado" como Rogério Ceni. Enquanto Romário, voluntariamente ou não, jogou o país contra Luiz Felipe Scolari em 2002 - e ficou fora do Mundial -, e Emerson Leão e Renato Gaúcho não pouparam críticas a Telê Santana por deixá-los fora de 1982 e 1986, respectivamente, o goleiro do São Paulo elogia, ao menos em público, as opções do treinador.
"Acho que os dois (Dida e Marcos) são ótimos, acho que merecem ir para a seleção", afirmou Rogério ao ser questionado sobre a iminente convocação de seus companheiros de pentacampeonato, e que hoje, segundo a análise de Parreira, são seus concorrentes diretos - o treinador afirma que levará à Copa dois goleiros experientes e um jovem, no caso, Júlio César. Gomes é o imediato para a vaga do "novato".
Ciente de que não poderá usar um de seus principais trunfos contra os russos - "aí já é o treinador quem decide", diz ele, sobre cobranças de falta -, Rogério se preocupa em se precaver contra o clima gélido de Moscou. Na hora da partida, às 19h locais, a temperatura pode baixar a -17ºC.
"O segredo aqui é sobreviver", avisou, logo ao fim do treino desta terça. "Para o goleiro (o frio) é bem problemático. Para mim é uma experiência nova", comentou, ele que usará camisa e calça térmicas embaixo do uniforme da seleção brasileira.
Mas, apesar da boa fase e diplomacia, Rogério Ceni também teve suas oportunidades como titular da seleção. Mas não as aproveitou. Jogou com Vanderlei Luxemburgo e Emerson Leão, mas falhas sob o comando do primeiro e a queda do segundo precipitaram sua saída.
Chegou a ser convocado na última gestão de Mario Jorge Logo Zagallo, quando ocorreu o episódio que, apesar de não confirmado por nenhuma das partes, é o responsável pela exclusão de Rogério Ceni dos planos de Parreira em boa parte do trabalho para o Mundial de 2006.
Durante a Copa das Confederações de 1997, houve um "trote" entre os jogadores. Quem não tinha cabeça raspada, teve que aderir. Rogério foi um deles, e reclamou com o Velho Lobo, que, por sua vez, reprovou a atitude do goleiro. Hoje, o coordenador diz que Rogério voltou à seleção por um "consenso" da comissão técnica.
"Sempre dissemos que o grupo não está fechado, o que vai decidir vai ser o momento. Ter três goleiros machucados ao mesmo tempo é algo inédito", ressaltou o tetracampeão.
|