05/05/2006 - 15h35
Zagallo: "Seleção de 82 foi reprovada. Não tinha nada de supra-sumo"

Por Márcio Alonso
RIO DE JANEIRO, 05 Mai - Às vésperas de sua sétima Copa do Mundo (duas como jogador, 58 e 62, três como treinador, 70, 74 e 98, e duas como coordenador-técnico, 94 e 2006), Mário Jorge Lobo Zagallo, 74 anos, faz questão de lembrar que futebol-arte não ganha Copa: "Dizem que a seleção de 82 (dirigida por Telê Santana) era o supra-sumo. Supra-sumo do quê? O importante é jogar com eficiência. Aquela seleção foi reprovada no teste".
Em entrevista à AFP, Zagallo diz ainda que Ronaldinho Gaúcho "vai ter de marcar, sim. Sei que Parreira disse (recentemente que Ronaldinho não precisaria se preocupar com a defesa, assim como faz no Barcelona). Mas ele vai ter de marcar e sabe disso".
AFP - Fala-se muito que na Copa do Mundo será 'tudo e todos' contra o Brasil. Isso inclui arbitragens tendenciosas, por exemplo?
ZAGALLO - Não me refiro à arbitragem. Digo que todos vão querer evitar o hexa do Brasil. Senão, a diferença (de títulos) vai aumentar muito. E numa Copa na Europa há muito mais dificuldades do que em outros continentes.
AFP - Essas dificuldades incluem o quê, por exemplo?
ZAGALLO - Os europeus ficam naturalmente mais fortes jogando em casa. Na Ásia, em 2002, por exemplo, França e Espanha saíram logo de cara.
AFP - E coisas do tipo água contaminada, como aconteceu com o Branco na Copa de 1990, no jogo contra a Argentina. Isso ainda pode acontecer em Mundiais?
ZAGALLO - Não acredito. Isso é baixaria, doping, coisa de país sul-americano. A Copa é na Europa, é diferente, se bem que em 1990 era na Itália...
AFP - O fato de os adversários considerarem o Brasil superfavorito é uma espécie de armadilha?
ZAGALLO - Querem desestabilizar a Seleção Brasileira. Mas não vamos deixar. Alertamos os jogadores o tempo inteiro sobre isso. Sabemos que somos superiores, que temos A, B, C e D para decidir um jogo e os outros têm no máximo A e B. Mas é preciso jogar bola.
AFP - Esse A, B, C e D é o tal 'Quarteto Mágico' da Seleção? Ele será mesmo usado na estréia contra a Croácia?
ZAGALLO - Quem acompanha a Seleção já sabe qual será o esquema. Há uma coerência. O esquema está definido.
AFP - Mas Parreira havia dito anteriormente que para jogar o quarteto todos precisariam participar da marcação, sobretudo Ronaldinho Gaúcho e Kaká. Recentemente, ele disse que quer o Ronaldinho Gaúcho sem obrigação de marcar, atuando como no Barcelona. Como fica isso?
ZAGALLO - Ele vai ter de marcar, sim. Sei que Parreira disse isso. Mas ele (Ronaldinho) vai ter de marcar e sabe disso.
AFP - O momento da seleção atual pode ser comparado ao da equipe que disputou a Copa de 1982, que também chegou com certo favoritismo?
ZAGALLO - Não há comparação porque a Copa (de 2006) não terminou. Só depois podem comparar. A seleção de 82 foi reprovada, não passou no teste, foi eliminada cedo. De que adianta jogar bonito e não vencer? Não foi eficiente. Eu quero é resultado. Aquela seleção perde de todas as que foram campeãs mundiais, fracassou. Dizem que a (seleção) de 82 foi o supra-sumo. Supra-sumo do quê? Supra-sumo é quem ganha a Copa.
AFP - Então a seleção de 1998 também fracassou pelo fato de não ter conquistado o título?
ZAGALLO - Não, fomos vice-campeões, chegamos à final. Havia equilíbrio no time. O importante não é jogar bonito, mas com eficiência. Certa vez, perguntei ao então presidente do Real Madrid (Florentino Pérez) se ele iria contratar o Alex, que era do Santos e está no PSV, da Holanda. E ele me disse que não contrata zagueiro. O que é isso?!?
AFP - Você elogia muito o Zé Roberto. Seria por que ele desempenha uma função em campo parecida com a sua quando era jogador?
ZAGALLO - Não é isso, não. É porque o Zé Roberto é bom demais. Desarma e vai à frente com categoria. Não deve nada aos outros lá na frente. Ele forma o quinteto da Seleção. Falo sério. Quem no grupo faz o que ele faz?
AFP - O grupo de jogadores para a Copa do Mundo já está definido ou ainda há alguma dúvida?
ZAGALLO - Já está fechado, mas só vai ser anunciado dia 15 (de maio).
AFP - Até pouco tempo, o Rivaldo manifestou que gostaria de voltar à seleção. Você e Parreira pensaram em convocá-lo?
ZAGALLO - Pensamos, sim. O problema foi a idade. Seria outro jogador com mais de 30 anos. Já temos muitos no time e em posições-chaves.
AFP - E o Cicinho? Você acha que ele tem mais chances de ser titular na Copa por vestir a camisa número 13?
ZAGALLO - (risos) Ele tem mostrar em campo. Esse negócio do 13 levaram muito para o lado da superstição. Mas não é superstição, não. É fé. Dia 13 de junho, dia de Santo Antônio. É o dia da estréia contra a Croácia!
AFP - O grupo da seleção parece ser muito unido. O fato de não ter um 'bad boy' na equipe ajuda muito? O Edmundo, por exemplo. em 1998, andou falando algumas coisas...
ZAGALLO - Claro que ajuda, esse grupo é maravilhoso. Você não percebe qualquer inveja e problemas entre os jogadores. Mas o Edmundo em 1998 não deu trabalho. Era controlável. Mas é preciso impor moral. O Romário, por exemplo, em 1992, num amistoso contra a Alemanha, em Porto Alegre, disse que tinha de ser escalado. Dei uma chamada nele, disse que quem mandava era eu e Parreira (treinador), e o tiramos da equipe, só voltou no final das eliminatórias (para a Copa de 94).
AFP - Alguma seleção pode surpreender na Copa, além dos tradicionais favoritos?
ZAGALLO - Gosto muito do México.
AFP - E quanto aos jogadores, você acha que Robinho pode explodir?
ZAGALLO - Difícil falar isso de quem não será titular. O Messi, por exemplo, da Argentina, tem chances de estourar porque será titular.
AFP- E quanto ao Ronaldinho Gaúcho, já pode ser comparado ao Pelé?
ZAGALLO - Não gosto de comparações. Pelé fez (cerca de) 1.300 gols. E gol é o que importa. Agora, é claro que o Ronaldinho está estraçalhando.
AFP - Você acha que ele será o craque da Copa?
ZAGALLO - Tomara que sim. Nem precisa pegar na bola em todos os ataques, como faz no Barcelona. Basta mostrar o que sabe quando estiver com a bola que a taça é nossa.
AFP - Há muita polêmica na Alemanha quanto ao fato de o treinador Klinsmann morar na Califórnia. O que você pensa disso?
ZAGALLO - Isso não existe. Isso é brincadeira. Seria o mesmo que pegar a comissão técnica da Seleção Brasileira e colocá-la no Canadá.
AFP - Pensa em prosseguir na Seleção caso o Parreira continue?
ZAGALLO - Eu não vou me despedir. Estou seguindo a vida. Estou bem de saúde. Poderia até treinar um time. Na verdade, nunca deixei de ser um treinador.