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O ex-craque Abedi Pelé está na Alemanha acompanhando Gana
Gana se orgulha da fama futebolística de "Brasil da África", mas só agora participa de uma Copa do Mundo pela primeira vez. O país foi pioneiro no futebol africano, ganhou títulos, teve bons nomes e, nos anos 90, se tornou uma potência nos Mundiais juvenis e de juniores. Porém, amargou mais de 40 anos de frustração por não chegar a uma Copa por problemas internos: desde os "gatos" (jogadores mais velhos que falsificam idade menor para atuar nas categorias de base) até a ciumeira entre seus principais nomes.
Os problemas fizeram com que uma autêntica "geração perdida" de Gana não chegasse a pisar num gramado para jogar uma Copa. O principal foi Abedi Pelé Ayew, campeão europeu pelo Olympique francês em 1993, campeão africano em 1982 aos 19 anos e Melhor Jogador Africano por três vezes (1991, 1992 e 1993).
Outros "injustiçados" da geração anterior foram o atacante Tony Yeboah, que se destacou no futebol inglês, e Nii Lamptey, que despontou como fenômeno no Mundial sub-17 de 1991 e viu sua chama se apagar em poucos anos.
Além de Lamptey, a maioria dos jogadores que chegaram a cinco finais dos Mundiais de juvenis e juniores na década passada sumiram. A base da atual seleção é a geração que se firmou no sub-20 em 2001, sexta decisão do país nas categorias de base.
GLÓRIAS DE GANA
| Conquistas |
|---|
| Classificação para a Copa do Mundo | 1 (2006) |
| Copa Africana de Nações | 4 títulos (1963, 1965, 1978, 1982) 3 vices (1968, 1970, 1992) 4 finais seguidas (1963, 1965, 1968, 1970) |
| Mundial sub-17 | 2 títulos (1991, 1995) 2 vices (1993, 1997) 4 finais seguidas (1991, 1993, 1995, 1997) 5 semifinais seguidas (1991, 1993, 1995, 1997, 1999) |
| Mundial sub-20 | 2 vices (1993, 2001) |
| Olimpíadas | 1 medalha de bronze (1992) |
| Jogador Africano do Ano | Ibrahim Sunday (1971) Abdul Razak (1978) Abedi Pelé (1991, 1992, 1993) |
| Melhor jogador da Copa Africana | Ibrahim Sunday (1970) Karim (1978) Abedi Pelé (1992) |
Uma razão para a falta de continuidade era o desmonte promovido por empresários, que levavam as promessas de Gana embora do país antes mesmo que estivessem formadas. E os que ficavam eram, na maioria, esquecidos pouco tempo depois de terem conquistado os títulos. Esse fator fez com que o jovem Freddy Adu, hoje com 17 anos, preferisse se mudar para os EUA| e integrar a seleção de lá, numa contratação polêmica por causa da pouca idade dele.
Panelinhas dos ídolosOutra parte dos problemas da seleção principal foram provocados justamente pelos astros Abedi Pelé e Yeboah, algo que a atual geração sabe que aconteceu.
"Tivemos alguns bons times no passado, mas nenhum deles foi unido. Os jogadores me disseram que a falta de união e as panelinhas foram os principais problemas", disse o técnico Ratomir Dujkovic.
O meia Laryea Kingston, que ficou de fora da Copa por contusão, é mais direto. "Abedi Pelé tinha seu grupinho, Yeboah tinha o dele", disse o jogador ao jornal sul-africano
The Source. "Já o time de agora subiu dos juniores e se conhece bem".
As atitudes que os dois têm atualmente demonstram as diferenças de temperamento que devem ter influído quando dividiam as atenções na seleção de Gana.
Mais famoso e glorificado, Abedi (que ganhou o apelido de Pelé aos 8 anos porque sabia driblar bem) despontou como craque aos 19 anos, quando foi campeão da Copa Africana das Nações. Hoje em dia, trabalha junto à federação de Gana e é embaixador do comitê organizador da Copa de 2010 na África do Sul. Está na Alemanha acompanhando a delegação em sua primeira Copa.
Já Yeboah, que se firmou no começo dos anos 90, quando Gana foi vice-campeã africana em 1992, tem a mágoa de ter sido desprezado pela federação desde que parou de jogar. Ele é dono de um hotel na cidade de Yegoala e diz que nunca foi procurado pelos dirigentes esportivos do país para colaborar com sua experiência e conhecimento.
"Ninguém nunca ligou, nem para pedir conselho. O futebol de Gana não é como o da Europa. Os dirigentes daqui querem fazer política. São advogados, médicos, mas não pessoas do futebol. Há um monte de ex-jogadores em casa fazendo nada", reclamou Yeboah ao jornal inglês
The Times.
Ele acrescentou: "Ir à Copa era o sonho de todo jogador de Gana. Mas nunca fomos antes por culpa da má administração".
Tivemos alguns bons times no passado, mas nenhum deles foi unido. Os jogadores me disseram que a falta de união e as panelinhas foram os principais problemas
Ratomir Dujkovic, atual técnico de GanaSe Abedi ganhou o apelido, Nii Lamptey foi chamado pela mídia de "novo Pelé" quando explodiu no Mundial sub-17 de 1991, vencido por Gana. No ano seguinte, foi medalha de bronze nas Olimpíadas de Barcelona e, em 1993, vice do Mundial sub-20.
Mas as expectativas foram tão altas que Lamptey apagou em pouco tempo. Dos 16 aos 19 anos, atuou bem no Anderlecht da Bélgica e no PSV da Holanda. Quando se transferiu para o Aston Villa inglês, começou sua decadência. Não se adaptou ao estilo forte britânico. E, graças a um empresário ganancioso, entrou numa seqüência de transferências melancólicas para clubes medianos da Europa e até da China. Por fim, voltou a Gana para jogar pelo Asante Kotoko.
Os "gatos"O sucesso e o porte físico da geração de Lamptey e das seguintes criaram a desconfiança de que Gana e outras seleções africanas falsificavam as idades de atletas mais velhos para ter sucesso nos torneios de base. Ou seja, o antigo golpe dos "gatos".
44 ANOS DE FRUSTRAÇÃO
Antes da classificação para a Copa de 2006, Gana nunca chegou nem mesmo perto da vaga desde que participou das eliminatórias pela primeira vez para o Mundial de 1962.
Nos anos 70, quando Ibrahim Sunday era o ídolo do país, caiu em fases semifinais nas eliminatórias de 1970 e 1974.
Em 1982, Gana desistiu de participar. Ironicamente, seria campeã africana meses depois.
Em 1998, última tentativa da geração de Pelé e Yeboah, chegou a um grupo da fase final. Mas acabou em 3º, perdendo para o classificado Marrocos. Pior foi uma derrota em casa para a fraca Serra Leoa.
Oficialmente, nunca se provou nada contra Gana. Mas a presença de "gatos" é admitida hoje por dirigentes do país, mesmo que seja apenas para afirmar que atualmente tudo está dentro dos conformes, sem falsificações.
"Antigamente, trapaceávamos e ganhávamos, mas precisamos fazer tudo dentro da lei. Muitos anos dessas práticas reforçaram o futebol juvenil, mas afetaram o nível da seleção principal", declarou Joe Aggrey, ex-vice-ministro dos Esportes, ao jornal inglês
The Guardian, na última segunda-feira.
A reportagem do
The Guardian indica que fontes consultadas estimam que a diferença entre a idade real de um jogador e a registrada na Fifa chegava a nove anos em alguns casos.
Em uma coluna no jornal ganês
Accra Daily Mail, Godwin Yaw Agboka apontou o mesmo problema causado pela fraude que reforçava a competitividade do sub-17 e do sub-20.
"Se nossos times de juniores eram tão bons assim nos anos 90, como é que nunca chegaram à Copa do Mundo, enquanto os jogadores que atuaram pelo Brasil conseguiram?", questionou Agboka em artigo publicado em março de 2006. "Por que Del Piero e Totti ainda jogam enquanto Daniel Addo, Emmanuel Bentsil, Awudu Issaka e Sebastian Barnes sumiram? Quando chegam ao profissional, quando deveriam atingir a plenitude, nossos jogadores já estão esgotados".