AFP
Deco estréia na seleção de Portugal com gol de falta contra o Brasil de Rivaldo: vitória em março de 2003
Referência do meio-campo da seleção portuguesa, Anderson Luís de Souza, o Deco, não nega suas raízes. Consagrado no futebol europeu após ser ignorado no seu país natal, o meia, nascido em São Bernardo do Campo (SP) há 27 anos, adquiriu a consciência tática característica de um jogador que deu certo no Velho Continente, mas sem abrir mão de uma das máximas do boleiro brasileiro: título, só vale o de campeão. "Nenhuma posição que não seja ganhar é interessante", afirmou o meia do Barcelona.
Deco foi convocado para a seleção portuguesa por Luiz Felipe Scolari logo após sua naturalização, em março de 2003, mesmo diante da resistência de alguns atletas consagrados do Clube Portugal, como a seleção lusa é conhecida. Na estréia, marcou, de falta, o gol que deu a vitória ao time de seu novo país. O adversário era justamente o Brasil.
Os traços de "brasilidade" no discurso do luso Deco não param por aí. Para ele, a expectativa de uma grande Copa para Portugal se baseia em boa parte no espírito de grupo da nova "família Scolari".
DISPENSANDO GOLS
Jogador do gigante espanhol Barcelona desde julho de 2004, Deco marcou apenas mais um gol pela seleção de Portugal desde sua estréia, quando fez o tento da vitória sobre o Brasil. O atleta anotou seu segundo gol na histórica goleada do time de Felipão por 7 a 1 sobre a Rússia, em partida válida pelas eliminatórias da Copa disputada em outubro de 2004 em Lisboa.
A qualidade que o jogador traz ao meio-campo de suas equipes, com passes precisos, assistências, dribles e futebol combativo tornou os gols dispensáveis. Deco é titular da seleção desde a segunda partida do vice-campeonato da Eurocopa-2004; desempenha papel fundamental também no Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, Messi e Eto´o; e foi decisivo nas inúmeras conquistas do esquadrão de José Mourinho no Porto, clube que deixou ao ir para a Espanha.
Leia mais
Apenas uma pergunta ficou sem resposta: como seria para o atleta enfrentar o Brasil em uma eventual final da Copa do Mundo? A ligação caiu quando a pergunta ia ser feita e, logo em seguida, Deco começou seu treino no Barcelona.
Depois de várias tentativas do
UOL Esporte para obter uma resposta, a assessoria de imprensa do jogador disse que o tempo da entrevista já havia sido bastante razoável e que não seria possível atender a essa derradeira solicitação. Fica, portanto, a pergunta no ar.
UOL Esporte: Como está o clima dos portugueses para a Copa? Deco: O clima lembra o do Brasil, com todo mundo animado, empolgado. A seleção chegou na final da Euro-2004, foi primeira nas eliminatórias... A Copa do Mundo está nas ruas sim, como no Brasil. Além disso, Portugal também vive o futebol em seu dia-a-dia.
UOL Esporte: Nas três Copas do Mundo disputadas pela equipe, Portugal ficou em 3º em 1966, ao passo que caiu na 1ª fase em 1986 e 2002. Que colocação pode ser apontada como vitoriosa, e qual desempenho poderia ser considerado uma decepção? Deco: Nenhuma posição que não seja ganhar é interessante. Numa Copa, só é lembrado quem ganha. Portugal pode não ter tanta tradição, mas tem grandes jogadores, acostumados a jogar em grandes clubes, a ganhar grandes jogos e disputar grandes títulos. Passando da primeira fase, tudo pode acontecer, é só um jogo, e Portugal pode ganhar de qualquer um.
Nenhuma posição que não seja ganhar é interessante.
Deco, sobre as expectativas do desempenho de Portugal na Copa UOL Esporte: Como foi sua adaptação à seleção, com as dificuldades relativas ao fato de você ser brasileiro? Quem são seus principais companheiros no time? Há problemas com algum jogador?
Deco: Nunca senti nenhum problema de relacionamento, de adaptação. Desde que cheguei o ambiente é muito bom, fantástico. Certamente, conforme o tempo foi passando, foi ficando melhor. Sempre tive amigos na seleção, já havia jogado com quase todos os atletas, contra ou no Porto, então nunca senti nenhum tipo de resistência. Isso foi mais uma coisa criada pela imprensa.
UOL Esporte: Você treina com o Frank Rijkaard, holandês, no Barcelona, foi treinado pelo José Mourinho, português, no Porto, e já foi orientado por diversos técnicos brasileiros em clubes daqui. Há muitas diferenças entre os estilos dos treinadores?
Deco: Acho que o principal diferencial está na questão das relações, da valorização do grupo. Os brasileiros valorizam muito o relacionamento do grupo. Na Europa, existe uma preocupação com isso, mas não é como no Brasil. Já o tipo de treinamento vai de cada um, varia de técnico para técnico. Nesse sentido, o Rijkaard e o Mourinho são bem próximos. O trabalho do Felipão é diferente do deles.
FAMÍLIA UNIDA E EQUILIBRADA
Para Deco, Cristiano Ronaldo deve ser um dos destaques da Copa do Mundo. O meia da seleção de Scolari destaca a união e o equilíbrio como pontos fortes da equipe. E afirma que não está preocupado em se destacar na Copa, mas sim em ajudar Portugal a chegar longe na competição.
Leia mais
UOL Esporte: O Luiz Felipe Scolari é mais próximo ao estilo dos europeus ou à escola brasileira?
Deco: À escola brasileira, com certeza. A formação dele é toda da escola brasileira.
UOL Esporte: Qual a principal contribuição do técnico Scolari para a seleção de Portugal?
Deco: O mais importante, a meu ver, é Portugal ir pela segunda vez seguida para a Copa, depois de chegar à final da Euro-2004, crescendo, participando de forma qualificada das competições. Scolari trouxe experiência, qualidade, comando à seleção. Além de conseguir, com muita facilidade, formar um grupo, com todo se dando bem, jogando unido.
| DECO NA SELEÇÃO |
|---|
| Primeiro jogo | Portugal x Brasil (março de 2003) |
| Número de jogos | 33 |
| Número de gols | 2 |
| Número de jogos nas eliminatórias 2006 | 11 (em 12 jogos de Portugal) |
| Número de gols nas eliminatórias | 1 |
UOL Esporte: Na Euro-2004, vários atletas, como o goleiro Ricardo, fizeram promessas religiosas. O Scolari usa muito desse recurso para estimular os jogadores?
Deco: Portugal é um país como o Brasil, com a crença muito grande em relação às questões religiosas. O jogador português lembra o jogador brasileiro na crença e nas promessas. Realmente, o Felipão usa muito isso na preparação da seleção, porque é uma coisa que ele crê, e porque é uma coisa que é forte entre os jogadores, então ele usa muito conosco.
UOL Esporte: Se a Copa fosse hoje, haveria cinco técnicos brasileiros nas seleções do torneio. Por que você acha que os treinadores do Brasil começam a fazer maior sucesso no exterior?
Deco: Os brasileiros sempre saíram para treinar equipes no exterior, mas acredito que o Felipão tem dado uma força importante. Com o desempenho do Luiz Felipe em Portugal, o sucesso na Eurocopa-2004 e nas eliminatórias... Isso abriu portas. E isso me parece bom, porque o Brasil é o melhor futebol do mundo não apenas por seus jogadores, mas também por seus grandes treinadores.
VIDA EM BARCELONA
O Milan e o Barcelona são os favoritos para a conquista da Liga dos Campeões da Europa na opinião de Deco. Ao contrário do que ocorre na seleção de Portugal, porém, a religião não deve ser um dos fatores mais presentes na preparação da maioria dos jogadores do Barcelona para as partidas decisivas do torneio.
Leia mais
UOL Esporte: Como os portugueses vêem a participação do Brasil no Mundial? Existe alguma expectativa quanto a um possível confronto entre as duas seleções?
Deco: Pela tabela, acho que o cruzamento só pode acontecer na final mesmo [as duas equipes podem se enfrentar na semifinal também, dependendo do desempenho de ambas na 1ª fase ]. Os portugueses torcem pelo Brasil na Copa também, com certeza.