Com uma vitória nos pênaltis, o técnico brasileiro Luiz Felipe Scolari colocou Portugal em uma semifinal de Copa do Mundo após 40 anos em que o país ficou sem passar sequer da primeira fase. O triunfo por 3 a 1 sobre a Inglaterra, alcançado depois de um empate por 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, fez Scolari superar a meta que havia proposto antes do início da Copa do Mundo - chegar às quartas - e colocou seu time entre os quatro melhores do mundo.
IMAGENS DO CONFRONTO

Ingleses "encheram a cara" antes do jogo ter o apito inicial

Torcedor se dispôs a "vender" seu rim por um ingresso

Scolari é advertido por juiz argentino Horácio Elizondo

Cristiano Ronaldo e Gary Neville foram escalados para o jogo

Beckham deixou o campo ao sentir uma contusão

Rooney foi expulso e saiu de campo bravo com o juiz

Ricardo defende a cobrança decisiva de Hargreaves
Mesmo com um homem a mais durante boa parte do segundo tempo e toda a prorrogação - Rooney foi expulso -, Portugal não conseguiu vencer com a bola rolando.
"Temos que valorizar os ingleses porque eles jogaram com 10 frente aos nossos 11 e não nos deram chance (de finalizar)", observou o brasileiro, contando que o time precisou recorrer aos arremates de fora da área.
Nos pênaltis, Simão marcou para os portugueses, enquanto Lampard perdeu; Hugo Viana bateu na trave, e Hargreaves marcou; Petit mandou para fora, e Ricardo defendeu o chute Gerrard; Postiga cobrou bem e guardou, e Carragher perdeu sua cobrança; então, Cristiano Ronaldo cobrou o pênalti decisivo e classificou Portugal.
Portugal, que disputa sua quarta Copa do Mundo, teve seu melhor resultado na Copa da Inglaterra, em 1966, quando caiu nas semifinais diante dos anfitriões por 2 a 1. Agora, vingado daquela derrota , o time luso tem a chance de superar a geração de Eusébio.
Depois daquele Mundial, Portugal participou da Copa do Mundo duas vezes, e obteve dois resultados pífios: um 17º lugar em 1986 e um 21º na Copa de 2002, quando viu sua chamada "geração de ouro", de Rui Costa, Fernando Couto e Luís Figo, cair na primeira fase.
Agora, classificados, os portugueses, que têm poucos nomes remanescentes do time de 2002, como Figo, Pauleta e Petit, pegam na semifinal a França, que eliminou o Brasil em Frankfurt. O jogo que vale a vaga na final ocorrerá na quarta-feira, dia 5, às 16h, em Munique.
"Agora, temos a chance de fazer história, o que quase aconteceu na Euro (2004)", disse o técnico brasileiro. "Foi muito mais difícil chegar à semifinal com Portugal do que chegar à final com o Brasil (em 2002)".
Com o empate, Scolari encerrou um de seus recordes: parou na 11ª vitória consecutiva em uma Copa do Mundo - sete pelo Brasil, quatro por Portugal -, marca que detém sozinho.
Para o confronto decisivo, Scolari poderá contar com o retorno de Deco e Costinha para escalar seu time. No entanto, não terá Petit à disposição, que levou o segundo cartão amarelo ainda no primeiro tempo.
O jogoCom duas baixas - Costinha e Deco cumpriam suspensão automática por conta de expulsões perante a Holanda -, Scolari compôs o meio-campo com Petit e Tiago. Por outro lado, pôde escalar Cristiano Ronaldo, recuperado da pancada na coxa direita que levou contra a Holanda. Já Eriksson contou com a volta do lateral Neville, o que o fez deslocar Hargreaves para o meio e colocar o meia Carrik no banco. Rooney foi, novamente, o único atacante do "English Team".
As duas equipes entraram em campo concentradas e focadas no duelo. A Inglaterra começou levemente melhor nos primeiros 10 minutos de jogo, com toque de bola mais objetivo. Mas nada que fizesse grande diferença.
Aos 9min, Wayne Rooney deu o primeiro chute a gol. Ele recebeu na entrada da área e, sem marcação, bateu de virada com firmeza, mas em cima de Ricardo. Um minuto depois, Cristiano Ronaldo devolveu na mesma moeda, com um chute parecido, também defendido com facilidade por Robinson.
Então, Portugal melhorou. Aos 11min, a equipe teve sua primeira boa chance. Após cobrança de falta de Figo, a zaga inglesa se atrapalhou e a bola sobrou para Tiago, que não conseguiu empurrar para o gol.
A Inglaterra passou a controlar as ações do jogo nos minutos seguintes, mas quem assustou em contra-ataque foi o time de Scolari. Figo lançou Cristiano Ronaldo na ponta direita; o atacante entrou em diagonal na área e, fominha, bateu direto para o gol ao invés de passar para Maniche, que entrava livre ao seu lado, desperdiçando boa chance.
A partir dos 25min, os dois times começaram a cadenciar o jogo e usar a mesma estratégia: se fechar na defesa e partir em velocidade para o ataque quando retomava a bola. Com isso, o jogo caiu de rendimento, e as chances de gol cessaram.
Somente aos 38min Portugal encontrou espaços na zaga britânica. A equipe de Scolari insistia nos avanços pela esquerda, em cima do recém-recuperado de contusão Neville. Figo avançou por este setor e bateu colocado, buscando o ângulo de Robinson, mas errou o alvo. Dois minutos depois, Tiago tentou de cabeça, mas parou no goleiro inglês.
| CONFRONTOS NOS PÊNALTIS |
| Ano | Fase | Resultado |
| 1982 | Semifinal | ALE 5 x 4 FRA |
| 1986 | Quartas | ALE 4 x 1 MEX |
| 1986 | Quartas | FRA 4 x 3 BRA |
| 1986 | Quartas | BEL 5 x 4 ESP |
| 1990 | Oitavas | IRL 5 x 4 ROM |
| 1990 | Quartas | ARG 3 x 2 IUG |
| 1990 | Semifinal | ARG 4 x 3 ITA |
| 1990 | Semifinal | ALE 4 x 3 ING |
| 1994 | Oitavas | BUL 3 x 1 MEX |
| 1994 | Quartas | SUE 5 x 4 ROM |
| 1994 | Final | BRA 3 x 1 ITA |
| 1998 | Oitavas | ARG 4 x 3 ING |
| 1998 | Quartas | FRA 4 x 3 ITA |
| 1998 | Semifinal | BRA 4 x 2 HOL |
| 2002 | Oitavas | ESP 3 x 2 IRL |
| 2002 | Quartas | CDS 5 x 3 ESP |
| 2006 | Oitavas | UCR 3 x 0 SUI |
| 2006 | Quartas | ALE 4 x 2 ARG |
| 2006 | Quartas | POR 3 x 1 ING |
Os europeus voltaram a atacar aos 43min. Joe Cole pegou rebote de escanteio e sofreu falta perto da área, mas Beckham desperdiçou a cobrança naquela que foi a última chance do primeiro tempo.
As equipes voltaram iguais para o segundo tempo, mas Eriksson mexeu logo aos 6min: sacou o capitão Beckham, que sentiu uma pancada, e colocou o jovem Lennon em campo. A substituição surtiu efeito, e a Inglaterra tomou as ações do jogo.
Aos 12min, Lennon invadiu a área, fez fila e deixou para Rooney chutar; o atacante errou a mira, e a bola sobrou para Joe Cole que, caído, bateu por cima, desperdiçando grande chance.
Quando as coisas pareciam ir bem para a o lado britânico, a situação complicou: Rooney pisou em Ricardo Carvalho e foi expulso mesmo sem ter amarelo pelo árbitro argentino Horácio Elizondo. Foi o terceiro jogo consecutivo de Portugal na Copa em que o juiz precisou mostrar o vermelho.
Então, os dois técnicos alteraram o padrão de jogo de suas equipes. Eriksson sacou o habilidoso Joe Cole e pôs o grandalhão Peter Crouch. Já Scolari tirou o centroavante Pauleta, que pouco fez em campo, e colocou o ágil Simão Sabrosa.
Embora com diferença numérica, o jogo continuou parelho, e a Inglaterra chegou a assustar em boa jogada de Hargreaves, que chegou à linha de fundo pela direita, mas cruzou muito mal e não encontrou Crouch, que fechava no comando.
A partir dos 30min, Portugal passou a pressionar. Após boa trama com Miguel pela direita, Figo jogou na área com muito perigo, obrigando Robinson a fazer ótima defesa. Mantendo a posse de bola, os comandados de Scolari obrigaram os rivais a recuar.
Mas em um contra-ataque, Lennon sofreu falta na entrada da área. Na cobrança, Lampard bateu com violência, obrigando Ricardo a espalmar. Na sobra, Lennon bateu rasteiro, mas Ricardo se recuperou a tempo de segurar a bola.
ERIKSSON "FREGUÊS"
Com mais esse triunfo português, o técnico sueco Sven-Goran Eriksson se firmou como "freguês" de Scolari. Em três confrontos válidos por torneios oficiais, três sucessos do brasileiro.
Na Eurocopa 2004, os anfitriões portugueses bateram os rivais também nos pênaltis após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar - com gols de Owen e Postiga - e 2 a 2 na prorrogação, com gols de Rui Costa e Sol Campbell.
Antes disso, nas quartas-de-final da Copa do Mundo da Coréia do Sul e Japão, em 2002, a Inglaterra caiu por 2 a 1 para o então futuro campeão Brasil. Owen marcou para os ingleses, mas Rivaldo e Ronaldinho viraram para a seleção brasileira.
Scolari, então, sacou Figo e Tiago e colocou Hugo Viana e seu talismã Helder Postiga em campo. Portugal seguiu dominando, mas novamente, quem chegou perto do gol foi a Inglaterra. Em sobra de escanteio, Hargreaves fez ótima jogada pela esquerda e cruzou rasteiro; após bate-rebate, John Terry bateu com extremo perigo, mas para fora. Com isso, o jogo foi para a prorrogação.
No tempo extra, o cansaço abateu as equipes, e Portugal, mesmo com um a mais, não conseguia criar chances claras de gol. A Inglaterra, quando se arriscou, levou mais perigo: aos 9min, Gerrard invadiu a área e cruzou para Crouch, que fez falta na zaga e não conseguiu completar a gol. Pouco depois, novo cruzamento assustou o goleiro Ricardo.
Cristiano Ronaldo, em um chute de longa distância de pé esquerdo, foi o mais perigoso de Portugal no primeiro tempo da prorrogação, mas não conseguiu nada.
No primeiro minuto do segundo tempo, Lennon fez boa jogada pela direita, deixou dois marcadores para trás e foi travado por Nuno Valente. A torcida inglesa pediu pênalti, mas o árbitro não marcou.
No lance seguinte, Simão cruzou para Postiga, que marcou de cabeça - mas foi apontada, corretamente, posição de impedimento do atacante português.
Depois disso, Portugal ainda tentou diversos cruzamentos na área, mas Maniche perdeu a última chance do jogo, e a disputa foi para os pênaltis.