A Copa do Mundo de 2006 não vai ser a primeira com atleta homossexual assumido. Nem deve ser a última. Se a Fifa ainda titubeia quando o assunto é a punição ao racismo, outro tipo de discriminação não está nem no banco de reserva das polêmicas do futebol: a homofobia.
Enquanto manifestações antigays, como as dos técnicos Daniel Passarella e Vanderlei Luxemburgo, são toleradas, alguns jogadores exploram o filão, com propagandas sexys ou ensaios em revistas do público gay.
"Um jogador assumido causaria um impacto muito forte. Como foi nas forças armadas norte-americanas. O ambiente do futebol reagiria muito, é muito conservador", analisa Carlos Alberto Parreira, que diz que em 35 anos de carreira não conheceu um homossexual nas equipes em que passou.
Por outro lado, o técnico da seleção brasileira afirma que o mundo do marketing poderia absorver esse pioneiro. "Hoje, tudo é publicidade no futebol. A indústria do marketing esportivo é a segunda maior do mundo, e tem dinheiro para todo o tipo de jogador", completa
Se for verdade a estimativa de que uma em cada dez pessoas é homossexual, pelo menos 73 estariam disfarçadas no Mundial da Alemanha, afinal, são 736 inscritos. Mas será mais fácil vê-los no Gay Games e no OutGames, duas olimpíadas que acontecem logo após a Copa nas cidades de Chicago (EUA) e Montreal (Canadá).
Para o presidente do Grupo Estruturação de Brasília, que há 12 anos defende os direitos de GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), Welton Trindade, "é lógico que também temos gays no futebol profissional, e não são poucos. Eles só não se expõem por puro preconceito, deles mesmos e do ambiente que os cerca".
SUPERANDO AS BARREIRAS

Time de futebol de campo formado apenas por lésbicas de Brasília.
Equipe de vôlei de quadra que participou do Gay Games em 2005.
Para Welton, o ambiente futebolesco ainda é agressivo e extremamente machista. "Resta aos gays procurar por outro esporte", diz o presidente, que pratica esgrima.
Arnaldo Luis Adenet Costa também afirma que os gays não se sentem atraídos pelo futebol como esporte. Atleta de remo, ele conta que o ambiente homofóbico do futebol sempre o afastou.
"Trago uma imagem, desde criança, do futebol como um ambiente extremamente agressivo. Por isso, acho que nunca me interessei", conta o carioca, que aponta o vôlei como um esporte mais elegante e de preferência do público gay.
Arnaldo embarca em julho para Montreal, para a primeira edição dos OutGames, evento esportivo voltado ao público gay e um pouco menor que o Gay Games, que acontece desde 1994.
São mais de 12 mil participantes de mais de 109 países, disputando mais de 20 categorias esportivas, que vão desde os tradicionais jogos de quadra a concurso de dança. O interesse dos brasileiros pela competição é grande segundo as organizações voltadas ao público GLS, mas inscritos mesmo são poucos.
Enquanto os praticantes gays são poucos, as lésbicas têm uma maior identificação com o futebol. O núcleo feminino do Estruturação, por exemplo, lançou em 2005 o primeiro time oficial de futebol de campo de lésbicas, mulheres bissexuais e simpatizantes do país.
No ano passado, as meninas participaram do campeonato local de futebol feminino e ficaram em sétimo lugar na classificação geral. "O time de lésbicas nasceu para mostrar 'olhem, somos lésbicas e jogamos futebol', e com isso dar visibilidade à classe e lutar contra o preconceito no esporte", explicou Andrea Manzan, coordenadora do time.
Já em São Paulo, o grupo GLS Ella & Ellas organiza pela terceira vez a CopaDellas, um campeonato de futebol que reúne apenas times formado por mulheres, em sua maioria homossexuais. "Este ano, superamos as expectativas e teremos 20 equipes", disse a publicitária Gel Nunes, uma das organizadoras do evento.
Se no futebol e no Brasil os passos são lentos, a mudança de mentalidades é mais rápida em outras modalidades e países. Esera Tuaolo, David Kopay e Roy Simms, todos jogadores de futebol americano, assumiram publicamente a homossexualidade depois da aposentadoria. A tenista Martina Navratilova foi a primeira atleta famosa a declarar-se lésbica no começo da década de 1980. Em atividade, Amelie Mauresmo tomou a mesma iniciativa.
Mais recentemente, Ian Roberts, jogador australiano de rugby, desabafou: "Agora que me assumi, não acredito como pude gastar tanto tempo e tanta energia me escondendo".
Tentando trazer essa discussão também para o futebol, o jogador francês Vikash Dhorasso, meio-campista da seleção francesa e do Paris Saint-German, decidiu abraçar a causa em defesa da homossexualidade, dando o seu apoio ao time Paris Foot Gay (PFG), primeiro time formado apenas por gays na França. Dhorassoo é heterossexual e tem dois filhos, mas, como é filho de imigrantes da Mauritânia, se solidarizou com esse outro grupo discriminado.
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`Metrossexual´ Beckham exibe tatuagem íntima para obter fundos para entidade.
Segundo o próprio, porém, só erguer a bandeira não é suficiente. "Talvez seja necessário que um jogador muito importante assuma a homossexualidade para acabar definitivamente com o tabu", disse o jogador em entrevista recente. "Terá de ser um ícone, um dos melhores jogadores do mundo, pois é fundamental estar numa posição forte para suportar as conseqüências. Só se pode avançar se for um grande ídolo a desbravar o caminho", acrescentou.
Na Inglaterra, clubes como o Stonewall FC ou o Brighton Bandits, totalmente compostos por homossexuais, disputam ligas amadoras e levantam a bandeira. Já no México existe uma Liga de Futebol Gay com cinco equipes de nomes fortes: Los Fuckers, El Clan, Tu Mamá, Fashion Team e Fuerza G. Um dos cuidados que os jogadores prezam é que os árbitros dos jogos também sejam gays para que exista uma melhor compreensão entre eles.
No ambiente profissional mesmo, só um jogador teve coragem de assumir em toda a história do futebol mundial sua homossexualidade. O inglês Justin Fashanu, que teve seu auge no Nottingham Forest, assumiu publicamente em 1990, e a tragédia que se sucedeu a esta revelação deixou marcas profundas no esporte. Fashanu, o primeiro britânico negro a ser transferido por mais de um milhão de libras, se enforcou em 1998 numa garagem, depois de oito anos de perseguição.
Os jornais tablóides são o principal motor da pressão homofóbica na Inglaterra. Nos últimos meses, por exemplo, publicaram insinuações sobre Joe Cole e Sol Campbell, ambos da seleção local. As publicações foram processadas pelos artigos. Anos atrás, quem sofreu foi Graeme Le Saux, ouvindo coros das torcidas rivais e provocações dos adversários e reportagens caluniosas. Quem escapou dessa pressão foi o dirigente Elton John. O milionário cantor pop investiu parte de sua fortuna no seu time do coração, o Watford, time do subúrbio londrino que está sempre oscilando entre a primeira e a segunda divisão local. Mesmo agora, quando já está afastado do clube, Elton John faz concertos no estádio para angariar dinheiro para o clube e é idolatrado pelos torcedores.
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Após posar para a Calvin Klein, o sueco Ljungberg elogiou consumidores gays.
Casos não faltam também na América do Sul. Quando dirigia a seleção argentina, Daniel Passarella disse que não toleraria gays no time e até mandou os jogadores cortarem o cabelo. No Brasil, o treinador Vanderlei Luxemburgo, do Santos, desmereceu a atuação do árbitro Rodrigo Cintra afirmando que o juiz o estava "paquerando".
Se sair do armário é algo ainda muito complicado, explorar a imagem em propaganda de tendências homoeróticas é mais fácil. Vários jogadores já entraram nesse nicho comercial. O inglês David Beckham, do Real Madrid, e o sueco Freddie Ljungberg, do Arsenal, não se importam em ser ícones do público gay.
Aqui no Brasil, os jogadores Vampeta e Dinei, além do goleiro Roger, já posaram nus para a revista G, voltada para o público gay, e nem por isso são taxados como tal. Roger enfrentou críticas internas no São Paulo pela iniciativa, mas conseguiu continuar com a carreira. Os estereótipos, porém, continuam, fazendo com que gays e lésbicas, em sua maioria, ainda se tranquem no vestiário.