UOL Esporte - Copa 2006UOL Esporte - Copa 2006
UOL BUSCA

19/05/2006 - 10h00

Sortudos arrumam as malas para assistir à Copa de graça

Ana Luisa Bartholomeu
Em São Paulo
Que torcedor brasileiro nunca se imaginou em um estádio completamente lotado para acompanhar de perto as partidas da seleção nacional em uma Copa do Mundo?

Ana Luisa Bartholomeu/UOL

O pedreiro Inácio ganhou uma viagem à Copa ao comprar um CD de R$ 19,50

Como o preço real para realizar esse sonho é alto demais para a maioria esmagadora dos mortais, recortar selos, mandar cartas, comprar aparelhos de barba e preservativos, efetuar compras com cartão de crédito ou mesmo bolar frases criativas podem ser boas estratégias para concretizar tal miragem. Mas, para ver o desejo vingar, o esforço de consumismo do torcedor precisa necessariamente de um golpe de sorte dos grandes.

Com a proximidade do início do Mundial, o jogo das promoções recebeu seu apito final. O prazo da Fifa para nomear os ingressos para a 1ª fase se encerrou no dia 10 de maio. Portanto, os felizardos que conseguiram superar a probabilidade de se dar bem nas promoções já carimbaram o passaporte rumo à Alemanha e estão com as malas prontas.

Para o pedreiro Inácio Rodrigues da Silva, "assistir à Copa pela televisão já é muito bonito, imagina ao vivo!". Segundo Inácio, "Deus me lançou um olhar especial no último dia 20 de dezembro de 2005". Ele passava pela avenida Paranaguá, próxima de sua casa de apenas três cômodos na zona leste de São Paulo, quando resolveu parar em uma loja para comprar o CD ao vivo de "Robério e Seus Teclados", um ícone do forró nacional e sucesso de vendas e fãs na periferia.

Como estava sem dinheiro no bolso, Inácio sacou o cartão de crédito da carteira e efetuou a compra de R$ 19,50. Mal sabia que estava, assim, confirmando sua improvável presença e a de mais três acompanhantes na Copa do Mundo, uma viagem que dificilmente poderia fazer com seu salário de R$ 800 - "em mês bom" - trabalhando como autônomo."Eu uso cartão há quatro anos só para parcelar as compras que não posso fazer à vista. Mas sempre pago a fatura integral, nunca o mínimo. Conheço um monte de gente que se endividou com os juros do cartão de crédito", conta o pedreiro.

Em janeiro, Inácio recebeu uma ligação da empresa organizadora da promoção comunicando o prêmio e, como de praxe entre ganhadores, não acreditou no que ouviu. "Lembro que a moça ficou pedindo os números do cartão e eu não queria dar, com medo de que fosse trote, que fossem clonar meu cartão, enfim, passou muita coisa pela minha cabeça, menos que eu tinha mesmo ganhado o prêmio", relata.

VESTINDO A "CAMISA"

Em meio ao caos instaurado em São Paulo na última segunda-feira, com atentados liderados pela facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) em diferentes pontos da cidade, a engenheira Christiane Pinto Baptista ainda teve tempo de receber uma boa notícia.

As cerca de quarenta embalagens de preservativo que ela e o noivo juntaram, com a ajuda de amigos e parentes, para concorrer à viagem para a Copa oferecida por uma fabricante do produto deram resultado. Os dois embarcam dia 10 de junho para assistir aos jogos do Brasil na primeira fase.

"Desde que soube da promoção, meu noivo teimou que queria ganhar, pois no dia 13 de junho, estréia do Brasil, é aniversário dele. E ele queria comemorar lá", explica a engenheira.

Christiane já foi liberada pela empresa em que trabalha para realizar a viagem, mas quando questionada pelos colegas sobre como ganhou o prêmio, ainda fica constrangida de contar. "Ainda mais por ser mulher, sinto que as pessoas acham graça quando falo que foi devido às embalagens da camisinha que ganhamos", conta.

Inácio conta que desligou o telefone muito desconfiado. Foi preciso receber um telegrama e um novo telefonema na semana seguinte para acreditar no que estava acontecendo. "Eu nunca ganhei nem rifa na época da escola, quanto menos viagem", disse, aos risos.

A viagem mais longa que o pedreiro de 42 anos fez na vida foi de ônibus até sua cidade natal - Oieiras, no Piauí. "Foram 48 horas de estrada. Não chegava mais", recorda. Andar de avião? "Nunca andei, mas não tenho medo, não.", disse com um sorriso amarelo, logo desmentido pela filha adotiva, Juliana, que o acompanhará na viagem. A esposa de mais de vinte anos, dona Tereza, não quis ir para não deixar a casa sozinha e por ter problemas nas pernas, o que fez com que Inácio convidasse mais um casal de amigos para acompanhá-lo. "Agora, vendo a arrumação de malas, me arrependi de não ir. Mas que Deus abençoe eles e que se divirtam", disse dona Tereza.

O pedreiro da Vila Paranaguá embarca para a Alemanha no próximo dia 20 de junho, com tudo pago. "Não sei bem o que vou encontrar lá. Só vi na televisão que não tem muito moreno lá, não. O povo é bem loiro, fala difícil e bebe bastante cerveja", conta.

Já a secretária executiva Rhingart Kaul sabe bem o que lhe espera. Descendente de alemães, Rhingart já visitou o país-sede do Mundial e conhece como ninguém os costumes do povo germânico. Ela ganhou a viagem para a Copa na promoção de uma grande editora nacional e disse que seu sexto sentido teve uma participação especial nessa história.

"Eu nunca prestei atenção nessas promoções, raramente participo. Mas alguma coisa me chamou a atenção nessa promoção desde o começo. Juntei os três selinhos e enviei uma única carta. Fui premiada logo no primeiro sorteio", conta, entusiasmada.

A alegria só aumentou quando seu nome saiu em algumas publicações e chamou a atenção de velhos amigos de faculdade. "Como tenho um nome incomum, muitos amigos das antigas descobriram que eu havia sido sorteada e me procuraram. Além de ir para a Copa, o episódio ainda me proporcionou bons reencontros", disse.

Ganhei uma viagem para a Copa saboreando uma suculenta picanha em um restaurante.

Nilmário Gomes Rosemberg, professor de português
Com o alemão fluente e na ponta da língua, Rhingart aguarda ansiosa pelo embarque no dia 19 de junho junto com a sobrinha, sua escolhida para acompanhá-la. "Acabei animando meus colegas de trabalho a participarem de promoções. Agora que viram que pode funcionar, todos estão mandando cartas, na tentativa de repetir a minha sorte".

A professora de artes Miriam Brusarosco, de Mogi das Cruzes, foi surpreendida por um recado em sua secretária eletrônica em um final de semana de abril. "A voz do outro lado da linha dizia apenas que eu era a ganhadora de um prêmio, mas não dizia qual". Aliás, ela nem sabia que se tratava de uma promoção de uma marca de lâminas de barbear. "Foi aí que minha filha me confirmou que tinha enviado duas cartas no meu nome, sem o meu conhecimento", explicou.

Miriam teve que esperar um final de semana todo passar para só na segunda-feira ligar na empresa e descobrir do que se tratava. "Quase enlouqueci, queria saber qual era o prêmio. Mal conseguia dormir", conta.

Quando soube, sua primeira reação também foi duvidar. "Não conseguia acreditar. Só quando li meu nome na revista é que a ficha caiu". Com a propaganda, também vieram as fofocas na cidade onde mora. "Muita gente já sabe, querem saber quando eu vou viajar, como eu ganhei, pedem para que eu traga fotos da Copa e tudo o mais. Fiquei famosa!", brinca a professora.

No último Dia das Mães, Miriam ganhou dos três filhos um kit torcedor, com direito a camisa customizada, bandeira e corneta nas cores do Brasil. "Pena que o prêmio é individual. Mas mesmo assim, sei que será uma viagem inesquecível".

A bancária Edna Schmitz, de Blumenau, Santa Catarina, tirou a sorte grande entre milhares de participantes da promoção de uma escola de inglês que tem o técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, como garoto-propaganda. E vai levar o namorado a tira-colo para assistir aos três primeiros jogos do Brasil ao vivo.

Arquivo Pessoal

Míriam e seu kit torcedor que levará para a Alemanha: "Pena que é individual"

Matriculada há seis meses na escola, Edna ficou tentada quando viu o cupom da promoção na unidade em que estuda. "Comecei a preencher na hora, mas esbarrei na frase que era pedida e resolvi levar para casa para completar com mais calma", disse, referindo-se à resposta para a pergunta "Como vou conquistar o mundo?" que precisou inventar. À noite, já em casa, Edna inventou a tal frase, mas depois quase deixou o cupom esquecido na bolsa.

"Fui depositar na urna só na semana seguinte, super descrente que pudesse ganhar. Quando me ligaram, ainda dei um fora, porque, uns dias antes, havia preenchido vários cupons em um posto de gasolina que também estava sorteando viagens para a Copa e pensei que fosse de lá", contou, sem graça.

Já para o professor de português Nilmário Gomes Rosemberg, viciado em livros e CDs, o prêmio veio após uma "picanha deliciosa com bolinho de mandioca". O sortudo foi premiado após consumir R$ 27 em um almoço e usar um cartão de crédito para pagar a conta. "Eu nem sabia da promoção. Ainda bem que a participação era automática, senão teria passado batido", conta.

Momentos felizes têm sido constantes na vida de Nilmário. "Nos últimos dois anos, passei em dois concursos públicos, me efetivei no trabalho e agora ganhei essa viagem. Quando me perguntam qual o meu segredo, digo que é estar sempre cercado de pessoas de bem com a vida, satisfeitas e que emanam energia positiva", afirma, dizendo não acreditar muito na sorte.

A preparação para sua primeira viagem internacional já começou, junto com a de seus três convidados, dois irmãos e uma amiga, que levará como acompanhantes. "Eu não contava com isso, é uma coisa fora das minhas reais possibilidades. Por isso, quero aproveitar tudo", conta. Um palpite? "Se me aconteceu isso, é porque o Brasil vai ganhar, é claro. Nada é por acaso".



SELEÇÕES