O Brasil só entra em campo na terça-feira, mas brasileiros fanáticos se reuniram em um bar na zona leste de São Paulo neste sábado para apoiar em peso a seleção de Costa do Marfim. Acho que faz mais sentido se enfatizarmos que o adversário foi a nossa eterna rival Argentina, que, para azar dos secadores, venceu. Apertado, mas venceu.
Ana Luisa Bartholomeu/UOL
O marfinense Philippe Serele gostou da "torcida brasileira" pelos africanos
Com torcedores fantasiados com máscaras no formato de trombas de elefante ("Os Elefantes" é o apelido da seleção africana) e camisetas de safari, o encontro "pró-Costa do Marfim" teve muita animação, comes e bebes, gritos de guerra contra a Argentina e até um torcedor marfinense de verdade. O encontro foi patrocinado por uma cerveja rival da marca oficial da CBF, aproveitando a rivalidade com os vizinhos e pegando carona no evento do adversário de mercado.
No local, Philippe Richardot Serele, 50, se dizia muito surpreso com a torcida voluntária dos brasileiros para a seleção africana.
"Somos um país com 16 milhões de habitantes. Mas acho que pelo menos hoje, temos o apoio de boa parte dos 180 milhões de torcedores brasileiros, mesmo que indiretamente. Só temos a agradecer", afirmou o consultor de comércio internacional que mora no Brasil há 17 anos.
Para Philippe, a Costa do Marfim pode mesmo surpreender na Copa. "É a melhor seleção africana, sem dúvida. Da década de 90 para cá, nosso futebol só tem crescido. Vamos ver como se saem hoje", disse, minutos antes de Crespo marcar o primeiro gol da Argentina.
Philippe disse que o estilo de jogo de sua seleção lembra bastante o do Brasil e essa seria a arma para tentar surpreender os hermanos. "Ainda vamos virar o placar. Temos uma forma alegre de jogar futebol, bom de jogar e melhor ainda de assistir", disse. Mas isso não conseguiu.
Em meio a tantas entrevistas, já que era o único marfinense presente no bar, Philippe se dizia constrangido com a comparação do seu povo ao animal elefante. "Já imitei o barulho do elefante em umas quatro entrevistas para a televisão. Foi horrível. Parecia mais o rugir de um leão", lamentou. Quando a Argentina marcou o segundo, com Saviola, Phillippe já não conseguia disfarçar o descontentamento.
Quem também entrou na brincadeira do elefante foi o garoto francês Valentin Bocali, de apenas 11 anos. Acompanhado dos pais, ele chegou ao bar carregando o álbum de figurinhas da Copa em uma das mãos. "Gosto de assistir aos jogos e ir consultando no álbum quem são os jogadores", explicou.
Já na outra mão, Valentin trazia um instrumento que necessitou de explicação. "Eu cortei uma garrafa pet e fiz tipo uma corneta para imitar o barulho do elefante nos gols da Costa do Marfim", disse o menino. No segundo tempo, quando Drogba marcou o único gol marfinense, Valentin pôde usar o estranho brinquedo.
Mesmo nascido na França, o garoto adotou o Brasil como seleção preferida e, tal qual os torcedores fanáticos daqui, incorporou a rixa com a Argentina. "Quero que eles saiam mais cedo da Copa para ficar mais fácil para o Brasil", brincou, sonhando ainda com um empate dos marfinenses. Que não chegou!
O economista francês Stephan Dubost morou por três anos na Costa do Marfim e também quis apoiar a seleção africana em sua estréia em Copas. "Vivi momentos muito bons naquele país e me sinto na obrigação de torcer por eles", disse.
Em seus três anos de Brasil, o economista explicou que pela primeira vez viu aqui uma manifestação qualquer em prol da Costa do Marfim. "Quando soube desse encontro, pensei que não poderia deixar de vir. Só podia ser por causa da Argentina mesmo. Mas não tem problema, acho válida a iniciativa de qualquer forma".
Ana Luisa Bartholomeu/UOL
Fábio Bronco fez questão de ir ao evento para torcer para a Argentina
Entretanto, a torcida oficial de Stephan vai mesmo para os "Bleus". "Assim como o Brasil, a França é uma forte candidata ao título. Se a final for contra os brasileiros, vamos ter a oportunidade de derrotá-los mais uma vez", disse, levando uma vaia dos brasileiros que ouviam a entrevista.
Como não poderia faltar, um estranho no ninho também estava assistindo ao jogo por lá. O diretor de arte Fábio Bronco foi o único a gritar, sem constrangimento, nos dois gols da Argentina, enquanto o bar todo se calava.
"Quando o Brasil não está em campo, eu torço mesmo para a Argentina. Acho essa rixa bem boba, para ser sincero. Sou um admirador do futebol deles desde criança e, claro, acho o Maradona muito mais craque que o Pelé", disse o "do contra".
Mas em uma final inédita entre Brasil e Argentina, é claro, o coração brasileiro falará mais alto. "Acho que será um jogo histórico e aposto em uma vitória do Brasil por 4 a 3", disse.