Com Portugal e sua antiga colônia, Angola, se enfrentando na Alemanha na tarde deste domingo, uma grande confusão de sentimentos rondou uma família com raízes e tradições portuguesas, razão angolana e emoção brasileira. Os "Mesquita" são moradores do bairro paulistano de Santa Cecília e reuniram-se para acompanhar o jogo que marcou a estréia de Angola em Copas do Mundo, com direito a bolinho de bacalhau, vinho do Porto e muitas histórias para reviver e contar.
Ana Luisa Bartholomeu/UOL
Paulo e os pais Alberto e Conceição; raiz portuguesa, mas torcida angolana
O eletricista Alberto Mesquita, chefe da família, nasceu em Portugal, mas saiu de lá ainda menino, aos oito anos de idade. Chegou a Angola com os pais e mais seis irmãos, na esperança de encontrarem por lá uma vida melhor. Brincou, estudou, cresceu e amadureceu na colônia portuguesa. Até jogou futebol na juventude, e de tão bom de bola que era, certa vez foi convidado para voltar a Portugal e integrar a equipe de base do Benfica.
"Meu pai, com seu fanatismo pelo Porto, achou o convite uma verdadeira ofensa e me proibiu de viajar", conta, hoje, aos risos. Foi também em Angola que Alberto conheceu sua companheira de mais de 34 anos, Conceição. Casaram-se em 1972 e tiveram um único filho, Paulo Ricardo.
Com a guerra civil na colônia africana, decorrente da Revolução dos Cravos em Portugal em 1974, que tirou do poder António de Oliveira Salazar e seus quase quarenta anos de ditadura ferrenha, a nova família se viu obrigada a deixar o país que tanto amava. "Existiam três partidos brigando pela independência de Angola. Mas antes de brigarem por esse ideal, brigavam entre si, o que ocasionou a morte de muita gente inocente", explicou Alberto.
"Foi uma época muito difícil e tínhamos um filho ainda de colo para criar. Não poderíamos ficar à mercê daquela violência. Queria criá-lo em paz", conta, emocionada Conceição.
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Companhia de vinho do Porto e bolinho de bacalhau para assistir à partida
Em um ato de desespero, Conceição deixou Angola em 1975 com o bebê nos braços e se refugiou em Portugal. "Meu marido estava sendo perseguido e convivíamos com a insegurança diariamente. De medo, nem saíamos mais de casa. Chegamos a ficar dias apenas a água e farinha. Supermercados foram saqueados, faltava comida, tinha gente morta pelas ruas. Um terror! Deixei tudo para trás, cheguei a Portugal com uma mão na frente e outra atrás", recorda.
O marido, Alberto, veio pouco depois, em outubro, apenas um mês antes da independência de Angola, que ocorreu no dia 11 de novembro de 1975. A independência foi o estopim da ampliação da luta pelo poder no país, que conviveu com uma devastadora guerra civil de 1975 a 2002.
A esperança do casal era de começar uma nova vida em Portugal, mas, surpreendentemente, não foram bem recebidos. "Nós não conseguimos nos estabelecer lá. Éramos vítimas constantes de preconceito, mesmo sendo nascidos no país", explica Alberto.
Sem ter para onde ir, a família recorreu às primas de Conceição que moravam no Brasil. "Como já esperávamos, fomos muito bem recebidos aqui. O povo é muito hospitaleiro e amigo, tal qual o de Angola antes da tragédia cair sobre nossas cabeças", conta Conceição.
DUELO LUSÓFONO
Após quarenta anos, a Copa do Mundo voltou a contar com um duelo entre duas seleções de língua portuguesa neste domingo, em partida válida pelo grupo D. A única vez que isso ocorreu foi em 66, quando Portugal venceu o Brasil, então bicampeão mundial, por 3 a 1 e eliminou nossa seleção ainda na primeira fase.
No Brasil, Alberto conseguiu emprego e Conceição voltou a costurar, atividade que desenvolvia no país africano. "Somos muito felizes aqui, mas meu coração ainda bate forte por Angola. Espero voltar para lá um dia", diz Conceição. O país, tal qual o Brasil, é rico em recursos energéticos, o que tem alavancado sua reestruturação, e anima Conceição. "Espero viver bastante ainda para voltar a ver tudo reconstruído", diz.
Nem mesmo os momentos difíceis que a família passou em Angola impediram a torcida pelos africanos no jogo deste domingo. "Estou torcendo muito por Angola. É um país que merece e vai se reerguer. Só sinto pelo Scolari ser o técnico adversário, e não a favor", disse Conceição, revelando simpatia pelo técnico brasileiro, mas não pelo time português. "Assumo que tenho mágoas daquele povo, mas não do país", explica.
"Estamos torcendo para Angola, mesmo com nossas raízes portuguesas e o favoritismo de Portugal. A guerra civil acabou há apenas quatro anos e eles já estão disputando uma Copa do Mundo. Temos que admirá-los", disse o filho Paulo Ricardo, hoje com 31 anos e engenheiro de computação.
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Mesmo com a derrota por 1 a 0, um brinde para lembrar a presença na Copa
Com a visibilidade na Copa do Mundo, Angola está podendo mostrar ao mundo, e principalmente a Portugal, que está conseguindo se levantar com as próprias mãos e que será um bom país para se viver. Não sei se o time vai longe na disputa, mas só de estar participando, já é uma grande vitória", completou Alberto.
"O jogo de hoje pode não ter sido o mais interessante em termos de futebol. Deu a lógica, com um placar magro de 1 a 0 para o favorito Portugal, que segundo os críticos, mostrou um futebol monótono e nada convincente. Entretanto, reviveu uma parte importante da história recente de ambos os países e mostrou que muita bola ainda tem que rolar para que todas as feridas sejam cicatrizadas.