A seleção angolana que disputa a Copa do Mundo conta com 21 atletas negros e dois brancos. A proporção é semelhante à verificada na população de Angola, na qual a grande maioria - cerca de 90% dos 11 milhões de angolanos - é da raça negra.
AFP
Angola, logo antes de pegar Portugal; à esquerda, João Ricardo e Figueiredo
Para conhecer um pouco mais dessa história, o
UOL Esporte buscou realizar uma entrevista com o goleiro João Ricardo e com o meia Figueiredo, os dois atletas brancos da equipe. A entrevista teria como pauta a relação entre brancos e negros no país e na seleção, a história de Angola, a visão que os angolanos possuem sobre Portugal, de quem foi colônia por quase cinco séculos... E, claro, a conversa traria uma pitada de futebol, expectativas quanto à Copa, o jogo de estréia diante da seleção lusa neste domingo - vencido por 1 a 0 pelos portugueses -, e como vêem o futebol brasileiro.
A conversa, contudo, não se realizou. Inicialmente, João Ricardo e Figueiredo se mostraram incomodados com o tema, de acordo com a assessoria de imprensa da seleção, e disseram que não dariam a entrevista. A pauta foi então melhor explicada, com a apresentação inclusive do contexto da questão racial no Brasil, com seus vários problemas e formas mais ou menos veladas de preconceito.
A argumentação, novamente segundo a assessoria de Angola, teria convencido os atletas a conceder a entrevista. Mas, após várias tentativas por e-mail e telefonemas para a Alemanha, combinados e desencontros, a conversa acabou por não ocorrer, ficando a impressão de que não interessa realmente aos jogadores falar a respeito.
A professora de História da África Contemporânea Leila Leite Hernandez, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, acredita que a negativa possa ter vários motivos, desde os mais históricos e políticos até outros mais esportivos. Autora do livro "A África na sala de aula: visita à história contemporânea", da editora Selo Negro, Leila conversou com o
UOL Esporte sobre a história de Angola e sobre a importância do jogo deste domingo diante de Portugal. Confira abaixo a entrevista:
UOL Esporte: Por que a senhora acha que os jogadores não deram a entrevista? O assunto racismo é um tabu em Angola? Leila Leite Hernandez: Eles podem não ter dado a entrevista por vários motivos. Primeiramente, é bom a gente registrar que você está ouvindo um jogador de futebol, que está disputando uma Copa, e que vai enfrentar Portugal. Não se pode extrapolar muito isso, transformar o jogo em um épico. São duas seleções que vão jogar um jogo de futebol no Mundial e ponto.
Também pode ter um lado de proteção ao país, de não ficar divulgando numa Copa as mazelas de seu país. Os jogadores podem não ter falado por isso, mas pode ser que não saibam mais a respeito também.
Por outro lado, no caso de Angola e Portugal, claro que os angolanos querem mostrar que são melhores que os portugueses. Imagino que deve ter um sabor muito especial para eles vencer a equipe do país que foi seu colonizador.
COLONIZAÇÃO E RACISMO
Assim como o Brasil, Angola foi colônia de Portugal. A forma com que a colonização ocorre em Angola, contudo, é diferente da verificada no Brasil. A colônia africana foi vítima de um processo de exploração - e não de ocupação - ainda mais violento que o brasileiro. O Brasil inclusive era o destino de boa parte dos escravos negros capturados em Angola.
UOL Esporte: Em boa parte, as questões ligadas ao racismo se sobrepõem à história de colonização de Angola. Os dois processos estão diretamente relacionados?
Leila Leite Hernandez: Os portugueses chegaram a Angola em 1482, contornando a costa africana à procura de escravos, metais preciosos e do caminho para as Índias [a colonização é efetivamente iniciada em 1491]. Nessa época, entram em contato com o Reino do Baixo Congo. A relação entre Portugal e Angola se inicia aí, uma relação fundada sobretudo no tráfico atlântico de escravos, que os integra economicamente.
A ocupação efetiva de Angola pelos portugueses se dá, porém, somente a partir de 1884/85. Até este momento, a relação girava primordialmente em torno do tráfico de escravos. O tráfico cresce de forma muito significativa do século 16 até 1850, quando começa a declinar.
UOL Esporte: A dominação, a relação colônia-metrópole é justificada de que forma?
Leila Leite Hernandez: O expansionismo do século 15 foi justificado inicialmente por motivos cristãos. Depois, os portugueses justificavam o trabalho forçado sob a alegação de que existia uma contrapartida: estavam levando a civilização aos africanos. A dominação ideológica, que justificava as demais dominações, se apóia em duas questões, o etnocentrismo e o racismo.
No final do século 19, após a perda do Brasil e o reconhecimento da independência, o interesse por Angola passa a crescer. Angola é alçada ao status de "jóia da coroa", com os portuguses acreditando que a colônia se tornaria auto-sustentável e até colaboraria com Portugal em épocas de crise.
UOL Esporte: No futebol, angolano e em geral, a senhora entende que o racismo se acentue ou seja atenuado por outras questões? Leila Leite Hernandez: Existe uma dimensão que é própria do capitalismo do esporte, em que o objetivo maior é formar um conjunto, um time que seja competente, em que não importa de onde o jogador venha. O objetivo maior é formar uma seleção competente, que tem como objetivo maior conquistar a Copa.
Existe um espaço democrático, na medida em que o futebol é um esporte de conjunto, um esporte coletivo, em que um precisa do outro - apesar de existir uma competitividade muito grande, diuturna, e com grandes diferenças em jogo. É um espaço das diferenças, que se pretende democrático, em que cabem às vezes certos dissensos.
UOL Esporte: Conversando com muitas pessoas que nasceram, vivem ou viveram em Angola, normalmente as avaliações apontam que não existe racismo no país. A análise está correta? Ou existe um racismo velado em Angola, como acontece em muitas situações no Brasil? Leila Leite Hernandez: Em Angola, existe um histórico de questões relativas ao racismo do branco quanto ao negro e do negro em relação ao branco. Mas são questões que se encontram difusas na sociedade como um todo. Da indepêndencia em 1975 até 2002 [
período em que Angola se encontra em guerra civil], forma-se toda uma economia de guerra, uma lógica da guerra, uma banalização da morte e da vida, de forma que essas questões apareciam de forma muito menos realçada, menos presente. O sentimento quanto à existência ou não do racismo acaba ficando difuso. Existe um bom convívio entre negros e brancos, mas existe esse sentimento difuso.
UOL Esporte: É algo semelhante com o que ocorre no Brasil? Leila Leite Hernandez: No Brasil, a postura aguerrida, militante dos movimentos negros vai desnudando, desmascarando a idéia da democracia racial e isso vem se refletindo e se consolidando com o trabalho de intelectuais, da imprensa.
Ao desmascarar a idéia da democracia racial, vai-se desmascarando uma idéia cara ao Luso-tropicalismo, que por sua vez é uma ideologia que pertence ao século 20, mas que tinha elementos presentes desde a colonização do Brasil - do colonizador português humanitário, sem preconceito etc.
No Brasil, está presente com mais força o racismo do branco em relação aos negros. Em Angola, existiu um racismo do branco em relação ao negro, imediatamente relacionado à colonização, e o racismo chamado "às avessas" por alguns autores, do negro em relação ao branco.
UOL Esporte: Existem episódios em que essas questões se manifestaram de forma mais violenta em Angola? Leila Leite Hernandez: No colonialismo todo, o branco exerceu pela força e por outras formas de coação seu racismo, expresso no Código do Indigenato, nos projetos de assimilação cultural. Os negros acabavam sendo forçados a uma busca por demonstrar que tinham valores próximos aos dos portugueses, foram impostas a eles migrações forcadas para a lavoura em outras regiões ou até outros países. A violência e o racismo nesta situação eram permanentes, a coação fisica também.
UOL Esporte: Como essas questões se relacionam com a independência de Angola? Leila Leite Hernandez: Portugal não queria de forma alguma discutir a independência angolana e de suas outras colônias africanas. Mas existia uma pressão muito forte em Guiné, depois em Moçambique... O MPLA (Movimento Popular da Libertação de Angola) adota então uma tática de guerrilha.
Em 1961, o governo do ditador Salazar [
António de Oliveira Salazar que ficou no poder por quase 40 anos em Portugal] revogou o Código do Indigenato para evitar o ascenso da guerrilha.
Mas ambas as coisas não deixam de existir. o movimento pela independência segue lançando mão de táticas de guerrilha e as práticas do código não desapareceriam de repente.
UOL Esporte: Em 1961 ocorre um conflito mais violento entre negros e brancos, não? Leila Leite Hernandez: Em 1961 há um ataque muito expressivo planejado em fevereiro, com vários grupos atuando com muita violência contra quem identificavam como colonizador e contra quem eles identificavam como próximos aos portugueses. É um episódio que chega ao noticiário internacional e é duramente debelado pelos portugueses. Neste ataque, uma série de grupos se sobrepuseram, com atuação intensa do MPLA, da FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) e outros.
UOL Esporte: Com a independência em 1975, quem chega ao poder? Leila Leite Hernandez: Foram declaradas três independências de Angola, pelos três movimentos [
MPLA, FNLA e Unita - União Nacional para a Independência Total de Angola]. Mas aquele que, vamos dizer assim, pela vocação pelo poder, acaba ficando à frente do Estado independente, é o MPLA.
Este movimento usou constantemente a questão do racismo - assim como do trabalho compulsório e da assimilação - como uma forma de cooptar as populações para participar da guerrilha de independência.
A violência simbólica, mais uma vez, não termina de um dia para o outro, com a independência, nem com o fim da guerra civil.