Ele mudou, e elas mudaram também. Mas Kaká e as kakazetes tiveram um reencontro de gala na Copa da Alemanha. O
UOL Esporte acompanhou a vitória sobre a Croácia com um grupo de fãs do meia que decidiu o jogo de estréia da seleção.
Ana Luisa Bartholomeu/UOL
Ao final da partida, Paula não resistiu à entrevista de Kaká sem camisa
"Ele é lindo, gostoso e faz gol, que é o que mais importa", analisou a kakazete Paula ao final da partida. A amiga Marina concordou. "Eu nem achava ele bonito, mas tenho que concordar que depois que cortou o cabelo... ficou um pecado", suspirou. Mais reticente, Fernanda sentencia: "Ele é o menos feio, vai."
Analisando o jogo, Paula achou que Kaká foi o melhor jogador em campo. "Ele é muito bom e está provando isso com esse gol". E a admiradora já emendou em elogios a sua figura: "Ele é tudo de bom. Perfeito. O mais bonito longe da seleção." Do resultado do jogo, Paula não gostou. "Só valeu por ter visto ele jogar mesmo", finaliza.
Do contra no grupo de adolescentes, Thaiane ousa criticar o jogador. "Ele tem cara de bobo e fica pagando de santinho", dispara. Ainda bem que Fabiana Ceoli, que já liderou um fã-clube do meia, não ouviu o comentário dela. "A admiração continua para sempre, mas agora sou mais comedida. Me contento ao vê-lo jogar pela TV, como hoje", conta Fabiana, 24, estudante de publicidade que trabalha em uma multinacional.
As fãs frenéticas daquela época amadureceram. O êxtase e a puberdade passaram. A distância aumentou. O Kaká de hoje não é o mesmo Kaká de 2002: a transferência para a Itália, ganhou outro físico, passou de reserva a titular absoluto na seleção, casou-se com Caroline Celico, filha da socialite Rosangela Lyra. E a febre pelo ídolo teen que infernizava o CT do São Paulo na época já não existe mais.
TEENS ANALISAM ASTROS
Cornetas, camisas do Brasil, pipocas, refrigerante e muita histeria. Assim as amigas Marina Nunes, Fernanda Schelp, Thaiane Lima, Paula Patari, Anny Carboni e Marina Sais, todas com idade entre 15 e 17 anos, assistiram à estréia do Brasil na Copa, longe dos pais, em um apartamento paulistano.
O efeito dos hormônios adolescentes foi sentido antes mesmo do jogo, com guerra de travesseiros e de tapas na nuca (o famoso "pedala, Robinho!"). Com a bola rolando, a falação era tanta que mal dava para distinguir quem falava o quê. Só se entende quando o assunto era os atributos físicos dos jogadores. Elas não perdoaram a maioria e só salvaram alguns integrantes da seleção -entre eles, claro, Kaká.
Era só Roberto Carlos ser focalizado para Anny demonstrar sua admiração pelo lateral-esquerdo. "As coxas dele são demais. Haja perna", apontava na tela da TV. A kakazete Paula discordou: "Já vi ele pessoalmente. Mal consegue fechar as pernas. É feio, desproporcional." Ronaldo recebeu tratamento menos digno, principalmente em sua substituição. "Sai logo, seu gordo", "nem pegou na bola", "ele já era!", berravam.
Como o jogo não empolgava, elas engataram um papo estético. Marina saiu em defesa de Adriano: "Ele tem um corpão e cara de homem. Ele está de matar." Já Ronaldinho foi classificado como camarão. "Só se aproveita o corpo", soltou uma delas. "Além de ruim, o Lúcio também é feio de dar dó. O Juan então, coitado", emendou Anny.
No final da partida, Fernanda clamava pela entrada de Juninho, para a surpresa das amigas. "Quem é esse?", riam as meninas. "É aquele que bate falta super bem", explica. O jogador não entra, e o jogo termina em vitória magra. "Vergonhoso", "deprimente" e "vexame!" foram os adjetivos mais leves. "Desse jeito vai ser difícil chegar à final", gorou Thaiane. Nessa hora, tudo parece feio para elas. Nem o galã Kaká é a exceção.
Na primeira Copa de Kaká, em 2002, Fabiana não perdeu um só jogo, na esperança de vê-lo jogar. "Nossa, como eu xinguei o Felipão. Para mim, o Kaká era o melhor e não admitia que ele não jogasse. Mas hoje eu vejo que não era a hora dele, como é agora", afirma, apostando no ídolo como o grande destaque deste Mundial. Para ela, fã de jogador de futebol tem que entender de futebol. "Eu sempre gostei de futebol e sei tudo sobre o esporte. Gosto do Kaká, antes de tudo, por ele ser um bom jogador. Não sou uma tiete qualquer, que só vai aos treinos e jogos para ficar gritando", alfineta.
Na próxima quinta-feira, dia 15 de junho, Fabi embarca para a Alemanha com o pai para assistir aos dois últimos jogos do Brasil na primeira fase. Depois de três anos, vai rever o ídolo, mesmo sem poder chegar tão perto. "Ainda não sei qual será a minha reação. Acho que vou gritar até ficar rouca, mesmo sabendo que dificilmente ele me escutará". Pelo menos, será uma forma de amenizar a saudade que sente daquele tempo.
Durante o jogo contra a Croácia, Fabi relembrou um pouco os tempos de CT. Vibrou, elogiou e criticou a atuação do ídolo. Na hora do gol, desabafou. "Ele está provando que não é só um rostinho bonito. Joga muito", dizia aos colegas de trabalho, ainda em estado de graça.
Agora, Fabiana tem uma vida atribulada, entre faculdade e trabalho. Mas há três anos, no auge de Kaká ainda no São Paulo, era ao redor do craque que sua vida passava, uma paixonite.
"Descobri o Kaká naquela final do Rio-São Paulo de 2001, contra o Botafogo, em que ele marcou dois gols e deu a vitória para o Tricolor. Comecei a pesquisar sobre ele e encontrava pouca coisa. Daí surgiu a idéia de criar o fã-clube. Foi o primeiro e o nome pegou", disse, referindo-se ao nome Kakazetes, adjetivo que mais tarde apelidou as fãs do craque. No auge, o fã-clube chegou a ter 6 mil sócias, em todo o Brasil.
"Eu tinha acabado o colegial e não estava trabalhando. Passava o dia na internet, pesquisando e coletando coisas sobre ele. Além disso, escrevia um diário, comprava tudo quanto era revista e jornal em que ele saía, decorava meu quarto com pôsters e ia aos treinos para tentar vê-lo", recorda.
Ver o ídolo de perto ela conseguiu poucas vezes. "Cinco", diz, precisa. Depois de escrever muitas cartas, ela achou que era chegada a hora de vê-lo de perto e pediu ajuda para a mãe dele, que conhecera por meio do fã-clube. "Consegui entrar na área reservada do CT e ficar perto dele por alguns minutos", relembra.
Ficou tão atônita que não conseguiu falar nada. "Eu só chorava e tinha ensaiado tanta coisa para falar para ele. Mas ele foi super atencioso comigo, nunca vou me esquecer. Guardo a foto que tirei com ele até hoje", recorda. E o amor platônico crescia: "Queria que ele fosse meu".
"Em um aniversário dele, pedi para as meninas do fã-clube que mandassem em uma folha sulfite uma declaração para ele. Recebi tantas cartas que, quando fui colar umas nas outras, a carta ficou com 100 metros!", afirma. E o melhor de tudo ainda estava por vir. "Ele me ligou pessoalmente para agradecer o mimo. Eu gravei a conversa e depois ficava ouvindo, viajando...".
A família apoiava a idolatria. "Meus pais, como bons são-paulinos, também têm grande admiração por ele. E minha irmã também achava ele uma graça. Ela ficava me levando para cima e para baixo atrás dele."
Ana Luisa Bartholomeu/UOL
Fabi mostrou que continua kakazete, mas a época do frenesi já era
Nessa época, Fabi não tinha namorado. "Acho que por que não tinha tempo para me dedicar. Minha vida era só Kaká e São Paulo", explica. Mas depois arrumou um bem compreensivo. "Só assim mesmo, pois eu não deixei de ser fã dele em nenhum momento". Mesmo elogiando o craque dos pés à cabeça - "ele é todo lindo!", o namorado não esboçava ciúmes.
Ela nega ser pela mudança do craque para a Itália ou pelo seu casamento com Caroline Celico. "É por falta de tempo mesmo, porque informação dele temos à vontade pela mídia". Mas o carinho por Kaká continua o mesmo, segundo ela, só um pouco mais discreto.
A paulistana Paula Patari Garcia, 16, também é uma kakazete assumida. Tem uma coleção de fotos, revistas e recortes de jornais que tratam de seu ídolo, Kaká. "Minha família ainda me ajuda nessa empreitada, pois tudo o que eles acham sobre o Kaká, acabam guardando para mim", conta.
O fanatismo de Paula pelo craque é também platônico. "Eu nunca o vi pessoalmente. Tentei ir ao CT do São Paulo uma vez, mas não consegui entrar. Desisti depois desse dia", recorda a frustração.
Paula se acha uma fã controlada hoje em dia, perto do que já foi. "Eu era mais fanática. Além disso, sonhava com ele direto. Hoje em dia, é uma admiração normal", compara.
A kakazete relembra com certa tristeza a época que o ídolo deixou o Brasil para jogar na Itália. "Eu assistia aos programas esportivos só para vê-lo nos treinos. Agora, fica tudo mais difícil. Não tenho paciência para ver o Campeonato Italiano. Acho chato, pois não conheço os jogadores", explica.
Paula confessa que bateu uma inveja quando Kaká se casou Caroline. "Quem me dera casar com ele. Mas ela é bem bonita, combina com ele", diz. Por curiosidade, Paula disse que passou com a mãe perto da igreja onde eles se casaram, no Cambuci, no dia do enlace. "Mas estava cheio de gente, não deu para ver nada".