Brasileiros e australianos se enfrentam no próximo domingo, às 13h, em uma partida que promete a briga pelo primeiro lugar do Grupo F da Copa da Alemanha. Fora isso, não há rivalidade nesse confronto, afinal, o país da Oceania tem pouca tradição na modalidade.
Arquivo Pessoal
O estudante Rodrigo Antenor foi espancado na Austrália no final de 2005
Mas o catarinense Rodrigo Antenor verá o jogo com sede de vingança. "Não vou esconder que gostaria que a surra fosse um pouquinho maior", declara o estudante que foi espancado na Austrália no Réveillon passado, teve que voltar para o Brasil e detonou uma onda de xenofobia em Gold Coast contra a comunidade brasileira (apareceram por lá pixações com os dizeres "Brazilians Out").
A Austrália é um dos destinos prediletos de brasileiros de classe média a alta em busca de cursos de inglês no exterior. Clima bem parecido, permissão de 20 horas semanais de trabalho para quem tem o visto de estudante e câmbio favorável são os atrativos da terra dos cangurus.
Esses fatores seduziram Rodrigo Antenor Nunes de Souza, de São José (SC), que embarcou em maio de 2005 rumo à Austrália. Tudo ia como o planejado. Estudos, amigos, ondas (ele é surfista) e até um trabalho de entregador de pizza para descolar uma grana. Ele experimentava a hospitalidade, segurança e estilo de vida descontraído dos australianos. Até se deparar com o episódio violento que lhe custou a volta para casa mais cedo.
No último Réveillon, Rodrigo, a namorada e mais dois casais de amigos foram à praia de Burleigh Heads, na cidade de Gold Coast, a cerca de 900 km ao norte de Sydney, para ver os fogos e curtir a passagem do ano.
Quando já voltavam para casa, por volta de meia-noite e meia, Rodrigo foi abordado por dois rapazes australianos que lhe pediram cigarros. "Aparentemente, eles estavam bêbados. Já chegaram me intimidando, pegando a minha carteira de cigarros. Eu respondi que não ia dar e já levei o primeiro soco na cara", contou Rodrigo.
Os amigos que acompanhavam Rodrigo apartaram o empurra-empurra em um primeiro instante, mas quando o brasileiro se levantou, juntaram cerca de 25 australianos ao seu redor e o agrediram violentamente.
Se eu não fosse estrangeiro, não teriam me batido tanto
Rodrigo Antenor Nunes de Souza, estudante brasileiro espancado na AustráliaO saldo foi bem negativo para o estudante brasileiro: várias escoriações pelo corpo, além de maxilar e dentes quebrados. Rodrigo acabou voltando para o Brasil, deixando muitos sonhos para trás.
"Prefiro acreditar que o aconteceu comigo foi mesmo um fato isolado. Em oito meses lá, não tive qualquer tipo de problema. Na minha opinião, a juventude australiana abusa da bebida e fica grosseira e intolerante por causa disso", explicou.
Entretanto, Rodrigo tem certeza de que se fosse australiano, a gangue não teria batido tanto. "Creio que fui vítima de preconceito. Mas não dá para generalizar e dizer que o povo é preconceituoso. É algo localizado, uma rixa entre alguns surfistas australianos e brasileiros", contou.
Rodrigo é torcedor fanático da seleção brasileira e não esconde a ansiedade pelo jogo contra a Austrália. "Gostaria de uma surra um pouquinho maior neles", disse, com a idéia de revanche no ar.
Os dados mais recentes do governo australiano sobre a comunidade brasileira na Austrália são os do censo de 2001 e indicam a existência de 4.650 brasileiros residentes, majoritariamente concentrados na costa leste, em cidades como Canberra, Melbourne, Brisbane e Sydney.
Embora ainda numericamente pouco expressivo num país com população superior a vinte milhões de habitantes, esse total apresentou crescimento de quase 40% em relação ao censo de 1996, o que mostra o interesse crescente dos brasileiros pelo país.
O OUTRO LADO DA MOEDA
A comunidade australiana no Brasil se equivale a brasileira por lá: aproximadamente 5.000 pessoas. Mas no lugar de estudantes, a maioria dos "aussies" por aqui é formada por executivos que passam curtos períodos no país.
Em São Paulo, são 350 australianos cadastrados pelo consulado. Boa parte deles se reunirão em um pub na zona sul da capital paulista.
A Austrália já tem fama em outros esportes, como rúgbi, cricket e natação, mas a esperança é que a Copa do Mundo desperte os australianos também para o futebol. "Será uma grande honra, um verdadeiro presente, enfrentar o Brasil. O mundo todo estará de olho nesta partida. A Austrália só tem a ganhar com isso", analisa o cônsul geral da Austrália no Brasil, Mark Argar.
O diplomata foi comedido ao dar um palpite sobre o placar do jogo. "Aposto no 1 a 1, que para nós seria como uma vitória", chutou. "Acho que vamos conseguir a classificação como segundo do grupo", diz, em tom de confiança.
Ele deu até uma dica para a seleção australiana de como tentar brecar Ronaldinho na partida de domingo: "Ele é um jogador que precisa de espaço para jogar e dar seus dribles. Por isso, é preciso marcá-lo forte e em cima, como uma sombra".
Mark comentou sobre a fatalidade ocorrida com o jovem catarinense Rodrigo Antenor na Austrália. "Assim como a maioria dos australianos, fiquei chocado. Mas foi um fato isolado e nada habitual. O relacionamento com os brasileiros é muito bom, assim como com os outros estrangeiros. Temos mesmo essa fama de hospitaleiros", contou.
A segurança é um dos principais pontos que norteiam a escolha. O caso de Rodrigo é visto como exceção pelas autoridades dos dois países, que descartam a xenofobia.
Segundo o cônsul-geral adjunto do Brasil em Sydney, Pedro Magalhães, "a comunidade brasileira goza de visibilidade modesta, com exceção de Sydney, principalmente nos bairros de Bondi e Manly, onde existe uma elevada concentração de brasileiros".
O aglomerado tornou comuns as rodas de capoeira, as academias de jiu-jitsu e as festas brasileiras organizadas em clubes. "Lá temos produtos típicos do Brasil, como guaraná, açaí, caipirinha, feijoada e pizza. Nos dois bairros, é expressiva a contratação de estudantes brasileiros como garçons, ajudantes de cozinha e entregadores de pizza", explica o cônsul.
"A comunidade é bem unida e reúne-se periodicamente nas festas organizadas pelo Brazilian Community Council of Australia (BraCCA) e no tradicional jogo de futebol aos domingos no "Brazilian Field", no Centennial Park, seguido de churrasco e cerveja", conta o diplomata.
O jornalista Eduardo Lira Lobo, 25, de Recife (PE), está na Austrália há um ano e meio trabalhando em um site voltado para estudantes brasileiros e, por enquanto, não tem previsão de volta para o Brasil. "Só se for para passar férias", disse.
Eduardo só reclama quando o assunto é Copa do Mundo. "A sensação que tenho é que estou perdendo o melhor da festa, que é a torcida no Brasil. Aqui na Austrália, apesar de quase todos os bares transmitirem as partidas, não existe um clima festivo, afinal o futebol está longe de ser uma paixão nacional", explica.
O interesse pelo esporte até tem crescido. "Essa participação da Austrália na Copa vai ser realmente um boom do esporte no país. Os australianos estão apoiando, apesar de saberem que não têm muitas chances de fazer bonito", afirma Eduardo.
O fuso horário entre os dois países também atrapalha. Afinal, são nada menos que 13 horas de diferença. A estréia do Brasil contra a Croácia foi às 5h da manhã na Austrália. Eduardo assistiu em casa, com a ajuda do despertador. "Já o jogo contra a Austrália, vou assistir numa festa brasileira onde instalaram um telão. Pelo menos dá para fazer uma farra com outros brasileiros. Para mim, será uma experiência diferente acompanhar a Copa longe de casa. Acho que vou torcer ainda mais para recompensar a distância", afirma.
Eduardo conta que todos estão certos de uma vitória do Brasil no confronto, até os próprios australianos. "Mas todo mundo sabe que no futebol tudo pode acontecer, ainda mais depois do surpreendente 3 a 1 que a Austrália conseguiu perante o Japão. Eles (os australianos) estão eufóricos. Espero que não dêem muito trabalho", disse.