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19/06/2006 - 11h00

Indiferentes trabalham, namoram e se exercitam no jogo do Brasil

Ana Luisa Bartholomeu
Em São Paulo
Não perguntem para eles se Ronaldo está gordo, se Dida falhou, se Kaká é o melhor ou se Ronaldinho ainda está devendo seu futebol de melhor do mundo. Afinal, eles aproveitam que o país está na frente da televisão para experimentar São Paulo (10,5 milhões de habitantes) como uma cidade-fantasma.

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O ajudante de obras Luciano trabalhou durante o jogo de olho na hora extra

Os motivos são muitos, mas a constatação é uma só: existe gente por aí que não liga a mínima para os jogos do Brasil na Copa. O vai-e-vem do carrinho cheio de areia e pedras conduzido pelo ajudante de obras Luciano Souza Dias, 26, quebrava a paisagem intacta e vazia em uma avenida Faria Lima às moscas durante o jogo entre Brasil x Austrália.

Luciano, que mora em Itapevi com uma tia e um irmão, não se importava que era domingo e que tinha jogo da seleção valendo vaga nas oitavas-de-final. A rotina de acordar às 5h da manhã e pegar trem e ônibus para trabalhar se repetiu. "Nem pensei no jogo. O importante é ganhar o dobro do que um dia normal", disse, referindo-se aos R$60 que vai embolsar pelo dia "extra".

"Esses jogadores já estão milionários. Eu não! Tenho que ralar muito ainda. E não é ficando em casa, rasgando seda para esses jogadores que vou conseguir algo. Eles não precisam de torcida. Só de dinheiro", finalizou, enquanto posava para a foto.

A calmaria anormal da cidade neste domingo encorajou o engenheiro Miguel Elian, 65, a pedalar sem rumo em pleno horário do jogo. "A cidade está um paraíso. Há muito tempo não via tudo tão tranqüilo assim. Finalmente, posso exercitar o corpo e a mente em paz. Vale o sacrifício", disse, referindo-se ao jogo.

O engenheiro gosta do futebol como esporte, mas conta que criou certa aversão à Copa do Mundo. "Tratar a Copa como a salvação do Brasil me deixa, no mínimo, preocupado. Tantos assuntos mais sérios a serem discutidos e as questões que regem o país são se o Ronaldo está gordo ou não, se vai fazer gol ou não", questiona. Essa indiferença é compartilhada com a esposa.

"TÔ NEM AÍ, TÔ NEM AÍ..."

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Miguel aproveitou para pedalarAna Luisa Bartholomeu/UOL
Giselle e Filipe namoraram no parqueAna Luisa Bartholomeu/UOL
Igor (esq) e Pedro preferem o skateAna Luisa Bartholomeu/UOL
Widsol gosta de desenho na TVAna Luisa Bartholomeu/UOL
Pedro é batizado na hora do jogo

Com as ruas vazias, o lucro do ambulante Luiz Carneiro de Souza, 55, caiu. Vendedor de milho cozido no parque Ibirapuera, seu Luiz achou por bem trabalhar mesmo sabendo que o dia seria ruim. Tudo para fugir da solidão. "Pelo menos não fico sozinho em casa", explicou, emendando que deixou a família em Paracuru, Ceará, em 1976, e desde então, só voltou para lá uma vez "e faz tempo".

Exatamente na hora em que os jogadores entravam em campo, seu Luiz separava as espigas e colocava a água do caldeirão para ferver. "Copa é prejuízo para mim. Mas se o resultado for bom e deixar o povo feliz, eu também fico satisfeito".

Namorar também foi uma boa desculpa para não assistir aos 2 a 0 do Brasil sobre a Austrália. A administradora Giselle Macedo, 27, e o engenheiro Filipe Castro, 27, aproveitaram o domingo em São Paulo para matar as saudades.

Ambos de Recife, eles estão aprendendo a conviver com a distância desde que Giselle foi transferida para Indaiatuba, interior de São Paulo, a trabalho, em maio deste ano. Aproveitando o feriado prolongado, Filipe veio visitá-la, e o jogo do Brasil foi jogado para escanteio sem qualquer impedimento.

"Prefiro minha namorada a onze homens correndo -e mal- atrás de uma bola", enfatizou o engenheiro, descrente de uma boa campanha do Brasil na Copa. O resultado magro do primeiro jogo ajudou para que optassem por uma boa caminhada no parque na hora do jogo. "O time está muito fraco, aquém das expectativas. Viemos namorar que ganhamos mais. Está faltando energia e garra para esse jogadores ", cobrou Giselle, em meio a beijos e abraços do namorado.

A doméstica Rosana Pianta, 36, também escolheu curtir o dia de folga sem badalação. "Na casa em que trabalho, os patrões chamaram um monte de amigos e armaram a maior folia para o jogo. Eu saí antes que sobrasse serviço para mim", contou, ainda no caminho "para sei lá onde", aos risos.

Mas disse que não deixaria de torcer pelo Brasil, mesmo não sabendo bem contra quem a seleção jogava. "Tomara que vença por 3 a 1 a Croácia... é Croácia, não é?", perguntou, com ar desconfiado.

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Seu Luiz saiu para trabalhar mesmo sabendo que o lucro seria bem menor

O equívoco até tem explicação, afinal Rosana também não assistiu à primeira partida, esta sim contra a Croácia. "Fiquei fazendo faxina na hora do jogo. Deu só para escutar o gol do Kaká", disse, aí sim, mostrando-se bem-informada.

Para ela, futebol na TV só serve para atrapalhar o horário das novelas. "Fico com raiva quando tem jogo de quarta-feira e a novela acaba mais cedo", confessou.

Os estudantes Igor Pereira, 16, e Pedro Silva, 17, preferiram andar de skate a assistir a atuação dos Ronaldos e cia. O motivo? "Futebol só serve para entreter o povo e fazer com que as pessoas se esqueçam dos problemas", sentenciou Pedro.

"Nunca gostei de futebol. Prefiro esportes radicais. E não gosto desse circo que armam em volta da seleção. A mídia vende que o Brasil só tem isso de bom. É para ficar revoltado", disse Igor, com discurso parecido.

Não satisfeitos em não assistir, os dois garotos ainda torcem contra. "Prefiro que a Argentina ganhe. Estão jogando muito melhor que o Brasil e sem esse estrelismo que enche o saco", disse Pedro.

"A única coisa boa de Copa é que não tive aula na terça e também não terei na quinta", disse Igor.

O quicar da bola amarela de Widsol Silva Amaral, 7, enganava a verdadeira paixão do garoto. "Sou louco por desenho animado", confessou. Estava explicado porque enquanto o Brasil jogava, ele brincava no parque Ibirapuera praticamente vazio. "O meu pai está assistindo ao jogo e depois vai me contar como foi. Eu prefiro brincar", disse.

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Cícero não perdeu o bom humor com a falta de freguesia na hora do jogo

A mãe, Maria de Lourdes Amaral, 37, aproveitou o domingo para sair com o filho. "Nunca tenho tempo, então resolvi sair com ele pelo menos hoje. Assim, fugimos da baderna da vizinhança", disse, referindo-se ao foguetório na zona Leste em dia de jogo.

Já o casal Humberto Quintal e Maria Cláudia de Lucca resolveu batizar o pequeno Pedro Henrique, de quatro meses, às 14h de domingo, na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, zona sul de São Paulo.

"Quando marcamos a data, sinceramente nem lembramos que havia jogo. Mas quando descobrimos, também não fizemos questão alguma de mudar. Existem coisas bem mais importantes no mundo", disse Humberto, enquanto ninava o filho.

Enquanto o Brasil todo aguardava o final da partida e a vitória que garantiria a classificação para a próxima fase, o ambulante Cícero Sirino Pereira, 60, vendia algodão doce nas proximidades na avenida Brasil como faz há mais de 10 anos. Questionado se sabia da partida entre Brasil x Austrália que acontecia naquele horário, retrucou.

"Saber que está jogando, eu sei. Mas sei também que se eu não vender meu algodão, não tenho comida em casa. Vai um aí?", perguntou, e sem desanimar com a resposta negativa, saiu cantarolando Asa Branca, de Luiz Gonzaga, com voz rouca e desafinada.

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