Qualquer boteco tem sua televisão em cima da geladeira das cervejas. E com futebol (europeu e brasileiro) quase diariamente passando nela há anos, todo frequentador já virou mais especialista no assunto que muito comentarista contratado de TV. "Ronaldinho está muito preso na seleção porque ele joga no Barcelona mais na frente", solta o vendedor Francisco Moura, cotovelo no balcão. "Hoje, o time está mais solto, com mais movimentação", sentencia o pedreiro João Neves.
Rodrigo Bertolotto/UOL
Pessoal do carteado não se entusiasmou com o primeiro tempo contra o Japão
Há também os narradores de boteco. "Vai dentinho, passa prá aquele maluco na ponta. Isso. É nossa, é nossa. Dá pro Kaká, meu" é a descrição de uma jogada de ataque de Ronaldinho. A reportagem do
UOL Esporte deu uma volta para conferir como se torce nos bares populares, em todas suas variações -boteco, botequim, pé-sujo, pé-prá-fora, birosca, sujinho, pega-bebum ou como preferir.
A região é o largo da Batata, área congestionada por paradas de ônibus, ambulantes e ainda mais convulsionada pela construção do metrô em São Paulo. Sobre o vidro do mostrador e seus quitutes (torresmo, bolovo e coxinha), operários deixam seus capacetes de segurança e aproveitam a pausa no trabalho. "Esse time do Japão é enjoado. É embaçado. O goleiro deles é bom que só a porra", analisa um deles.
Vem o gol do Japão. "O Dida tava olhando o telão do estádio", brinca seu Sérgio, ambulante. "Acabou o cabaço da seleção", traduz outro conviva sobre o primeiro gol tomado no Mundial. O chapeiro se enche de pessimismo: "O Brasil não vira, não". Surge Zagallo na tela do televisor: "Com esse time, esse cabra ainda morre". O cartaz diz que as "bebidas alcoólicas somente após às 10h da manhã", e o balconista vai direto ao assunto: "Vai mais uma cerveja, chefia?"
Nem todos no boteco estão vidrados com o futebol. Dois senhores botam sem parar moedinhas nas máquinas de caça-níqueis do bar. Rodam bananas, maçãs e laranjas e caem moedinhas de vez em quando. "Isso só me dá prejuízo, mas não consigo parar", confessa um deles. Na calçada, outro par joga tranca, mostrando que o vício deles é por outro jogo.
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Apostadores de caça-níqueis de bar viram a partida pelo canto do olho
Nas paradas de ônibus, só mulheres esperam os poucos que passam. Na pastelaria comandada por uma família chinesa, poucos frequentadores, afinal, a TV é pequena e o sinal está ruim. Os pais se mostram indiferentes. Já o filho imigrante, tocando uma corneta verde-e-amarelo, vai se aclimatando ao país.
Em outro boteco, porém, cada ângulo é disputado para ver o jogo. O Brasil não marca, e os clientes se distraem. Passa uma morena. "Essa é seleça." Passa uma jovem mãe puxando a filha pelo braço, e um deles filma de rabo de olho:
- A filha é tua, mano - brinca o amigo.
- Não tenho filha loira, não - emenda o outro.
Quem já encerrou o expediente bebe cerveja. Os que vão voltar para o batente toma café ou coca. Sai o gol de empate de Ronaldo antes do intervalo, e o empate motiva um brinde especial.
- Ô, corintiano, traz um saquê.
- Não tem isso aqui.
- Então, traz um rabo de galo e um filé miau.
O atendente mistura pinga e cynar e serve. Depois da talagada, o cliente solta seu comentário sobre a volta do Fenômeno: "Sempre disse que o problema de Ronaldo está fora de campo. É chifre" A gargalhada é geral. A zueira está instalada. Um torcedor toca uma corneta no boteco apertado. "Pare com isso, filho de uma jumenta", grita um incomodado.
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Fachada de bar do largo da Batata em frente a terminal de ônibus urbano
Para acalmar os ânimos, o dono da birosca abaixa o volume da TV e coloca um CD do romântico Leonardo. "Esse aí tá apaixonado", brinca o caixa.
Começa o segundo tempo, e, em outro botequim, o garçom se movimenta para deixar os copos cheios. Coloca uma garrafa na mesa e já vai abrindo. "Pera aí. É uma cerveja por gol da seleção", interrompe o cliente segundos antes de sair o desempate dos pés de Juninho. "Agora, pode abrir", ordena para o garçom. Entusiasmado, olha para o lado e dispara para um senhor sem dente mas com um apito na boca: "Vai lá, tiozão, apita impedimento do japonês."
Os gols e os goles se multiplicam. Mas os críticos não arredam pé do balcão. Ronaldo não chega em um lançamento e vem o grito: "Corre morto desgraçado. O Parreira parece que trabalha no funerária: só escala morto, carai." Ronaldinho é substituído, e ninguém lembra que ele esteve em todas as boas jogadas do Brasil. "Sai, Satanás", berra um. "Sai, lixo", sentencia outro.
O jogo termina, começa a comemoração, mas as câmeras focalizam um contrariado Zico, o técnico do Japão. "Não tem que ter pena dele, não. Ele que se lasque. Tá ganhando dinheiro dele no Japão", filosofa um freguês. Enquanto os jogadores saem de campo e vão para os vestiários do estádio de Dortmund, os torcedores saem dos botecos e invadem os ônibus para destinos como o Jardim Macedônia, Guaraú, Arpoador, Umarizal ou Arariba.