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28/06/2006 - 09h00

UOL adverte: Copa do Mundo pode causar problemas cardíacos

Ana Luisa Bartholomeu
Em São Paulo
Já no primeiro rojão do dia surge a palpitação. O jogo começa e a pressão sobe. Se a decisão vai para a prorrogação ou para os pênaltis, lá vem a suspeita de infarto. Se praticar esporte faz bem ao coração, assistir a futebol pode fazer muito mal -só falta o aviso de prevenção.

Ana Luisa Bartholomeu/UOL

José chegou ao hospital com pressão alta e ficou de castigo durante o jogo

A reportagem do UOL acompanhou o jogo entre Brasil e Gana no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, afinal, os casos de ataques aumentam em época de Mundial. Na Copa de 1998, os ingleses tiveram um aumento de 25% nas internações após a eliminação do "English Team". No Mundial de 2002, houve um aumento de 60% dos casos na Suíça, mesmo com a seleção de lá não participando. Agora em 2006, médicos alemães fazem um levantamento mais rigoroso para medir o perigo do futebol para os cardíacos.

Enquanto o Brasil todo torcia por um gol nacional, os enfermeiros do pronto-socorro do HCor torciam para que não aparecesse nenhuma emergência. "Só assim podemos dar aquela espiadinha", explica o coordenador de enfermagem Antonio Cláudio de Oliveira.

Mesmo sem poder parar o serviço, eles se revezam na frente de uma televisão de 14 polegadas instalada em uma sala de pouco mais de 3m². Num entra-e-sai frenético, tentam acompanhar a partida, mesmo com a atenção dividida com os cinco pacientes sob observação nas salas ao lado.

Entre eles está o encanador José dos Santos Rodrigues. Hipertenso, diabético e portador da doença de Chagas, seu José chegou ao hospital cinco minutos antes da partida com a pressão altíssima (18 por 10). "Passei treze dias internado. Saí ontem, feliz que iria ver o jogo do Brasil em casa, com a família. Mas a dor no peito e a falta de ar voltaram a me perseguir hoje", conta, ainda ofegante, na maca.

"Nem quiseram me colocar em uma sala com TV para que minha pressão não subisse ainda mais. Estou de castigo. Vou ter que me contentar com os gritos dos funcionários", reclama.

AGÜENTA CORAÇÃO

Ana Luisa Bartholomeu/UOL
Prancheta na mão e olhos no jogoAna Luisa Bartholomeu/UOL
Torcida uniformizada no hospitalAna Luisa Bartholomeu/UOL
Broches verde-amarelos no jalecoAna Luisa Bartholomeu/UOL
Detalhes patrióticos da enfermeira

E não demora muito para se ouvir o eco do primeiro gol brasileiro. Ronaldo marcou logo aos 5min, para a vibração de seu José: "Foi o gordo? É, os gordinhos estão bem na fita!"

A animação dos enfermeiros contrasta com a torcida contra de Elthon Scariel Dias, técnico em tecnologia, que chegara ao hospital com incômodo no peito e repousava na sala de observação: "Quero que Gana vença, porque o Brasil só engana."

Na mesma sala, mas do outro lado da cortina, ouve-se a lamentação do gerente Carlos Eduardo Gouvêa. "Azar ter me acontecido isso justo hoje, a esta hora. Não poderia ter sido um pouco mais tarde?", questionava.

"Comecei a sentir uma forte dor de cabeça e minha pressão subiu bastante. Resolvi procurar ajuda", explica. Se não tivesse passado mal, Carlos estaria assistindo ao jogo na empresa. Tem que se contentar com os comentários dos enfermeiros que por ali passam.

Única a não ocupar uma maca na sala, a vendedora Edileide Monteiro dos Santos acompanha o marido sentada, lendo uma revista. "Hoje não estamos acompanhando o jogo, afinal a saúde vem em primeiro lugar", afirma Edileide, com olheiras de quem desde cedo acompanhava a via-sacra de exames do companheiro.

Os sintomas descritos não apareceram devido a emoção com o jogo do Brasil, mas o cardiologista César Jardim avisa que a ansiedade e o nervosismo decorrentes de jogos decisivos podem provocar variações bruscas de pressão e taquicardia nos torcedores com coração mais frágil.

Ana Luisa Bartholomeu/UOL

Pacientes na sala de observação do hospital não assistiram ao jogo

"A maioria dos pacientes chega ao hospital com os sintomas descritos: pressão alta, arritmia cardíaca, dor de cabeça, desconforto no peito e falta de ar. Parada cardíaca e infarto do miocárdio são mais raros. Mas já vi, por exemplo, um torcedor do Palmeiras ter um infarto em uma final de Campeonato Brasileiro. E olha que o Palmeiras ganhou, hein!", conta Jardim.

Vestidos com as cores da bandeira nacional, o casal Ana Maria Perez e Marcos Aristeu respira aliviado na recepção. Não só pelo segundo gol do Brasil, marcado por um Adriano impedido e de joelho, mas porque a cirurgia da filha Marina para corrigir um estreitamento na aorta havia sido bem sucedida.

"Como ela está na UTI e não podemos vê-la, vamos aproveitar para assistir e torcer um pouco no segundo tempo. Assim, quando for liberada a visita, contamos os detalhes do jogo a ela", diz Ana Maria.

Enquanto no pronto-socorro havia só uma TV pequena em uma salinha, no hospital funcionários e doutores apinhavam-se no anfiteatro com telão, deixando para trás uma tranqüilidade incomum pelos corredores.

Ana Luisa Bartholomeu/UOL

Cardiologista já viu torcedor infartar de emoção em jogo do Brasileirão

"Fazemos, em média, 50 ou 60 atendimentos por dia só no pronto-socorro. Na última semana, com o caso do Bussunda, chegamos a 130, o que é atípico. Em compensação hoje, até o término do jogo (por volta das 14h), tivemos apenas seis ocorrências. E nenhuma de gravidade elevada", afirmou o atendente Émerson Luís da Silva.

O baixo índice também se deve ao placar positivo e elástico para o Brasil. "Se o jogo fosse mais difícil, este número poderia ser maior, com certeza", explicou o enfermeiro Antonio Cláudio, acrescentando que no emocionante jogo entre Portugal e Holanda, no domingo, três portugueses deram entrada no pronto-socorro com males cardíacos.

"Estavam, inclusive, vestidos com o uniforme de Portugal. O coração deve ter sofrido muito, pois chegaram aqui com arritmia e pressão alta", contou Antonio.

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