São os minutos finais do Brasil na Copa. Um torcedor morde a unha, mas a rodinha ao lado, embalada por um triângulo, cerca um casal que dança forró. O jogo acaba e, meio minuto depois, começa a contagem regressiva para o show do cantor carioca Latino no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo.
TRISTEZA ANIMADA

Torcedor e seu cachorro desfilam com óculos escuros em bicicleta

Sombra, Bin Laden e Black Power festejam com torcedoras loiras

Garotos ensaiam coreografia durante show após a derrota

Meninas dançam, e, ao fundo, torcedor chora sentado no chão

Garotas se divertem no show de Latino após o fiasco esportivo
Não há mais espaço para a dor, para a tristeza. A mesma cena de festa após o fracasso do hexacampeonato se repetiu em pelo menos mais duas áreas da cidade. Todas essas festas patrocinadas por grandes empresas não previam cancelamento em caso de fiasco nacional. Na zona Sul, no evento montado por uma marca de refrigerante, quem cantava era a pop Paula Lima. No Jockey Club, a animação era por conta do funkeiro MC Leozinho e os pagodeiros do Jeito Moleque.
"Vamô sair do chão, quero as mãos prá cima", grita Latino. Um grupo de garotas, de calça branca e barriga de fora, obedecem. O vinho licoroso passa de mão em mão, garantindo uma felicidade barata. Um quarteto masculino ensaia uma coreografia de rodopios para a música "Festa do Apê". O cantor continua sua atividade de psicólogo em massa: "Gente, a vida continua, e a festa é aqui." Duas meninas dão passos para frente e para trás e, ao fundo, um torcedor chora sentado no chão. A namorada consola, depois desiste. Ele apóia a cabeça no queixo e olha fixo para a seu copo de cerveja pousado no chão. "A seleção dançou, vamos dançar também", grita um baladeiro. "Hexa já era", brinca outro.
Os tristes estão nos cantos, enquanto os festeiros se aglomeram diante do palco. Passa um bêbado: "Parreira sem vergonha. Deveria ser preso." Aos poucos, aparecem no meio do povo os indignidados.
Esbravejam o vendedor de cerveja e o catador de latinha, as botas pontas da cadeia de consumo. "Esses jogadores deviam jogar na seleção da Espanha, eles vivem lá, jogam lá", argumenta o vendedor. "É isso aí. Tinha de colocar só os que jogam no Brasil, tá ligado?", concorda o catador.
Uma torcedora se aproxima dos policiais que fazem a ronda e pede: "Moço faz um B.O. que roubaram o futebol do Brasil". Outro torcedor desconta a frustração dando um murro em um cesto de lixo e acaba detido pelos PMs.
Um cantor, auto-intulado Black Power, desfila com um cartaz propagandeando seu CD novo e grita sem parar: "Não, não, não pode ser". O desespero teatral reúne um grupo que finge chorar aos prantos, para logo depois dar gargalhadas com a cena.
Aparece um sujeito fantasiado de Bin Landen, abraçado com uma versão tupiniquim de Carlitos, com chapéu coco e gravata. Abraçam garotas que dançam. Surge outro torcedor folclórico. Chega em uma bicicleta toda decorada com as cores nacionais, tendo na garopa um poodle com capacete e óculos escuros. "Você quer ver como o Bike Dog faz embaixadinha. Ele chega a manter a bexiga um minuto no ar", diz antes de encher o balão e soltar para o cãozinho dar focinhada nela e se perder na multidão e no vapor dos carrinhos de milho cozido e do churrasco.
Essas mesmas festas já tinham programado shows para os jogos das semifinais, esses sim devidamente cancelados. Lulu Santos estava escalado para o Vale do Anhangabaú. A banda Kid Abelha tocaria no Jockey Club. Todos foram desmobilizados, como a banda Olodum, escalada pela Globo como amuleto pós-jogo da seleção. Ainda bem que a Justiça eleitoral proibiu os "showmícios" dos políticos -caso contrário, o clima de festas continuaria mais alguns meses.