UOL Esporte Fórmula 1
 
01/05/2009 - 07h04

Senna na F-1: a era de ouro com o tri na McLaren

Leopoldo Godoy*
Em São Paulo
Dono de seis vitórias na Fórmula 1 e terceiro colocado no Mundial de Pilotos em 1987, Ayrton Senna alcançou o primeiro de seus objetivos na categoria ao assinar com uma das potências do esporte: a McLaren.

O acordo ainda veio acompanhado de uma parceria imbatível formada no final dos anos 80, que teve a companhia de Alain Prost e dos motores Honda. Porém o sucesso da equipe transformou a dupla em "rivais" na pista, com os dois disputando acirradamente os títulos nos três anos seguintes.

Relembre abaixo como foi o período de ouro de Senna na F-1, que veio acompanhado da histórica rivalidade com o piloto francês.

UM ANO DE GLÓRIA
Pierre Cleizes/AP
Senna e Prost iniciam convívio de forma amigável na McLaren em 1988
SENNA NA TOLEMAN E NA LOTUS
DIVÓRCIO COM McLAREN E O FIM
1988 - O brasileiro iniciou com tudo na McLaren, sendo pole no Brasil. Mas ele não pode largar, pois foi desclassificado antes da luz verde por ter trocado irregularmente de carro. O vencedor, ironicamente, foi Prost. O primeiro êxito do brasileiro veio na segunda corrida, em San Marino, onde também fez a pole.

Na prova seguinte, em Mônaco, Senna relata sua primeira experiência mística ao volante. "Era como se eu tivesse em um túnel, sobre trilhos. Fiquei vulnerável", afirmou o piloto, que viveu na mesma prova uma de suas maiores decepções, quando bateu sozinho a 12 voltas do fim, jogando fora uma vantagem de quase 50s para o segundo colocado.

Depois disso, Senna reagiu de forma notável com seis vitórias e dois segundo lugares nas provas seguintes. Quando o campeonato já parecia decidido, o brasileiro ficou três provas fora do pódio, Prost venceu duas e o campeonato embolou. O brasileiro tinha 79 pontos, e o francês, 90. A vantagem, no entanto, era de Senna, pois o regulamento previa que os pilotos precisavam descartar cinco de 16 resultados, o que fazia com que Prost perdesse 18 pontos, enquanto Senna descartava apenas quatro.

Se vencesse no Japão, Senna liqüidaria a fatura ali. O começo foi promissor com a pole position, mas na largada a McLaren deixou o brasileiro na mão. Senna deu dois trancos no carro e conseguiu sair, mas já era o 14º colocado. Ele iniciou uma impressionante recuperação, virou em oitavo no final da primeira volta, superou mais dois na volta seguinte e já era o quarto na quarta volta. Na 28ª volta, Senna ultrapassou Prost, assumiu a liderança e seguiu na frente até o fim para garantir seu primeiro título.

O POLÊMICO TAPETÃO
Pierre Cleizes/AP
Balestre explica desclassificação de Senna, que ameaça deixar F-1
RELEMBRE A TRAGÉDIA DE 94
APÓS SENNA, F-1 FICA SEM MORTES
A TRAJETÓRIA DE SENNA EM FOTOS
1989 - O ano da polêmica. A amizade com Prost acabou definitivamente logo no segundo GP do ano, em Ímola. Senna, largando na pole, manteve-se na liderança até a quarta volta, quando Berger sofreu um acidente na fatídica Tamburello. A Ferrari do austríaco pegou fogo e a prova foi interrompida. Na nova largada, Senna saiu mal e Prost assumiu a ponta na Tamburello. Na curva seguinte, a Tosa, Senna ultrapassa Prost e parte para a vitória. Prost reclama, dizendo que foi superado na primeira curva da volta após a largada, desconsiderando a Tamburello.

Senna venceria novamente em Monte Carlo e no México, para entrar depois em uma seqüência de quatro provas sem pontuar. Voltaria a vencer na Alemanha e na Bélgica. Prost venceria na Itália para se manter na liderança. Em Estoril, um dos episódios mais polêmicos do ano: Mansell foi eliminado da prova por ter dado ré nos boxes, não aceitou a bandeira preta e se manteve na pista por três voltas. Mansell só pararia ao bater em Senna. "Ele me jogou para fora propositalmente", diria o piloto da McLaren sobre o "Leão" após o incidente.

Com a vitória no GP da Espanha, Senna chegou às duas últimas provas com 16 pontos de desvantagem em relação a Prost. Tudo poderia acontecer. Senna, no entanto, precisaria chegar pelo menos em segundo para levar a decisão do título para a Austrália, mas o Mundial acabaria no Japão. Em Suzuka, Senna largou mal da pole, e perdeu a ponta para Prost. O "pega" entre os dois durou até a 47ª volta, quando o brasileiro tentou a ultrapassagem em uma chicane e apostou na retração de Prost. O francês não freou e a colisão foi inevitável.

Prost abandonou o carro e sorriu, confiante no título. Mas o brasileiro não se deu por vencido: pediu o apoio dos fiscais da prova e contornou a chicane por dentro, de volta à prova. Venceu, mas não levou. O então todo-poderoso da F-1 Jean-Marie Balestre desclassificou Senna, afirmando que o brasileiro não poderia ter cortado a chicane no seu retorno à pista. Além da derrota, Senna foi suspenso por seis meses, pena que só não se concretizou porque o brasileiro acabou concordando em pedir desculpas.

O BICAMPEONATO EM 1990
Jorge Araújo/Folha Imagem
Senna inicia 1990 sem esquecer o polêmico desfecho do ano anterior
Silvio Viegas/Folha Imagem
Após ser campeão, brasileiro anda de jet ski em Angra dos Reis-RJ
BRASIL PERDE ATÉ DE ALONSO
EXPOSIÇÃO EM SP PARA O PILOTO
1990 - Com atraso de um ano, chega o bicampeonato. Prost, novamente, é o rival, agora na equipe Ferrari. Senna vence logo de cara, no GP de Phoenix, e ensopa o algoz Jean-Marie Balestre de champanhe no pódio. Dividindo a equipe com o austríaco Gerhard Berger, Senna consegue seis vitórias (EUA, Mônaco, Canadá, Alemanha, Bélgica e Itália) e dez poles.

A prova do Brasil seria realizada, pela primeira vez na era Senna, em São Paulo. De volta a Interlagos, onde deu as primeiras voltas com o kart, Ayrton confiava na vitória. Os torcedores levaram ao autódromo faixas com ofensas impublicáveis direcionadas a Balestre, mas quem venceu foi Prost, com Senna em terceiro. O brasileiro venceria em sua prova predileta, em Mônaco, quando afirmou ter tido mais uma experiência extrassensorial.

No meio da temporada começaram as negociações para o próximo ano. Senna foi sondado por Frank Williams, que nunca escondeu sua admiração pelo brasileiro. Quando o título já tomava forma, Senna anunciou que ficaria pelo menos mais um ano na McLaren.

Senna e Prost chegaram a Suzuka novamente como únicos candidatos ao título. O francês, desta vez, precisaria vencer para levar a decisão para a última prova, na Austrália. Mas o brasileiro não quis esperar o final da corrida para levar o título. Largando na pole, mas do lado sujo da pista, foi ultrapassado por Prost. Os dois partiam para dividir a primeira curva, e Senna deu o troco. Ele não freou e a colisão, outra vez, foi inevitável. Os carros foram para a caixa de brita e Senna era bicampeão.

A ÚLTIMA CONQUISTA NACIONAL
Jorge Araújo/Folha Imagem
Com o número 1, Senna enfim quebra o tabu e vence o GP Brasil
Reuters
Abandono de Mansell em Suzuka dá o tricampeonato para o brasileiro
1991 - Tricampeão. Senna leva, mais uma vez no Japão, seu terceiro título em quatro anos. Até então, o tri era a consagração, ele se igualava ao compatriota Nelson Piquet e a Alain Prost, Niki Lauda e Jackie Stewart - faltava só o pentacampeonato do argentino Juan Manuel Fangio.

A temporada começaria com quatro vitórias consecutivas. A segunda, finalmente, no Brasil. Senna ganhou e empolgou o público em São Paulo, em prova que completou apenas com a sexta marcha. Com o esforço feito para completar a prova, mal conseguiu erguer o troféu no pódio. A tão esperada vitória no Brasil só poderia ser daquela forma, quase heroica.

O ano do tri teve sete vitórias (EUA, Brasil, San Marino, Mônaco, Hungria, Bélgica e Austrália) e oito poles. Quando não ganhou, Senna foi mais comedido e abandonou o estilo "vencer ou bater", conseguindo pontos importantes. Quando chegou ao Japão, Senna só perderia o título se Mansell vencesse e ele não chegasse em segundo. Neste caso, os dois iriam empatados para a Austrália.

Berger disparou na frente, deixando Senna em segundo com a tarefa ingrata - embora justa, pois o maior beneficiado seria ele mesmo - de segurar o inglês. Na décima volta, forçando ao máximo para alcançar o brasileiro, Mansell foi parar na caixa de brita da segunda curva. Senna era tri. O brasileiro avançou para ultrapassar Berger e seguiu na ponta até a última curva, quando foi convencido por Ron Dennis a dar a vitória para o companheiro de equipe.

* Texto publicado originalmente no décimo ano da morte de Senna

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