No mesmo estádio, jogo de várzea recebe dez vezes mais público que partida profissional

Bruno Doro
Do UOL, em São Paulo

  • Milton Flores/UOL Esporte

    Arquibancada coberta do Nicolau Alayon no sábado (19/5), em jogo do Nacional

    Arquibancada coberta do Nicolau Alayon no sábado (19/5), em jogo do Nacional

No último fim de semana, o estádio Nicolau Alayon, em São Paulo, recebeu três partidas. Na primeira, no sábado, o Nacional, tradicional time do bairro da Barra Funda, perdeu para o Suzano por 2 a 1, pela terceira rodada do Campeonato Paulista da Segunda Divisão. O público foi de apenas 202 pessoas.

  • Estádio Nicolau Alayon no sábado, com pouca torcida, e no domingo, com torcida da várzea

No dia seguinte, o futebol de várzea mostrou que pode ser mais popular do que o profissional. Em duas partidas da Copa Kaiser, a principal competição do futebol amador de São Paulo, o estádio do Nacional recebeu pelo menos 2.000 torcedores. Fenômenos como esse se repetiram por outros campos de várzea pela cidade.

"O futebol de várzea resgata a paixão pelo futebol de verdade. No profissional, não existe identificação. O cara chega, recebe o salário no fim do mês, não se esforça. Aqui, na várzea, isso não acontece. O cara tem o contato com a torcida, é cobrado e elogiado. E o sentimento de que o time é seu é maior", explica Lincoln Silva, diretor do Noroeste da Vila Formosa, que fez o jogo de fundo da rodada e acabou derrotado pelo Tiradentes, da Vila Curuça, por 1 a 0.

Apesar da derrota, os torcedores do Noroeste compareceram em peso ao Nicolau Alayon. Quatro ônibus saíram lotados da Vila Formosa, com as duas torcidas organizadas do time: a Bonde Loco e a Nação Vermelho e Branco. Na arquibancada, bandeiras e instrumentos musicais, que sempre marcam presença nas partidas.

"Hoje, viemos apenas com quatro ônibus porque dependemos das empresas. Não temos dinheiro para alugar, então pagamos só uma ajuda de custo. E as empresas cedem quantos ônibus podem no dia. Em jogos mais distantes de nossa casa, dependemos disso. Mas em jogos mais importantes, já trouxemos até oito ônibus", completa Lincoln.

 

Em campo, o nível das duas partidas não ficou muito diferente do jogo profissional do dia anterior. Graças ao investimento das equipes para disputar a Copa Kaiser, os principais times da competição contam com atletas que poderiam, ainda, jogar entre os profissionais.

O Leões da Geolândia, que já foi campeão do torneio, fez a primeira partida do domingo e venceu por 1 a 0 o Apache, do Parque Vila Maria. O destaque do jogo foi o meio-campista Luiz Carlos, que há poucas semanas disputava o Campeonato Brasiliense. Aos 37 anos, e com preparo físico em dia, ele ainda procura uma equipe para defender no segundo semestre.

No Noroeste, o atacante Fabinho é jogador profissional, contratado do Deportes Salvio, de Honduras, e está em férias no Brasil. Os dois são apenas exemplos entre os vários atletas que entraram em campo com potencial para defender uma equipe profissional.

"Em Honduras, o futebol tem um bom nível. Na técnica, eles não são tão bons, mas a parte física é muito boa. Mas é claro que tem alguns times na Copa Kaiser que são melhores que os times de lá. O Noroeste, mesmo, é melhor", explica o atacante, que joga na equipe porque cresceu no bairro de Vila Formosa.

 O caso de Fabinho mostra como, no futebol de várzea, a identificação dos jogadores com o time é maior do que no profissional. Outro exemplo disso é o atacante Rildo, do Vitória, da Bahia. O jogador, que chegou a ter seu nome especulado no Santos e no Palmeiras, foi formado na escolinha do Noroeste. E estava lá, no domingo. "Jogamos ontem em Barueri. E, como estou em São Paulo, não poderia deixar de acompanhar o Noroeste".



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