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Arapiraca tem mais de duzentos mil habitantes e é uma cidade simpática, sem grandes pobrezas. Pode-se dizer que é uma cidade horizontal. Quase só há casas, e os raros prédios não passam de três andares. A única construção imponente é a cruz da igreja.
No rádio, quase todas as propagandas são com músicas, algumas bem engraçadas. Aliás, pelo que vi e ouvi no jogo, o arapiraquense é um sujeito bem humorado. E gosta muito de futebol. Os jornalistas locais dizem que o estádio quase sempre enche, chegando a uns oito mil de público. No domingo, porém, como o time havia perdido a final do Alagoano, os torcedores estavam meio chateados e só dois mil apareceram. Aliás, "só", não. Isso é 1% da população da cidade, o que equivaleria a casa cheia em São Paulo ou Rio. O estádio O Estádio Municipal Coaracy da Mata Fonseca é simpático. Os vestiários são modestos, o campo estava meio enlameado (o sistema de drenagem tem 30 anos) e parte da arquibancada é provisória. Mas os banheiros são limpos, há um Museu dos Esportes pequeno mas bem cuidado, e dois grandes espaços para barracas de comida ao lado das arquibancadas. Aliás, no Nordeste, a parte gastronômica do futebol é bem mais variada que no Sul. A comida Ontem quem quisesse comer alguma coisa poderia escolher entre cachorro-quente com carne moída, caldo de cana, pastel, um bom acarajé, pipoca (com manteiga de garrafa), picolés (sem papel de embalagem, só no palito), milho cozido, castanha, amendoim, espetinhos de churrasco (o alimento mais procurado), uvas, mexericas e laranjas, que eram descascadas numa interessante engenhoca. Armado com um enorme cacho de uvas brancas (apenas R$ 1,00), sentei-me na arquibancada para ver o jogo. Por conta de uma lei estadual, lá também há que se executar o hino nacional antes das partidas. O jogo Os primeiros minutos foram de total domínio do ASA, que dava a impressão de que iria golear o Petrolina. Mas era o dia do goleiro Genílson (que jogou o primeiro semestre pelo ASA). Depois de 15 minutos o ASA arrefeceu seu ímpeto, mas continuava com mais posse de bola. A coisa ficou assim, no domínio estéril, até que, aos 32, Eridon, o zagueiro central que já está há quatro anos no clube, acertou uma falta perfeita no ângulo de Genílson. Depois disso, o Petrolina desanimou e o ASA teve algumas chances para fazer o segundo, o que não acontecia por conta do saltitante Genílson. Porém, aos 44, pênalti para o ASA. Jairo, o camisa 10, correu com classe para a bola, deu a paradinha para o goleiro cair e chutou no meio. Mas Genílson não caiu no truque da paradinha e defendeu. Um sujeito à minha frente fingiu que ia atirar o rádio no campo, mas se conteve e riu para o amigo do lado como se dissesse: "Imagina que eu ia jogar o meu rádio fora." Falando em rádios, eles são um sucesso em Arapiraca. Muitos torcedores, mas muitos mesmo, usam o aparelho. Outra coisa curiosa é que muitos vão ao jogo de bicicleta. E entram com elas no estádio. Alguns, mais afeiçoados, assistem ao jogo inteiro sobre as bicicletas. Voltando ao jogo, no segundo tempo, o jogo ficou mais equilibrado, mas as melhores chances foram do ASA. E todas acabaram nas luvas de Genílson. "Por que você não jogava assim quando estava aqui?", gritou, para o goleiro, um torcedor que estava do meu lado. De qualquer forma, o ASA venceu e os jogadores devem ter voltado alegres para casa. Naquele final de tarde de domingo, o modesto ônibus do clube devia ser o lugar mais feliz da cidade. |
percorridos desde São Paulo
de gasolina gastos no seu possante
mordidas em refeições e lanches
Lar, doce lar
Os quilos que ganhei