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Bezerros é uma cidade pequena e simpática. De longe parece uma cidade como tantas outras. Parece, mas não é.
Começa pelas casas, onde há algumas tão bem conservadas que parecem cenário de filme. Mas não pára por aí. Em Bezerros ficam ainda dois lugares cheios de coisas bonitas: O Centro de Artesanato de Pernambuco e o Memorial J. Borges. Porém, peço licença ao leitor para, antes de falar bem destes lugares, dizer uma ranhetice sobre artesanato. Acho que, em geral, o que se vê de artesanato por aí não chega a ser arte. É mais um jeito de ganhar um dinheiro, de se ocupar, de sobreviver. Para chegar a ser arte, creio que o artesão tem que demonstrar pelo menos duas destas três qualidades: grande domínio da técnica, invenção e alma. E isso vale tanto para o artesanato popular quanto para a literatura, o cinema ou o teatro. A maioria das rendas, estatuetas e quadros que são vendidos nas feiras populares não têm nem uma destas três coisas. São mais terapia ocupacional ou complementação de renda. Porém, às vezes há artesãos que chegam a um grande domínio da técnica, inventam novas linhas, novas curvas, e a alma transborda de seus trabalhos. Esse é o caso da maioria das peças que estão no Centro de Artesanato, um belo museu no km 101 da BR 232. Ali estão as pequeninas figuras de Marliete, tida como a melhor escultura em barro do mundo, as carrancas de Petrolina, os leões cacheados de Tracunhaém (seres bizarros que misturam macacos, leões e ovelhas), as figuras tristes e alongadas de Sertânia e até uma rara Maria-grávida-de-Jesus. O Centro é um passeio surpreendente, que vale a pena. As guias são muito boas e explicam as características das peças com leveza, sem serem chatas ou muito longas. Ainda por cima, há uma boa loja grudada ao museu. Aliás, ela deve ser evitada por quem está com dinheiro contado, como era o meu caso. Entrei ali com 230 reais e saí apenas com os trinta. Se tivesse trazido minha mãe e algumas tias, teria que vender o carro. Seguindo pela mesma pista por 9 km, chega-se ao Memorial J.Borges. J.Borges é a encarnação da literatura de cordel. Mais ou menos como Pelé para o futebol ou Machado de Assis para a literatura. Começou esculpindo colheres de pau para vender nas feiras, mas com o tempo passou a escrever cordéis e, principalmente, a fazer xilogravuras para ilustrar suas histórias e a de outros. Ia de feira em feira, de cidade em cidade, e alguns de seus trabalhos logo se tornaram sucessos de venda, como "Pavão Misterioso", um clássico, e "O dia em que a prostituta foi para o céu", uma história politicamente incorreta em que uma prostituta vai parar no céu e conhece biblicamente vários santos, que até brigam por ela. J.Borges ficou ainda mais famoso quando foi descoberto por Ariano Suassuna e fez ilustrações para "A pedra do reino". Então misturou o sucesso popular ao erudito e tornou-se o mais conhecido ilustrador de cordel do país. Ainda vivo, com 72 anos, ele agora prepara um museu sobre seu trabalho. Mas não deixa ninguém dar uma olhada antes de tudo ficar pronto. Quando cheguei ao Memorial, um de seus filhos (ele teve 18, dez morreram) me informou que J.Borges estava tirando uma soneca. Uma soneca que demoraria ainda duas horas. Fiquei na dúvida: Seria certo pedir para acordá-lo? Deveria esperar as duas horas? A segunda opção era impossível, porque aí pegaria estradas ruins e desconhecidas à noite, e então os leitores não teriam o texto de amanhã sobre Treze x Santa Cruz (RN). Quanto a acordá-lo, me pareceu uma profunda grosseria. Acabei gastando meus últimos trinta reais numa xilogravura e em alguns cordéis, e fui embora. Mas, garanto aos meus três leitores, durante esta viagem ainda volto lá e pego o homem acordado. |
percorridos desde São Paulo
de gasolina gastos no seu possante
mordidas em refeições e lanches
Lar, doce lar
Os quilos que ganhei