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Fiquei muito mal impressionado quando vi o estádio municipal de Itabuna. Por fora ele não é exatamente bonito, tanto que pensei que seria o pior estádio da viagem. Mas não. Por dentro ele está em condições bem melhores, apesar de só ter metade das arquibancadas construídas (e o resto do terreno é, em boa parte, um barranco, o que lhe dá um ar interiorano).
O time tem uma folha de pagamento razoável. Segundo Luiz Santana, diretor de Futebol Profissional, o salário médio gira em torno de 2,5 mil reais, e o time gasta 74 mil reais por mês. Para este jogo, a torcida está ansiosa. É uma partida decisiva. Se o Itabuna perder, está matematicamente fora do campeonato. Se ganhar, fica a apenas um ponto do Sergipe. Para alegria geral, dessa vez o técnico Ferreira (campeão baiano com o Colo-Colo em 2006) resolve colocar o xodó da torcida, o driblador Neto Berola, desde o começo da partida, e não apenas no segundo tempo, como vinha fazendo. Começa o jogo e o domínio é todo do Itabuna. Com cinco minutos, ele já perde uma boa chance. É então que, olhando para as arquibancadas, vejo que há várias camisas do Flamengo. Várias, não. Muitas. E resolvo falar com a turma que está com o manto rubro-negro. Uma vez Flamengo... Paulo, 39 anos, cobrador de ônibus, diz que é mais Flamengo que Itabuna, e justifica: "O Itabuna tem hora que tá bem, tem hora que tá mal. O Flamengo é diferente, é time de nível nacional. Mas eu gosto do Itabuna também, tanto que tô aqui." O time da casa continua pressionando e, aos onze minutos, uma cabeçada raspa a trave esquerda. Luiz Gustavo, 31 anos, professor de Educação Física, diz: "O Flamengo é uma paixão do meu tempo, da era de 80 e 90, quando eu comecei a gostar de futebol. E o Itabuna também não tinha essa tradição que tem hoje." Aos quinze minutos, mais uma chance perdida. A torcida organizada do Itabuna não desanima. São apenas uns 30 adolescentes, mas eles cantam, xingam e fazem coreografias. Logo depois, aos dezoito minutos, um jogador do Itabuna cai na área e a torcida pede pênalti. Pede, mas não é atendida. Falo com mais um rubro-negro-alvi-anil. Claudionor, 41 anos, eletricista, é Flamengo desde pequeno. "Na minha família é tudo Flamengo, menos meu pai, que é Vasco. Quer dizer, era, porque agora ele é crente." Vinte e quatro minutos. Mas um jogador do Itabuna cai na grande área. A torcida pede pênalti outra vez. E outra vez não tem seu desejo satisfeito. Bruno, 30 anos, vendedor de calçados, diz que é flamenguista e itabunense. "Mas sou mais Flamengo, porque o time tem tradição, tem raça, e os torcedores são muito fanáticos." Aos 25', outro gol perdido pelo time da casa. E vejo entrarem no estádio, com atraso, o pequeno Rafael e seu pai. Rafael, que acabou de fazer nove anos, nem pensa duas vezes quando lhe pergunto o porquê de ser flamenguista: "É que o Flamengo é campeão!". O curioso (e, de certa forma, triste) é que seu segundo time é o Milan, o terceiro é o Manchester United e o Itabuna vem só em quarto lugar. O tempo não pára Aos 27', outro jogador da casa cai na área. Em vão. Aos 30'e aos 33', novos chutes a gol. Para fora. As chances perdidas são muitas. A torcida começa a ficar impaciente. O narrador José Hamilton usa e abusa de seu bordão: "O tempo é cruel, o tempo não pára!" Para piorar, aos 34', o Sergipe faz um bom e raro contra-ataque. Os torcedores já começam a pensar no pior. Mas eis que, aos 42', Lei faz um gol legal e tira o zero do placar. E, aos 44', Diego Aragão marca de novo. O primeiro tempo, que já assumia contornos fúnebres, termina com o festivo placar de 2 a 0 para o Itabuna. No intervalo, aproveito para checar as guloseimas locais. Encontro três tipos de amendoins (salgado, doce e cozido), pipoca, churrasco, cachorro-quente e um apetitoso acarajé, feito na hora (se meu médico não estivesse lendo isto, eu diria que ele estava ótimo). Começa o segundo tempo. O Sergipe volta menos retrancado. O Itabuna já não domina com a mesma facilidade. Mesmo assim, aos 15', Neto Berola perde um gol. E não é o primeiro. O xodó da torcida é substituído, e ela não reclama. Vejo uma dupla rubro-negra completamente uniformizada: Zé Carlos, fiscal de transporte, 52, e Tiago, 9. O pequeno Tiago diz que o melhor jogador do Flamengo é Obina. Do Itabuna, não sabe o nome de ninguém. No campo, Diego Aragão vem sendo o melhor do jogo. Ele começou a carreira como volante, mas no Baiano passou para a lateral-direita. E foi considerado o melhor do campeonato. Na arquibancada, Bruno, meu leitor-guia, conta que a torcida flamenguista na cidade é tão grande que no último Estadual anteciparam um jogo do Itabuna para sábado porque Flamengo e Botafogo fariam a final no domingo. O jogo vai chegando ao fim. Aos 39'e aos 41', mais duas grandes chances desperdiçadas pelo time da casa. Com um pouco mais de pontaria, o Itabuna poderia ter goleado. Os trinta componentes da Torcida Jovem fazem lamentosos "Uhs" a cada gol perdido. E, aos 44', soltam um pesaroso "Oh...". Numa bobeada da defesa e do goleiro, o Sergipe diminui para 2 a 1, um gol que pode ser muito importante na classificação final. Os últimos minutos são tensos. O empate seria trágico. O Sergipe consegue dar um chute, mas a bola acaba nas mãos do goleiro. O árbitro apita o fim da partida. A torcida vai para casa ver o jogo do Flamengo que, por ironia, perderá para o Vitória. Pelo menos neste domingo, o Itabuna deu mais alegrias que o rubro-negro. |
percorridos desde São Paulo
de gasolina gastos no seu possante
mordidas em refeições e lanches
Lar, doce lar
Os quilos que ganhei