É só a seleção brasileira ou algum clube do país jogar na Bolívia e o assunto volta à tona: a altitude. Relatos de atletas passando mal e até desmaiando, outros reagindo normalmente, dominam o noticiário esportivo. Na viagem a La Paz para cobrir a partida do Brasil pelas eliminatórias sul-americanas, resolvi sentir na pele os efeitos de correr atrás da bola 3.600 metros acima do nível do mar.
REPÓRTER SE AVENTURA NA ALTITUDE
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Antes do jogo, um chá de coca, tradição local boliviana para ajudar na respiração, e sem doping
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O cansaço bateu rápido, e jogar no gol foi a solução para recuperar as energias do repórter
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Com o tempo, o corpo se habituou à altitude e, após o descanso forçado, o fôlego voltou ao normal
Nada de dores de cabeça, falta de ar ou sangramento no nariz. A experiência totalizou cerca de uma hora, em um campo pequeno no centro da capital boliviana, e cansei mais rapidamente do que o normal. Por isso, fui obrigado a ir para o gol e recuperar um pouco as energias. Depois retornei e parecia estar mais adaptado.
Antes de aceitar o desafio, ouvi palavras pouco incentivadoras dos brasileiros. Ainda em São Paulo, quando coloquei o tênis de futsal e o meião na mala, meu pai disse: "acho melhor você levar um tubo de oxigênio também." No avião, um colega de imprensa contou uma experiência de outro repórter que quase desmaiou e teve de descansar assim que desembarcou.
Por isso, rolou aquela ansiedade ao deixar o avião. "Será que vou passar mal também?", pensei. Desci na pista do aeroporto e caminhei normalmente, sem nenhum sintoma.
Com a população local, o diálogo foi diferente. Contei ao taxista que queria participar de uma 'pelada' para conhecer os efeitos da altitude, e ele respondeu: "não acontece nada, é tudo psicológico."
No hotel, o garçom brincou: "quem não gosta da altitude são os argentinos." Na última vez que os
hermanos estiveram em La Paz, perderam por 6 a 1 para a Bolívia, em abril, goleada que orgulha os torcedores.
O mesmo garçom me convidou para jogar com os funcionários do hotel na manhã seguinte. Minutos antes de entrar em campo, tomei o famoso chá de coca, bebida tradicional no país andino por ajudar na respiração, segundo a cultura local.
É o mesmo chá que Zetti bebeu em 1993 e fez com que ele fosse flagrado em exame antidoping com resultado positivo para cocaína. Na época, o ex-goleiro da seleção convenceu as autoridades de que a substância proibida estava no chá e ficou livre da suspensão. No meu caso, não existia esse risco.
Cansei com 10 minutos de bola rolando e fiquei mais atrás, enquanto os demais voavam em campo. Arrisquei ir ao ataque algumas vezes e marquei um gol. O problema era voltar quando errava o lance.
Outro fato perceptível é que a bola fica mais leve. Alguns passes e lançamentos saem mais fortes do que o calculado.
Atuar como goleiro foi a solução encontrada, já que não trouxe o balão de oxigênio recomendado pelo meu pai e utilizado pelos atletas profissionais. Como meu time tinha um reserva, também fiquei alguns minutos no banco.
Retornei com mais fôlego, me arrisquei no ataque e marquei mais dois gols. Não que eu tenha sido o artilheiro, até porque foram muitos gols em toda 'pelada', e a maioria dos bolivianos em quadra não demonstrava muita afinidade com a bola.
Quando o corpo mostrava-se mais ajustado ao ambiente, uma equipe que aguardava do lado de fora invadiu o campo e acabou com a partida. Restou a impressão de que eu aguentaria mais uns 10 ou 20 minutos.
Na saída, os bolivianos me convidaram para tomar um suco e perguntaram: "e aí, você está bem?" Respondi que sim, e José Maria, meu colega de 'elenco', esbravejou: "está vendo. Não tem nada demais. Quando os outros times vêm aqui e perdem, culpam a altitude. Quando ganham, ninguém fala nada." A população teme que a Fifa proíba jogos oficiais em La Paz.
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