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10/10/2009 - 07h00

Na base do chá de coca, repórter do UOL encara 'pelada' na altitude boliviana

Carlos Padeiro
Em La Paz (Bolívia)
É só a seleção brasileira ou algum clube do país jogar na Bolívia e o assunto volta à tona: a altitude. Relatos de atletas passando mal e até desmaiando, outros reagindo normalmente, dominam o noticiário esportivo. Na viagem a La Paz para cobrir a partida do Brasil pelas eliminatórias sul-americanas, resolvi sentir na pele os efeitos de correr atrás da bola 3.600 metros acima do nível do mar.

REPÓRTER SE AVENTURA NA ALTITUDE

  • Antes do jogo, um chá de coca, tradição local boliviana para ajudar na respiração, e sem doping

  • O cansaço bateu rápido, e jogar no gol foi a solução para recuperar as energias do repórter

  • Com o tempo, o corpo se habituou à altitude e, após o descanso forçado, o fôlego voltou ao normal

Nada de dores de cabeça, falta de ar ou sangramento no nariz. A experiência totalizou cerca de uma hora, em um campo pequeno no centro da capital boliviana, e cansei mais rapidamente do que o normal. Por isso, fui obrigado a ir para o gol e recuperar um pouco as energias. Depois retornei e parecia estar mais adaptado.

Antes de aceitar o desafio, ouvi palavras pouco incentivadoras dos brasileiros. Ainda em São Paulo, quando coloquei o tênis de futsal e o meião na mala, meu pai disse: "acho melhor você levar um tubo de oxigênio também." No avião, um colega de imprensa contou uma experiência de outro repórter que quase desmaiou e teve de descansar assim que desembarcou.

Por isso, rolou aquela ansiedade ao deixar o avião. "Será que vou passar mal também?", pensei. Desci na pista do aeroporto e caminhei normalmente, sem nenhum sintoma.

Com a população local, o diálogo foi diferente. Contei ao taxista que queria participar de uma 'pelada' para conhecer os efeitos da altitude, e ele respondeu: "não acontece nada, é tudo psicológico."

No hotel, o garçom brincou: "quem não gosta da altitude são os argentinos." Na última vez que os hermanos estiveram em La Paz, perderam por 6 a 1 para a Bolívia, em abril, goleada que orgulha os torcedores.

O mesmo garçom me convidou para jogar com os funcionários do hotel na manhã seguinte. Minutos antes de entrar em campo, tomei o famoso chá de coca, bebida tradicional no país andino por ajudar na respiração, segundo a cultura local.

É o mesmo chá que Zetti bebeu em 1993 e fez com que ele fosse flagrado em exame antidoping com resultado positivo para cocaína. Na época, o ex-goleiro da seleção convenceu as autoridades de que a substância proibida estava no chá e ficou livre da suspensão. No meu caso, não existia esse risco.

Cansei com 10 minutos de bola rolando e fiquei mais atrás, enquanto os demais voavam em campo. Arrisquei ir ao ataque algumas vezes e marquei um gol. O problema era voltar quando errava o lance.

Outro fato perceptível é que a bola fica mais leve. Alguns passes e lançamentos saem mais fortes do que o calculado.

Atuar como goleiro foi a solução encontrada, já que não trouxe o balão de oxigênio recomendado pelo meu pai e utilizado pelos atletas profissionais. Como meu time tinha um reserva, também fiquei alguns minutos no banco.

Retornei com mais fôlego, me arrisquei no ataque e marquei mais dois gols. Não que eu tenha sido o artilheiro, até porque foram muitos gols em toda 'pelada', e a maioria dos bolivianos em quadra não demonstrava muita afinidade com a bola.

Quando o corpo mostrava-se mais ajustado ao ambiente, uma equipe que aguardava do lado de fora invadiu o campo e acabou com a partida. Restou a impressão de que eu aguentaria mais uns 10 ou 20 minutos.

Na saída, os bolivianos me convidaram para tomar um suco e perguntaram: "e aí, você está bem?" Respondi que sim, e José Maria, meu colega de 'elenco', esbravejou: "está vendo. Não tem nada demais. Quando os outros times vêm aqui e perdem, culpam a altitude. Quando ganham, ninguém fala nada." A população teme que a Fifa proíba jogos oficiais em La Paz.

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