Maradona deve estar sim na Copa-2010. Quem disse isso não foi ele nem Julio Grondona, o presidente da federação argentina, mas Carlos Bilardo, o diretor técnico da seleção.
"Ele só me disse 'outro Mundial, outro Mundial'", contou Bilardo nos vestiários, quando estava sem lágrimas e já atendia bem alguns jornalistas.
Na entrevista coletiva, até por causa da guerra com a imprensa, Maradona pouco havia falado do seu futuro próximo. "Vou conversar com Grondona", declarou e saiu.
Antes mesmo dos dois últimos jogos das eliminatórias, Maradona apontava para essa reunião com Grondona para tratar de 'tudo'. Conseguiu seis pontos cruciais nos dois últimos jogos com muito sofrimento e seu maior problema agora é o relacionamento com a imprensa, algo que ele se propõe a melhorar em breve.
O próprio Grondona, nesta quinta-feira, em Buenos Aires, já fazia força para amenizar os xingamentos de seu treinador à imprensa. Disse que, por ser uma pessoa muito passional, Maradona costuma exagerar nas declarações quando está exaltado.
"Quando o sangue ferve, todo mundo diz coisas das quais depois se arrepende", afirmou.
Porém, na Argentina, os palavrões e o desabafo de Maradona não repercutiram bem. Grande parte da opinião pública (84% segundo pesquisas) queria a saída dele da seleção mesmo com a vaga na Copa.
A recepção negativa foi tão grande a ponto de se discutir a influência das ações do técnico Maradona sobre sua imagem, quase sagrada, como jogador.
Nos jornais, nas rádios, nas TVs e nas rodas de conversa, o assunto dominante era ele.
'Infame', 'repugnante', 'soberbo' foram os adjetivos mais comumente dirigidos a Maradona pelos comentaristas esportivos na TV. "É verdade que não dá para pedir para Maradona não ser Maradona, mas então a Argentina entra na Copa pela janela e nós vamos ter que aguentar toda essa soberba?", disse um irritado comentarista do canal de notícias
C5N."A seleção conseguiu a passagem para a África do Sul, apesar de ter uma condução impulsionada pela falta de lógica, com disputas internas e um técnico que escolheu o espírito revanchista e um estilo repudiável em vez da autocrítica", afirmou o diário
La Nación.Para o
Clarín, a atitude do técnico após a classificação vai "na contramão do que um cargo tão importante requer".
Além de reprovar o mau desempenho da seleção, diversos comentaristas esportivos argentinos argumentavam que, mais do que a classificação para a Copa, estava em jogo a sobrevivência do 'mito Maradona'.
Autor do livro 'Vivir en los Medios Maradona Off the Record', em que aborda a relação de Maradona com a imprensa, o jornalista Leandro Zanoni resumiu a questão: "Maradona sempre dobra a aposta".
Até Dalma, uma das filhas de Maradona, reprovou a atitude do pai, embora tenha tentado também justificá-la. "Fui a primeira a criticá-lo. Ele não precisava ter feito isso. Já tinha tido a glória com a seleção, em campo. Mas, quem se colocar no lugar dele, pode entender."
Se toda essa polêmica não pesar contra a sua permanência à frente da seleção, ele terá a chance de entrar no seleto grupo dos que ganharam uma Copa como jogador e como treinador. Assim, claro, como Dunga.