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De seu apartamento em Montevidéu, Jorge Fossati avalia trabalho e vê a Copa |
São alheias ao futebol as maiores preocupações do uruguaio Jorge Fossati pouco mais de um mês depois de deixar o cargo de técnico do Internacional. De abrigo esportivo, na companhia da família, o treinador anda às voltas com o funcionário de uma empresa de telecomunicações que vem instalar internet em seu apartamento em frente à Praia Pocitos, em Montevidéu. Na mesa de centro, repousa um sanduíche recém preparado. Futebol, por enquanto, só na enorme televisão de LCD.
Fossati recebeu o UOL Esporte em seu apartamento em Montevidéu nesta terça-feira, antes da partida do Uruguai contra a Holanda. Em quase uma hora de entrevista, o ex-treinador colorado falou da seleção uruguaia, a qual treinou entre 2004 e 2006, de seu futuro como técnico e, claro, sobre o Internacional.
Demitido pela direção do Inter no dia 28 de maio, técnico Jorge Fossati diz que motivos para saída não podem ser tiradas do "terreno da imaginação"
“Estou curtindo minha família, descansando, já rejeitei várias propostas”, diz Fossati, entre um telefonema recebido e outro. Em uma das ligações, o treinador fala em um fax que enviou para seu interlocutor. As propostas de clubes e seleções seguem aparecendo, mas por enquanto Fossati não fecha com ninguém. “Tenho que fazer força e não me deixar levar pela vontade, porque eu gosto de estar aí, todos os dias, trabalhando”, confessa.
Levando o Inter às semifinais da Libertadores, Fossati foi demitido no dia 28 de maio, após uma sequência de maus resultados no Campeonato Brasileiro. Os motivos de sua demissão ele prefere “não tirar do terreno da imaginação”.
Na entrevista a seguir, Jorge Fossati diz que o atual Inter comandado por Celso Roth quase não apresenta mudanças em relação ao seu trabalho, vê chances na semifinal contra o São Paulo e descarta responsabilidade da imprensa na sua demissão, mas alfineta: “Se alguém pensou em me mandar embora porque sentiu a pressão da imprensa, não é culpa da imprensa”.
Leia os principais trechos da entrevista com Jorge Fossati
Por que motivos o Uruguai chegou tão longe na Copa do Mundo?
Há uma série de fatores. Venho ressaltando isso desde o início das Eliminatórias, o Uruguai há muito tempo não se preparava do jeito que se preparou esta vez. Foi um processo de quatro anos com o mesmo treinador, o que deveria acontecer normalmente.
A Associação Uruguaia de Futebol trocou de presidentes, mas Oscar Tabárez seguiu como treinador.
Sim, mas isso não deveria ocorrer, porque esta instabilidade política prejudica. Pelo menos a continuidade do treinador e da ideia do projeto aconteceu. Além disso, os jogadores uruguaios desta vez estavam todos jogando em seus times. E não houve problemas com lesionados antes do Mundial. No decorrer da competição, o Uruguai foi indo de menos a mais. Começou com muitas dúvidas contra a França, mas foi avançando. Os adversários não foram fáceis, mas também não foram dos piores. Teve qualidade para matar os adversários quando teve oportunidade. E teve força espiritual, garra, que não é propriedade desse grupo, isso sempre o Uruguai teve e vai ter.

Se alguém pensou em me mandar embora porque sentiu a pressão da imprensa, não é culpa da imprensa
Também se percebe um sentimento de apoio dos uruguaios à seleção.
O discurso da imprensa uruguaia tem sido muito importante para deixar os uruguaios serem felizes. Até agora, tínhamos um discurso que tomava o Uruguai como se fosse a seleção brasileira. Muitos aqui acham que temos a mesma obrigação que Brasil e Argentina, e não é assim. E não deixam o povo ser feliz, desfrutar de determinados momentos. Nesta vez, o discurso foi diferente. Senti muito a mudança em relação à época em que estive na seleção
O senhor acredita que a imprensa acaba interferindo no trabalho dos profissionais do futebol?
Diretamente, não. Acho que a imprensa pode colaborar de uma forma extraordinária, olhando com positividade as situações, fazendo com que o futebol não se torne um drama e o torcedor possa viver a festa como ela é. Neste sentido é que acho que a imprensa é importante. Quando ela quer ir para outro lado, prejudica que o torcedor seja feliz.
Em sua entrevista coletiva logo após a saída do Inter, o senhor disse que não entendia a razão das críticas ao seu trabalho, já que o Inter está nas semifinais da Libertadores. O senhor acha que as críticas, tanto da imprensa como da torcida, criaram um ambiente ruim para o trabalho?
Que uma parte da imprensa e da torcida fizeram isso, dava para sentir. Mas não é responsabilidade da imprensa. Eu nunca disse que a responsabilidade da minha saída do Inter foi a imprensa. Talvez o que eu falei da imprensa tenha virado manchete, mas nunca quis dizer que a imprensa me tirou do Inter. Mas eu gostaria de deixar claro isso, tirar a imprensa do centro do problema. Quem toma decisão não é o jornalista. Ele pode pressionar para um lado e para outro. O problema é você ter personalidade ou não. Se alguém pensou em me mandar embora porque sentiu a pressão da imprensa, se isso aconteceu, não é culpa da imprensa.

Fiquei surpreso que se deixasse tudo de lado, só olhando para a Libertadores. Mas o que podem reclamar, né?
O senhor foi criticado pela atuação do Inter contra o Estudiantes, na Argentina [o Inter perdeu por 2 a 1, mas garantiu a classificação às semifinais da Libertadores], devido à postura defensiva do time. Mas sempre defendeu a organização tática, só desarrumar o time se for preciso nos minutos finais. Essa visão de futebol encontrou dificuldades no Inter?
Torcedor e imprensa pensam uma coisa, mas a realidade é outra. Eu vi o jogo amistoso do Inter contra o Peñarol no domingo. Sinceramente, não vi mudar nada. Ou seja, acho que a ideia do novo treinador é muito parecida com a minha. Não vi nada diferente. Você viu o Bolívar ou o Índio de centroavante? Não. O Nei e o Kleber apoiando? Sim. O Guiñazu e o Sandro mais sossegados, o Guiñazu subindo mais. Estou vendo a Copa do Mundo. Nos últimos minutos da partida do Brasil contra a Holanda, o Lúcio foi para o ataque, jogou quase de centroavante e não trouxe nada de bom. O Brasil tomou contra-ataques e a gente não sabe por que a Holanda não fez o terceiro. Estou convencido, pela experiência e pelo que acompanho, que desordem no futebol nunca leva a lugar nenhum. Os quatro times nas semifinais da Copa têm uma coisa em comum: são times. Funcionam como equipes. Todos os jogadores trabalham para defender e para atacar.
O técnico Celso Roth vem jogando com apenas dois zagueiros e colocou três volantes, com Wilson Mathias, enquanto não pode utilizar Tinga e Rafael Sóbis.
Sim, é verdade. Mas muitas vezes usei dois zagueiros. Eu gostava muito de utilizar 4-2-3-1 também, gosto deste sistema, e também o 4-1-4-1. Eu preferia, dentro do possível, dois atacantes. Ele trocou, mas não é que eu nunca tenha feito. Antes, jogava Andrezinho e não Mathias, que é mais cabeça de área. O Mathias teve bastante tempo lesionado. Joguei praticamente toda a Libertadores sem ele, talvez por isso ele apareça hoje como uma mudança. Mas se eu tivesse ele naquele momento, talvez ele tivesse mais oportunidades. A ideia em termos gerais não mudou praticamente nada. Saí do Brasil com a pecha de defensivista. Eu sempre procuro explicar que não se deve ir pelo sistema, não tem nada a ver. O sistema de jogo do Brasil é igual ao da Itália, é 4-4-2, mas são times diferentes, não é a mesma coisa. A mentalidade e a qualidade dos jogadores são diferentes. Jogar com três zagueiros não significa que você é mais defensivo, pelo contrário, eu adotei este sistema para poder liberar mais os alas. A grande diferença no Inter é que dá para perceber o time um pouco mais solto. Foram 35 jogos antes. O time está mais solto.

Vi o jogo amistoso do Inter contra o Peñarol no domingo. Sinceramente, não vi mudar nada
Com o atual time, ainda sem a confirmação de que poderá contar com Sóbis e Tinga, o senhor acha que o Inter tem chances contra o São Paulo na semifinal da Libertadores?
Sem dúvida nenhuma. Embora eu ache que o São Paulo seja um time respeitável. Não é uma equipe de grande espetáculo técnico, mas é um time sério, com uma defesa forte, quando tem os jogadores para jogar, já que nos últimos jogos estava. Vai ser complicado, mas que o Inter tem possibilidades, é claro que tem.
Fica uma mágoa pela forma como o senhor saiu do clube? O que irá sentir caso o Inter seja campeão da LIbertadores?
Não fica mágoa, mas tristeza. Não deu para perceber o que aconteceu. Eu tenho minhas conclusões, mas são coisas que não posso tirar do terreno da imaginação. Nesta mesma sala em que estamos agora, tivemos uma reunião com o presidente e o diretor de futebol, o objetivo era só um: a Libertadores. Lembro que até falei que um time grande deve ter presença em todas as competições. Quando me explicavam que íamos começar com o Inter B no Gauchão, até fiquei surpreso que se deixasse tudo de lado, só olhando para a Libertadores. Mas o que podem reclamar, né? Fiquei triste por isso, mas talvez sejam coisas normais no futebol. Não tinha acontecido comigo nunca. Tenho que ficar com o que foi positivo no Inter e no Brasil e esquecer da parte negativa. Se o Inter for campeão, vou sentir alegria por muita gente, pelos jogadores, pela diretoria com quem tive uma excelente convivência – repito, não sei o que aconteceu em 24 horas – e por uma parte muito grande da torcida do Inter que eu senti que não concordava com minha saída.

Se o Inter for campeão, vou sentir alegria pelos jogadores, pela diretoria e por uma parte muito grande da torcida do Inter que eu senti que não concordava com minha saída
Quando o senhor irá decidir seu futuro profissional e qual deve ser o rumo?
Graças a Deus, pode conferir, um dos grandes empresários brasileiros, que é o Juan Figer, esteve na minha casa em Porto Alegre 24 horas depois de eu ser demitido, com uma proposta muito importante, para fora do país. Desde aquele momento, repito a mesma coisa, especialmente naquele dia. Não tinha cabeça para, de um dia para outro, ver o que ia fazer. Eu queria só descansar, que é o que estou procurando fazer. Estou curtindo minha família, descansando, já rejeitei várias propostas da América do Sul, de clubes. O da seleção do Equador continua, isso estava antes de eu ir para o Inter. Estão aparecendo, você escutou uma ligação de outras propostas. Eu precisava dessa pausa, sempre falei em Porto Alegre que quando chegasse a pausa para a Copa, teríamos que pensar e analisar as coisas.
O senhor dizia que esperava a parada da Copa do Mundo para fazer um balanço do trabalho no Inter.
Estou em pausa, mas não estou como Inter. Estou aproveitando para me reunir com meus colegas da comissão técnica, avaliando tudo e procurando que essa parada seja para descansar mentalmente, fisicamente, mas também para continuar melhorando. Aproveitar a experiência, a Copa do Mundo, para tirar conclusões. Quando eu tiver a certeza do que eu quiser fazer, vou dizer que sim. Antes, vou dizer não, como já disse para vários clubes. Agradeço o interesse, mas se não estou no momento de acertar, tenho que fazer força e não me deixar levar pela vontade, porque eu gosto de estar aí, todos os dias, trabalhando.
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