UOL Esporte Futebol
 
08/10/2010 - 10h02

Paixão por carros revela ciúmes entre jogadores, extravagância e loucuras financeiras

Luiza Oliveira*
Em São Paulo

Jogadores de futebol se diferenciam pelo jeito de vestir, personalidade, comportamento ou religião, mas a paixão por carros sempre os uniu. Símbolo da classe como status e ascensão social, as possantes máquinas representam muito mais que um meio de transporte. Por isso, o sacrifício financeiro e os cuidados exagerados para mantê-las muitas vezes marcam essa relação.

VEJA O INFOGRÁFICO ABAIXO COM AS MÁQUINAS PREFERIDAS PELOS CRAQUES

Os estacionamentos dos centros de treinamentos pelo país dão o tom das preferências, que costumam ser pelos automóveis mais exóticos e chamativos.

A graça não é apenas ter o carro, mas também personalizá-lo. Muitos são adeptos do ‘tuning’ (expressão inglesa que indica a alteração das características do veículo para torná-lo único), trocam a roda, colocam aparelhos de DVD e outras parafernálias. Um outro mimo é colocar o número da camisa ou as iniciais do nome na placa. O serviço custa em torno de R$ 100 com um despachante.

Apesar de não ser uma regra, o que mais chama a atenção são as verdadeiras loucuras que uma parcela dos jogadores faz pelo sonho de ter um carro. O bem se torna prioridade em relação até à família e à moradia, mesmo se a situação financeira não for tão vantajosa.

É ao menos o que diz Neuzier Cavalcanti Albuquerque, 47 anos, que comercializa carros desde 1992 em uma grande concessionária do Rio de Janeiro especializada em venda para jogadores. Ele já teve clientes famosos como o meia Petkovic, Edilson, o zagueiro Juan, o goleiro Júlio Cesar, o lateral-esquerdo Athirson, o zagueiro Thiago Silva, o atacante Washington, o volante Toró, o atual comentarista Júnior e o atacante Bebeto.

NA CONTRAMÃO: LOCO ABREU PEDE CARONA E NÃO AJUDA NA GASOLINA

Alguns jogadores vão na contramão dos fanáticos. Quem mais chama a atenção no futebol brasileiro é Loco Abreu, atacante do Botafogo e da seleção uruguaia. Sem ter carro, vive pedindo carona e chega a ser ‘cornetado’ pelos colegas.

“O Loco Abreu se vira pegando táxi e carona. O pior é que ele pega carona não gosta de nos ajudar com a gasolina”, brincou o goleiro Jeferson.

O santista Paulo Henrique Ganso e o tricolor Ricardo Oliveira são menos radicais, mas estão na linha dos relaxados. O atacante adquiriu um Mini Cooper depois de ter muitos problemas e até puxões de orelha de antigos técnicos.

"Nunca fui viciado em carro. Quando comecei a carreira, o Candinho me deu um puxão de orelha. Eu tinha comprado um Polo usado e começou a dar problema. Aí usei como entrada para pegar um Zafira e fiquei com ele até 2004. Era um carro bem familiar, nada de chamar a atenção".

Considerado humilde, Ganso dirigiu por um bom tempo um Ecosport. Recentemente adquiriu uma BMW X1 e repassou o modelo da Ford ao irmão.

“Os jogadores compram carro por vaidade. Se um jogador de um determinado clube comprar um Audi, o do clube rival quer comprar um melhor. Às vezes a família do jogador nem carro tem, anda de ônibus. Muitos também compram por influência de colegas. O cara compra uma Mercedes, diz que o carro é bom, leva o companheiro para dar um volta e faz a cabeça dele”, disse.

Segundo Albuquerque, as marcas mais famosas entre jogadores são Mercedes, BMW e Audi. O carro mais caro vendido por ele foi uma BMW X5 no valor de R$ 380 mil, em 2006. Na visão do vendedor, as altas cifras não são levadas em consideração na hora de realizar o sonho, o que pode sair literalmente caro depois.

“Já vi jogadores com carros apreendidos por falta de pagamento. Os clubes atrasavam os salários e as prestações de R$ 60 mil se acumulavam. Depois fica difícil pagar R$ 120 mil, R$ 180 mil. Às vezes ficam sem dinheiro para pagar o aluguel da casa. Teve um que comprou um importado e não pagou. O camarada escondeu o carro na casa de um amigo dele para não ter o carro apreendido”, contou.

Até as principais estrelas do futebol brasileiro que não têm problemas com dinheiro sinalizam metas ambiciosas em relação ao assunto. O atacante Neymar, do Santos, adquiriu um Volvo XC60 no valor de R$140 mil quando completou 18 anos. Mas seu sonho é ter um Porsche e uma Ferrari. Kleber, do Palmeiras, gostaria de dirigir uma Lamborghini, mas a considera muito cara.

Em apuração feita pelo UOL Esporte, o veículo que mais faz a cabeça dos jogadores de futebol hoje é o Chrysler 300C. No Santos, Keirrison é um dos mais ‘invejado pelos colegas’. No Cruzeiro, o carro virou a sensação. Os primeiros a desfilarem com o modelo foram o lateral-direito Gabriel (hoje no Grêmio) e o zagueiro André Luís (atualmente no Fluminense).

Fábio, Jonathan, além do meia Marcos Assunção, do Palmeiras e os laterais Roberto Carlos, do Corinthians, Fernandinho, do Atlético-MG pilotam o veículo. O goleiro celeste conta o motivo de sua escolha e garante que teve cautela ao adquirir um bem que custa mais de R$ 200 mil.

“A maioria sempre gostou desse carro e, por coincidência, todo mundo comprou na mesma época. É o estilo, o design que é diferente. É um carro retrô. Quando lançou, eu já queria comprar, mas em cada momento você tem seus objetivos. Na época, eu tinha objetivos de comprar outras coisas e esperei o momento certo”, disse.

O ex-funcionário do clube Flávio Márcio Garça aproveita que trabalhou no Cruzeiro por dois anos para ter acesso aos jogadores e oferecê-los novos modelos. Ele diz que “ficava por conta, andava com os jogadores para cima e para baixo”.

Ele já participou da  venda de modelos das montadoras Chrysler, Audi, BMW, entre outros, aos atletas. “Os jogadores não gostam muito de um carro casual. Eles gostam de carro de rappers norte-americanos como Camaro, Mustang e Chrysler”, disse.

*Colaboraram Gustavo Andrade, Bruno Thadeu, Renan Prates, Rodrigo Farah, Carlos Padeiro, João Henrique Marques, Vinicius Mesquita e as redações do Rio de Janeiro e de Porto Alegre

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