O cantor Manu Chao usou a camisa do Autônomos FC em seu show em São Paulo
Você certamente já ouviu alguém falar que o futebol é o mais democrático dos esportes. Em São Paulo, um time de várzea leva essa máxima ao limite. O Autônomos FC é um time criado por punks e anarquistas que disputa campeonatos amadores. Joga na várzea de São Paulo, é o atual campeão continental "alternativo", já excursionou pela Europa, ficou alojado em squats (prédios abandonados que foram invadidos para servir de moradia) e até conquistou Manu Chao.
No último fim de semana de janeiro, o Autônomos foi até a Argentina e conquistou o título da primeira Copa América Alternativa. A disputa aconteceu em Córdoba, em dois dias, com partidas de dois tempos de 20 minutos. As partidas foram organizadas pelo Auto e pelos argentinos do Club Che Guevara, um time esquerdista da cidade.
O time brasileiro ganhou a competição com só uma vitória em seis jogos, incluindo empates em toda a fase de mata-mata. “Na fase final, quase todos os jogos empataram. O equilíbrio era grande e as equipes estavam cansadas. Todo mundo vinha de três jogos debaixo de um sol escaldante no sábado”, lembra Danilo Cajazeira.
As outras equipes que disputaram a competição também tinham origens esquerdistas. Os times ingleses Easton e Republica, que atuaram como combinado, por exemplo, fazem ações antifascistas na Europa. Já o Inter de Córdoba é um time guevarista que tem um trabalho social com garotos de sua cidade.
O cantor francês, em show em São Paulo no ano passado, usou uma camisa da equipe. “O Manu Chao veio tocar aqui ano passado e um torcedor, amigo do time, estava na produção. Levou nossa camisa, explicou o que era o time. Ele fez o show com a camisa no palco, junto com outras. No bis, vestiu e fez o final do show com ela”, conta Danilo Cajazeira, um dos fundadores do Auto.
O que seduz no time é sua proposta inusitada. Criado por membros de movimentos de contracultura, critica uma série de características presentes no futebol moderno, seja profissional ou amador. “Um time com ideal autogestionário, anti-racista, anti-fascista, contra o futebol mercadoria”, diz a página do time (autonomosfc.com.br).
O discurso soa forte. Na prática, porém, o Autônomos ainda é um time de futebol. “A gente não é panfletário. Não prega nada. Quem se aproxima é quem se interessa pelo ambiente. O time tem gente que mora nos confins da zona leste, mas também vive em Perdizes”, diz Danilo.
A parte política fica para quando a bola para de rolar. “Depois do jogo conversamos com quem estiver interessado. Em datas importantes, como perto de feriados importantes ou eleições, imprimimos panfletos para mostrar nossas idéias. Ainda assim, o importante é o futebol”, continua.
Com essa postura, equipe cresceu e, hoje, é bem diferente de sua origem. “O Auto é um time fundado por punks e anarquistas em 2006 que cresceu e passou a abrigar um monte de gente e coletivos de bandeira apartidária e horizontal. Ou seja, sem hierarquias internas. Aceitamos todo mundo que aceita esse princípio, independentemente de ser bom de bola ou não”.
Em seis anos, o Autônomos passou do futebol de 7 para a várzea e tem times A e B no futebol de campo masculino e no futsal feminino. A equipe usa as instalações de um CDM (Clube Desportivo Municipal) e ainda tem uma sede, na Lapa, que virou centro social e cultural, chamado Casa Mafalda.
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A ligação com Manu Chao não é a única do Auto com a música. A sede da equipe, a Casa Mafalda, é um centro cultural que abriga shows e, em alguns casos, os músicos acabam entrando em campo. "Uma vez, em 2007, uma banda de ska da Suíça que estava por aqui jogou inteira pelo Auto. Foi engraçado", lembra Danilo. Costumam tocar na casa bandas de rock alternativo, punk e rap, mas o espaço já recebeu festas de forró e samba. "Nós já jogamos e tocamos com o pessoal do Mama Gumbo, Pé de Mulambo, Invasores de Cérebro, Íbis de Serrana e mais uma pá de banda, incluindo algumas internacionais", completa. Além disso, o Auto já originou duas bandas: a Fora de Jogo, que fala só sobre futebol, a Colégio Interno, que tocou no festival de encerramento do Mundial Alternativo da Inglaterra. |
A natureza incomum fez o Autônomos entrar no circuito internacional de “futebol alternativo”. Em 2008, o time antifascista inglês Easton Cowboys & Cowgirls veio ao país. Em 2010, os brasileiros foram para a Inglaterra, disputar a Copa do Mundo Alternativa. “A idéia de fazer uma Copa América nasceu desse contato”, lembra Danilo.
Essa viagem, aliás, foi marcante para a equipe, que ficou hospedada em squats, prédios abandonados que foram ocupados para servir de moradia. “Nessa viagem, o time teve contato com realidades diferentes. Ficamos em uma ocupação e algumas pessoas não tinham idéia do que era isso. As pessoas conhecem a política macro, mas não esse universo micro”, completa o jogador-fundador.
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Um dos fundadores da equipe, Danilo Cajazeira não nega o amor pelo futebol e, principalmente, pelo Corinthians. Ele é tão fanático que assinou o nome do clube em seu RG: "A ideia era estar com a camisa do Corinthians na foto do RG, mas não deixaram. Assinei então o meu nome, já que uma das coisas que define a personalidade de uma pessoa é o time por quem ela torce", afirma jogador do Auto, que também é professor. Convidado pelo UOL Esporte para falar um pouco mais de sua paixão pelo Corinthians, Danilo mostrou dezenas de camisas do clube, livros, animais de estimação e contou diversas histórias ligadas ao time, incluindo a vez que jogou as cinzas de seu pai atrás do banco de mandante do Pacembu para se sentir mais próximo do ente querido toda vez que fosse assistir a um jogo do time do parque São Jorge. |
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