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Renata Borges, mulher de Breno fala sobre dia em que jogador colocou fogo na casa

Renata Borges, mulher de Breno fala sobre dia em que jogador colocou fogo na casa

17/09/2012 - 11h00

Mulher de Breno confirma jogador bêbado em noite do incêndio e tenta se reerguer após tragédia

Luiz Paulo Montes
Do UOL, em São Paulo

Desde o dia 19 de setembro de 2011, Renata Borges vive um drama. Naquele dia, ela viu seu marido, o jogador Breno, do Bayern de Munique, provocar um incêndio na residência do casal e ser perseguido pela justiça alemã. Quase um ano depois, Renata, enfim, resolveu falar e dar sua versão para o ocorrido, que destruiu a residência, com todos os bens, e fez com que Breno fosse preso e condenado a três anos e nove meses de detenção.

Nesta entrevista exclusiva ao UOL Esporte, ela falou por 1h15, resguardou-se em alguns momentos e emocionou-se em outros. Contou, em detalhes, passo a passo do marido, a quem visita duas vezes por mês. No papo, Renata confirmou que Breno estava "completamente bêbado" no dia do incêndio, e, que por 20 minutos chegou a pensar que o zagueiro, ex-São Paulo, havia morrido.

Breno
Breno

"Eu pedia para a polícia para entrar na casa, mas eles diziam que não dava mais. Foram 20 minutos de pânico. Eu via o Breno saindo de lá todo queimado, machucado. Nisso, veio uma policial e falou que ele não estava lá dentro. (...) Eu tinha certeza que ele tinha morrido. Você chora a morte da pessoa que você ama durante 20 minutos e de repente vi que ele estava vivo", lembra Renata.

Atualmente ela vive ao lado dos três filhos em Munique, e, sem ajuda financeira, chegou a se desfazer de alguns bens do casal em São Paulo para manter-se na Alemanha, com uma vida mais modesta, mas sem passar dificuldades, segundo ela.

Confira abaixo a íntegra da entrevista.

UOL Esporte: Como estava o Breno antes do incêndio?

Renata: Ele estava muito triste, não somente naquela noite. Tivemos uma vida triste aqui desde o começo. Ele não jogou, não teve oportunidade. Veio do São Paulo cheio de glamour. O ano de 2007 foi muito feliz na carreira dele. Aí, chegou aqui e nunca jogou. Ficou no banco no primeiro ano, no segundo também. Em 2010 sofreu a primeira lesão. Nunca jogou, mesmo recuperado. Fez mais duas cirurgias. Naquele dia ele recebeu a notícia da quarta operação. Estava muito abalado.

UOL Esporte: Ao longo desse um ano, muitas versões foram ditas sobre o incêndio. O que, de fato, ocorreu naquele dia?

Renata: Pela manhã, fomos ao médico, um dos melhores especialistas. Ele olhou e falou: 'Breno, não sei o que está acontecendo. Seu joelho não cura. Você vai precisar fazer a raspagem'. Ele foi para casa muito triste e me chamou para ir a um restaurante para distrair. Fomos eu, ele e o Guilherme (Miranda, até então empresário do atleta), e meu filho mais novo. O Rafinha (lateral direito do Bayern) estava com uns amigos, almoçamos e eles estavam bebendo uma cerveja. O Breno começou a beber e ficaram lá até umas 15h. Eu saí, fui buscar os outros dois filhos na escola. Por volta das 17h, liguei e eles já estavam indo para casa. Quando cheguei, ele e o Guilherme estavam bebendo uma garrafa de vinho. Umas 20h fui pôr as crianças no quarto e ele ainda estava bebendo, sentado na cozinha, e vi que tinha acendido no narguile.

UOL Esporte: Naquele momento ele já estava bêbado?

Renata: - Vi que ele estava bastante bêbado. O Rafinha chegou na frente da minha casa com uma Ferrari, fazendo bastante barulho. A cozinha era logo na frente, e o Breno escutou o barulho. Saiu para frente da casa e vi ele bem alegre, sendo que ele é meio tímido normalmente. Ele se jogou em cima do carro, e lembro que até cortou o dedo no limpador de parabrisa do carro. Ele nem reparou. Um amigo deles, que é um senhor negro, mais velho, falava: "Brenão, nós somos irmãos. Te amo". Eu pensei: "nossa, o Breno está muito bêbado". O Rafinha falou para colocar ele para dormir. Mas eu não conseguia, ele já tinha bebido demais. E quando o Rafinha foi embora, ele começou a beber uma garrafa de whisky. Eu pedi para ele parar, pois ia operar no dia seguinte. Do nada, depois de beber, beber, beber, ele começou a falar: "A polícia quer pegar o Rafinha. Os caras querem pegar o Rafinha. Preciso ajudar meus amigos". Começou a ligar, mas ele não atendia, pois tinha ido para a Oktober Fest. Nisso ele saiu correndo para a rua, e o Guilherme foi atrás. Passou 10 minutos e eles voltaram. Ele estava rolando no chão, em uma pracinha. Disse que estava se escondendo da policia.

UOL Esporte: O que você fez, então?

Renata: - Coloquei ele no chuveiro, mas ele não ficou nem um minuto lá e saiu. Colocou outra roupa e já subiu a rua de novo. Eu já estava assustada. Quando ele voltou, entrou no quarto, olhou para mim e falou: "Amor, você cuida do pequeno (Pietro, de 3 anos). Abriu a janela e ameaçou pular. Eu segurei ele por trás, orei. Ele acalmou, pensou melhor. Mas aí abriu a janela do banheiro, e foi para pular mesmo. Eu comecei a gritar, o Guilherme subiu e segurou ele. Ele empurrou o Guilherme e pulou. Era uma altura de uns 4 metros. Pensei que tinha desmaiado, se estourado. Mas na mesma hora ele levantou e saiu correndo. Cinco minutos se passaram, e ele voltou para casa. Falou: "Você vai ficar aí?".

UOL Esporte: O que você respondeu?

Renata: Disse: "Sim, o que você quer de mim?". Ele queria ajuda. Pensei então e colocar ele no carro, fingindo que estávamos procurando o Rafinha, e rodar até ele dormir. A gente então desceu para a cozinha. Nisso, ele pegou uma faca enorme que eu usava para cortar carne. Eu deixava ela em cima do armário, por causa das crianças. Eu amoleci as pernas, e ele saiu correndo para a rua com a faca. O Guilherme falou para eu entrar no carro com as crianças e ficar lá, pois a partir daquele momento estava perigoso. Ele estava fora de si, e com uma faca na mão. Não sabíamos o que se passava na cabeça dele. Eu acordei as crianças, fui para o carro e  fiquei dando voltas em torno do quarteirão. Quando dei a terceira volta, vi que tinha luz acesa, garrafa quebrada na frente de casa. Comecei a ligar para o Rafinha. Liguei umas 30 vezes. Aí, ele atendeu e eu pedi: 'Rafinha, volta. O Breno está muito bêbado". Ele falou que em 10 minutos estava lá. Parei em uma das esquinas para esperar o Rafinha, e não deu cinco minutos eu vi que vinham vários carros de polícia, bombeiro. Estranhei, ali é um bairro quieto, tranquilo. Pensei: "meu Deus, ele se matou, ou matou alguém com a faca". Já fui atrás dos carros da polícia. Quando estava chegando, não dava mais para passar. Larguei o carro aberto, saí correndo. Quando vi, minha casa estava com uma chama de fogo enorme.  Não acreditava naquela cena. Eu estava muito nervosa, comecei a gritar em português que era a minha casa. Eles (policiais) não entendiam nada.

UOL Esporte: Ali você pensou que o Breno tinha morrido?

Renata: Eu pedia para entrar lá, tirar o Breno lá de dentro, gritava que era o meu marido, mas eles diziam que não dava mais. Foram 20 minutos de pânico. Eu via o Breno saindo de lá todo queimado, machucado. O Rafinha chegou, me viu gritando, chorando. Nisso, veio uma policial e falou que ele não estava lá dentro. Ela me levou uns 200 metros dali e me mostrou ele dentro de um carro da polícia, com a cabeça baixa. Eu tinha certeza que ele tinha morrido. Você chora a morte da pessoa que ama durante 20 minutos e de repente vê que ele estava vivo. Foi um choque tão grande naquele momento... (pausa).

UOL Esporte: Quando foi o seu primeiro contato com o Breno depois disso?

Renata: Foi na manhã seguinte. Eu fui para a casa do Rafinha com as crianças, fiquei lá. O Breno me ligou do hospital, perguntou por que eu não estava lá com ele. Fui para o hospital, encontrei ele, ainda estava todo sujo, acho que pela fumaça, né. Ele não se lembrava de absolutamente nada. Nada mesmo. Não sabia como tinha provocado o incêndio, nem de ter entregue isqueiros à polícia (como consta em processo, de acordo com depoimento do advogado).

UOL Esporte: Vocês tiveram tempo ao menos de conversarem a sós para ele explicar o que houve?

Renata: Tempo nós tivemos, mas ele não lembrava de nada mesmo.

UOL Esporte: No incêndio, vocês perderam tudo, e agora não têm o salário que o Breno recebia. Como estava a situação financeira de vocês? Hoje, como você vive?

Renata: O Breno tinha um bom salário até se machucar. Depois, nunca mais ficou estável financeiramente. O jogador machucado não recebe salário. Isso é lei do futebol alemão. (Nota da redação: após o período de seis semanas, o atleta passa a receber apenas uma pequena parte de seu salário). Me criticaram muito nesse tempo pois diziam que eu reclamei de viver com 10 mil euros. Mas 10 mil euros não são R$ 25 mil, mas sim 10 mil euros. A vida aqui é muito, muito cara. Mas antes das lesões a gente fez uma vida estável, temos imóveis no Brasil. Até agora estava vivendo com um pouco de dinheiro que tínhamos juntando, esperando o momento de ir para o Brasil. A gente não estava em uma vida tão confortável assim. Recentemente fui para o Brasil, vendi algumas coisas nossas, mas não me desfiz de tudo não. Vendi para algumas despesas, para me estabilizar e viver uma vida simples aqui. Estou num apartamento pequeno, mais modesto. Não quero vender tudo. O Breno vai sair dali um dia. Não preciso de uma vida luxuosa.

UOL Esporte: Como é a sua situação no país?

Renata: O meu visto acabou quando acabou o contrato de trabalho do Breno no FC Bayern, em 30 de junho. Eu, hoje, posso estar aqui pois meu visto foi estendido... Entendeu?

UOL Esporte: Por causa da prisão do Breno? É lei da Alemanha ou é um favor deles para você?

Renata: É, acaba sendo um favor. Se um estrangeiro é preso aqui, eles não tem obrigação de dar o visto para a esposa desse preso viver aqui...

UOL Esporte: Você recebeu ajuda de alguém? O São Paulo sempre disse ter carinho pelo Breno... O Bayern ajudou com alguma coisa?

Renata: Qual tipo de ajuda?

UOL Esporte: Financeira.

Renata: Não, não. Nada. Eu nem esperava, na verdade.

UOL Esporte: Nem o São Paulo ajudou?

Renata: - Financeiramente não. A gente tem amizade, proximidade com o Adalberto Batista (dirigente do São Paulo). Quando pegou fogo, ele me ligou, disse que ia mandar um psicólogo e um advogado para conversar e me ajudar. E eles vieram do Brasil para cá. Mas estava tudo tumultuado, não consegui me encontrar com eles. Sobre o FC Bayern, não gostaria de falar.

UOL Esporte: Você acha que houve falha na defesa de vocês? O advogado errou?

Renata: Não sei se ele errou. Não sei se a defesa foi a certa. Werner Leitner (advogado) fez coisas que não eram para terem sido feitas. Ele fez o que achou que devia. Eu vi tudo, e não testemunhei. O Breno não testemunhou. Não comparei ao julgamento, fiquei rodando ao redor do fórum. Eu não sei qual foi a estratégia que ele usou, mas ele declarou que o Breno tinha problemas pessoais comigo e por isso pôs fogo na casa. Essa é a dificuldade de se ter um problema jurídico em outro país.

UOL Esporte: Existe alguma possibilidade de ele poder cumprir a pena no Brasil?

Renata: Pelo que eu me informei no Itamaraty, eles falam que o Brasil não tem acordo com a Alemanha. Quando não tem esse acordo, não existe isso de ele ser condenado em um país e cumprir pena em outro.

UOL Esporte: Mas tem chance de redução de pena, ao menos? Você está otimista?

Renata: Eles falam que se o preso tem um bom comportamento, não causa problemas, a pena pode ser reduzida pela metade. Otimista eu sempre sou e é isso que me mantém viva. Tenho fé gigante em Deus. Tem o recurso (que deve ser julgado entre dezembro e janeiro), e a gente acredita que a justiça alemã vá reavaliar isso.

UOL Esporte: Como é o seu contato com o Breno? Como são as visitas? Como ele está na prisão?

Renata: Ele está muito forte, dizendo que vai suportar. O Breno é guerreiro. Sempre foi, mesmo diante dos problemas. Mas se sente muito triste por estar preso. Ele fala que não era para estar lá. Mas está cheio de esperança de que as coisas vão acontecer. Ele está trabalhando na lavanderia, disse que pediu para trabalhar, pois o tempo passa mais rápido do que ficar preso dentro do quarto. Ele trabalha das 6h até às 16h. Depois treina uma hora por dia. Agora ele é chefe da lavanderia, sabia?

UOL Esporte: Ele foi promovido, então?

Renata: É.. (risos). Acho que é isso. Lá têm os cargos, né? Agora ele é o chefe...

UOL Esporte: E as visitas?

Renata: Posso visitar ele duas vezes por mês, durante uma hora cada vez. Ficamos em uma sala especial para as visitas. A gente fica o tempo todo grudado, juntinhos. Os alemães ficam olhando... Eles não ficam juntos, é até engraçado. Nem ficam frente a frente, normalmente ficam com uma mesa entre o preso e o visitante. Eu não, aproveito o tempo todo junto com ele, abraçada.

UOL Esporte: - Ele chora?

Renata: - A gente chora bastante. Todo mundo chora.

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